Na história do cinema, há aqueles filmes que são cruciais na construção da persona de um ator perante o público e a própria indústria. Audrey Hepburn e “Bonequinha de Luxo”, Johnny Depp e “Edward Mãos de Tesoura“, Marcello Mastroianni e “8 1/2” são alguns dos exemplos que me vêm logo à cabeça. Em 1939, isso ocorreu com alguns clássicos cujos papéis principais viraram o que se chama de “signature role” de seus astros. Já falei aqui de Judy Garland e “O Mágico de Oz”, e, mais para frente, escreverei sobre Vivien Leigh e “…E o Vento Levou”. Essas duas produções se encaixam nessa categoria de “papel-símbolo”, mas se há um personagem levado às telas em 1939 que merece esse título é o Jefferson Smith que James Stewart vive em “A Mulher Faz o Homem”, de Frank Capra. 

Antes de qualquer coisa, vamos ignorar este título brasileiro horroroso e machista e que não faz justiça às complexidades tanto de Smith quanto da principal personagem feminina da história, Saunders (vivida por Jean Arthur). O título original, “Mr. Smith Goes to Washington” é mais sucinto e, em sua simplicidade, aponta o real mote do drama dirigido por Capra. Essa é uma fábula sobre a inocência perdida no cruel mundo da política e sobre como ideais podem ser manchados em prol da sobrevivência. 

No drama, o personagem de Stewart é um senador em início de carreira, que vai para Washington (como o título original aponta) cheio de sonhos e com a empolgação dos ingênuos, mas logo percebe que essas características colocam um alvo em suas costas e que aqueles que pareciam lhe apoiar não vão hesitar em colocar o pé para que ele tropece. 

Àquela altura, Frank Capra já era um diretor consagrado, com filmes como “Aconteceu Naquela Noite” (1934), “O Galante Mr. Deeds” (1934) e “Do Mundo Nada Se Leva” (1938), que o colocou pela primeira vez em contato com um jovem ator em ascensão, James Stewart. Com alguns papéis de destaque aqui e ali, Stewart foi, sem dúvidas, alçado ao estrelato com a parceria com Capra, que resultaria ainda em outro clássico do cinema, A Felicidade Não Se Compra” (1946)

Com um carisma que transcendia a tela de forma eletrizante, Stewart é puro coração neste filme de 1939. No papel, Jefferson Smith seria um personagem nada crível, e é o trabalho do seu intérprete que o transforma em um homem de verdade. A teatralidade e o exagero da criação de Stewart são cirúrgicos, porque, à medida em que Smith é encurralado pelo sistema, seu desespero fica cada vez mais latente. A paixão com que o ator entrega os discursos de seu protagonista lhe garantiram uma justa indicação ao Oscar, mas seu trabalho aqui não se resume a isso: o brilho nos olhos de Smith na primeira metade da trama é fundamental para que embarquemos com ele nesta jornada, e Stewart consegue transmitir essa sensação de sonho realizado e de nervosismo com o futuro que o espera. 

FÁBULA DA INOCÊNCIA PERDIDA 

Mas “Mr. Smith Goes to Washington” não se resume à atuação de James Stewart. Capra também tem aqui um de seus melhores trabalhos, com uma brincadeira constante com os símbolos americanos e todo o peso que eles carregam. Com maestria, ele transforma o roteiro de Lewis R. Foster na clássica história do azarão por quem o público quer torcer, ao mesmo tempo em que propõe uma discussão sobre ética e o valor da honestidade em um ambiente tomado pela corrupção.  

Décadas antes de Gilberto Braga questionar se “valia a pena ser honesto no Brasil” com sua obra-prima “Vale Tudo” (1988), Capra já colocava essa discussão na mesa em um contexto que, apesar de gritar Estados Unidos, conseguia ser universal a ponto de fazer com que o filme fosse vetado na Espanha, Rússia, Itália e Alemanha, além de ter tido dublagem alterada em outros países europeus para que a sua mensagem original não fosse propagada.  

Não que “Mr. Smith…” seja subversivo. Muito pelo contrário. O que faz o drama ser tão atual, mesmo 80 anos depois de seu lançamento, é justamente a simplicidade com que trata os seus temas. O protagonista da obra é o homem comum em sua excelência – a propósito, tem nome mais americano que Jefferson Smith?  

As escolhas estéticas da película acabam enfatizando a pequenez de Smith naquele universo. O exagero da primeira vez que o personagem pisa no Memorial Lincoln é corroborado pela montagem, que nos joga diversos símbolos extremamente americanos, como a própria estátua do ex-presidente que dá nome ao local. Tão mostrada no cinema e na TV, a figura de Abraham Lincoln aparece primeiro como o símbolo do sonho realizado de Smith, mas, ao que ela some em uma fusão com a palavra “Liberdade”, sabemos que aquele momento de contemplação é apenas a calmaria antes da tempestade. Quando vemos Lincoln de novo, ele simboliza o fracasso pessoal de Jefferson Smith, que se vê pequeno e ameaçado naquele momento da trama.  

A primeira aparição da estátua de Lincoln tem ainda um outro detalhe importante inserido para enfatizar esse sentimento de inocência e dever de Jefferson: uma criança, que, ao lado de um idoso, lê a declaração de Independência dos EUA. Ao longo do filme, temos presenças estratégicas de crianças, como que para lembrar o personagem que aquela posição é algo que ele sempre almejou (e os menininhos aparecem bastante, já que uma das causas defendidas pelo Senador é a dos escoteiros).  

Oito décadas depois, “Mr. Smith Goes to Washington” segue como um importante exercício sobre a política norte-americana, mas se revela global e atual ao passo que aborda vários temas tão falados com intensidade nos dias de hoje, como as famosas “fake news” e o lobby feito para que leis sejam ou não aprovadas. Porém, ao fugir do didatismo e abordar as implicações morais de alguém inserido naquele universo, Capra cria uma fábula impressionante sobre dever, ideal e inocência perdida. Já James Stewart pode até ter tido outros personagens icônicos – e os teve -, mas é a Jefferson Smith que ele tem que agradecer pela perpetuação de sua persona no imaginário dos cinéfilos de todo o mundo. 

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