No alto de seus 70 anos, o “vovô” Festival de Cannes nunca acontece sem alguma polêmica de brinde. A da vez apareceu logo na primeira coletiva de imprensa, quando o cineasta espanhol Pedro Almodóvar, que preside o júri deste ano, disparou que seria um “enorme paradoxo” caso a Palma de Ouro do festival vá para um filme que não possa ser assistido no cinema. Um dos filmes em competição nesta edição de Cannes, “Okja”, logo ficou no fogo cruzado – oras, o novo trabalho do sul-coreano Bong Joon-Ho feito sob a batuta da Netflix não seria considerado pela trupe de Almodóvar?

No jogo há quase duas décadas, a Netflix deixou de ser uma locadora de filmes por correio e virou uma gigante do streaming. Das reproduções de séries e filmes de praticamente todos os gêneros, a companhia viu um crescimento absurdo e o início da competição com a TV – afinal, nem todo mundo tem tempo ou disponibilidade para pegar o episódio X da série Y no horário exato de exibição na telinha. Sem falar que o preço – hoje o pacote mais caro chega a R$ 29 – é bem mais atrativo do que um plano de TV por assinatura.

Não demoraria muito para que a empresa começasse a investir em produções originais, com participação de gente grande da indústria: David Fincher e sua “House of Cards”, Tina Fey e “Unbreakable Kimmy Schmidt”, a turma da Marvel, e o renascimento de séries que a TV não quis mais, como a minha querida “Arrested Development”.

Logo, não foi exatamente uma surpresa quando o cinema começou a olhar para o streaming com olhos mais gentis. Vieram os ótimos “Beasts of No Nation” e “Divines”, “The Fundamentals of Caring”, “Tallulah”, a problemática sequência de “O Tigre e o Dragão” (a gente pode fingir que ela nunca existiu?) e uma montanha de documentários sensacionais, como “What Happened Miss Simone”, “A 13ª Emenda” e “Capacetes Brancos”, só pra ficar nos oscarizáveis. “Capacetes”, aliás, rompeu a barreira entre o Netflix e a premiação – o filme ganhou o prêmio de melhor doc curta. Nas séries, a empresa tem sido ainda mais reconhecida, com prêmios a torto e a direito para “House of Cards”, “Orange is the New Black”, “Stranger Things” e “The Crown”.

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Ponderando a treta

Mas tudo isso é apenas uma introdução, caso ainda haja dúvidas do que a plataforma de streaming (junto a outras ‘colegas’, como a Amazon e o Hulu) tem feito na indústria de séries e tevê. Ao mesmo tempo em que produz coisas novas e diferentes, o Netflix também conta com um catálogo com milhares de títulos para você se perder naquele sábado à noite maroto. Mas isso você já sabe, né?

Ainda assim, não soou de forma surpreendente a fala de Almodóvar. Ele, na verdade, foi bastante mal compreendido em suas declarações. Há que se entender a realidade do diretor e até mesmo de Will Smith, que rebateu ao afirmar que “seus filhos vão ao cinema duas vezes por semana e que o Netflix não atrapalha isso”.

Cinema é imersão. Tem certos filmes que foram feitos para a tela grande. A despeito de sessões de filmes clássicos aqui e ali, lamento nunca ter visto “…E o Vento Levou”, um grande musical como “O Picolino” ou a trilogia original de “Star Wars” no cinema. É uma experiência diferente, quase religiosa, poder ver uma grande produção sem o poder do botão de pause (porém sdds intermissions*) e com um som que te leva para dentro daquele ambiente, tal qual Cecilia (Mia Farrow) no lúdico “A Rosa Púrpura do Cairo”.

Em um mundo ideal, todos nós, cinéfilos, iríamos ao cinema sempre. Se não tivesse gente tagarela nas salas, então? É maravilhoso poder assistir ao filme como ele foi concebido para ser, ou, nas palavras do próprio Almodóvar, “ficarmos diminutos perante a tela grande para podermos nos sentir dentro das imagens e arrastados pela história”.

Beasts of No Nation, com Idris Elba - Netflix

Mas eu não moro em Madrid ou Los Angeles, com acesso a todos os filmes bons no cinema. Eu não tenho o tempo e muito menos o dinheiro da filha de 16 anos do Will Smith para ir duas vezes na semana (vou mentir? Adoraria!). Logo, poder ter acesso a um “Beasts of No Nation” no mesmo dia em que ele é lançado nos Estados Unidos é um luxo que apenas a internet, via streaming, pode proporcionar.

Além disso, a plataforma de streaming consegue introduzir a muita gente filmes que elas nunca assistiriam. É, de certa forma, o que a HBO dos anos 1990 e início dos anos 2000 foi para mim: a cada sábado um filme novo estreava e não importa qual fosse, eu estaria ali para assistir. Foi uma baita introdução à cinefilia, ainda que o catálogo fosse quase todo tomado por Hollywood (mas o que isso importava para uma garota de 12 anos?).

Isso posto, a decisão de Cannes, de não aceitar filmes sem exibição no cinema acaba fechando ainda mais o festival. Ainda que muitas produções cheguem lá sem distribuição certa, a ajudinha de uma gigante como a Netflix para seguir carreira internacional é sempre bem-vinda.

Kevin-Spacey-House-of-Cards-Netflix

Um museu de grandes novidades?

É um certo déjà-vù. A história se repete com algo que já aconteceu em 1950, quando a tevê apareceu com promessas de destronar o cinema. O que se viu? Mais fonte de trabalho para atores e diretores sem espaço na sétima arte. O cinema até cambaleou, mas se adaptou. Exemplo disso foi a mudança da razão de aspecto dos filmes – uma das mais lembradas da época foi a 2.66:1 do Cinemascope, técnica usada em produções da Fox com lentes anamórficas e que deixava a tela ainda maior.

Mas, assim como foi em 1950, não dá para dizer que a Netflix afasta as pessoas do cinema. Os preços altos, os horários por vezes ingratos, o excesso de filmes dublados e, principalmente, a falta de educação nas salas (deve ser muito bom ter dinheiro sobrando para ir conversar num lugar escuro e com som alto) fazem isso.

Até porque, como já diria Almodóvar, é bem melhor ver um filme numa tela gigante do que em um celular ou em um notebook com a imagem ruim por conta da internet (quem nunca?). Quem gosta de cinema, vai continuar indo. Mas nem sempre duas vezes por semana, que nem a filha do Will Smith. E, ao chegar em casa após um bom filme, vamos dar aquela olhadinha no catálogo da Netflix para conhecer mais do diretor ou dos atores. São dois mundos que podem se complementar, sem choro nem vela.

*intermissions: intervalos dados no meio de um filme, que costumavam ocorrer em produções clássicas e mais longas.

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