Apresentando influências expressivas de séries como Stranger Things e The OA, a nova atração da Neflix, Dark, ganhou seu espaço garantido entre as séries maratonadas no catálogo. Isto se deve aos clichês americanos já conhecidos apresentados sob novas influências.

A premissa comum apresenta a pequena cidade de Widen onde diferentes famílias possuem suas histórias interligadas. A vida pacata na cidade é interrompida quando crianças começam a desaparecer de forma misteriosa, revelando segredos de seus habitantes. Junte isto a um roteiro bem trabalhado, uma estética que brinca com o terror e trilha sonora marcante e terá um bom motivo para fazer outra maratona.

Mesmo sendo lembrado em diversos momentos da trama, este modelo não é a grande atração em Dark. Sua narrativa busca elementos desconhecidos ou pouco explorados entre as possibilidades apresentadas no serviço de streaming. O principal motivo para isto é a ambientação da série, ao explorar uma cidade da Alemanha com atores que falam o idioma local (diferente de filmes americanos onde qualquer um é fluente em inglês), Dark dá seus primeiros passos em direção a originalidade.


Gosto pelo desconhecido

Além de apresentar uma história situada em um lugar não convencional, Dark possui diferentes elementos para ambientar o estranhamento na série. A primeira temática inserida é o suicídio, este tipo de ação pelo simples fato de existir acarreta diferentes questionamentos e o suicídio de Michael Kahnwal (Sebastian Rudolph) potencializa isto com elementos significativos como a carta deixada.

Na série, não basta Widen ser uma cidade pequena e calma, esta também precisa ter uma usina nuclear em seu cenário. Mais um item que desperta curiosidade, o que fica claro em diferentes momentos da série. Muitas histórias estão diretamente ligadas à existência desta usina, afinal a área em volta deste lugar é responsável pelos principais acontecimentos da série. E para aumentar o mistério sobre uma usina nuclear, Chernobyl também é citada em comparação com Widen, e com o insistente questionamento se o mesmo acidente poderia se repetir na cidade.

O aspecto principal relacionado ao contexto e ambientação da série é a utilização de diferentes linhas temporais. Utilizando mais de duas linhas do tempo, esse elemento é inserido de forma quase que aleatória durante seus dez episódios. Em alguns momentos existe a marcação na mudança de tempo, em outros não há nada que indique esta diferença.

Assim como Stranger Things, Dark também faz paralelos com uma ambientação nos anos 80. Porém diferente da outra série, o uso desta referência a outra época não possui o mesmo significado. Se em Stranger Things a década de 80 é utilizada por seus aspetos mais obscuros, em Dark é utilizada a sua estética colorida e própria, como forma de demarcação temporal.

Alcançando uma perspectiva diferente, a trama principal se torna justificada pela ciência e suas variantes. A série adota um tema pouco conhecido pela maioria das pessoas, e o relaciona com os acontecimentos da série, para muitos tudo o que se conhece acerca das variações de tempo e espaço é aquilo mostrado em tela.


Protagonistas

Uma das principais referências do formato americano de filmes e séries é a presença de um personagem principal que possa cumprir a jornada do heroi. A série então, faz questão de buscar outras formas de apresentar seus personagens. Ao iniciar e terminar a temporada com a história de Jonas Kahnwald (Louis Hofmann), é possível que ele seja o ponto principal da trama, porém o decorrer de seus episódios o espectador mal nota sua ausência.

Isto ocorre devido a série adotar diferentes fios condutores, sendo sua primeira protagonista a própria cidade. Todas as tramas e personagens são encontrados no mesmo espaço, com a presença dos mesmos lugares como forma de conexão entre tantas histórias. É impossível descrever uma única pessoa como aquela que faz a série acontecer, todos se tornam uma parte do grande quebra-cabeça dirigido por Baran bo Odar. Assim é possível considerar que a cidade é seu ponto principal ou mesmo que todos personagens são protagonistas.

Ao inserir uma quantidade considerável de pessoas a série não possui uma maior preocupação em apresentar cada um. As cores porém, interligam personagens com seu passado assim como a forma que são capturados em cena. É comum ver seus indivíduos de costas para a tela, como se escondessem algo ou até mesmo tivessem vergonha de revelar.

A construção de suas identidades fica por conta das diferentes linhas do tempo. Mostrar os mesmos personagens em diferentes épocas se torna a verdadeira forma de apresentá-los para o espectador, assim é mais fácil compreender suas reais motivações e como estas funcionam em diferentes momentos. Porém o que ocorre diversas vezes devido esta escolha é o esquecimento de algumas tramas e mesmo de personagens. Histórias que podem se tornar importantes para a compreensão da série ou que atraem a atenção do público mas que são deixadas de lado para a inserção de mais questionamentos.


Perguntas sem resposta

Em pouco tempo, Dark conseguiu se afirmar como uma série cativante e digna de maratona, porém corre o risco de sofrer o mesmo problema que outros seriados possuem ao apresentar um número muito grande de questionamentos para a pequena porcentagem de soluções. É claro que a série deve possuir motivações e conexões para a próxima temporada, porém ao inserir tantos elementos curiosos e desafiadores para seu público é passível do questionamento acerca de suas respostas.

Com uma quantidade tão grande de teorias e possibilidades, a série corre o risco de se perder em suas diversas linhas do tempo e deixar os espectadores sem explicações ou até mesmo alcançar importantes discussões sem a profundidade necessária. Definitivamente é uma série que não precisamos perguntar sobre a segunda temporada, já que esta se tornou necessária.