A princípio, “Meditation Park” não é um grande filme. Com a fotografia em tons sépias e enquadramento semelhante às produções dos anos 1990 – que se popularizaram na Sessão da Tarde -, a sensação transmitida é que a trama será uma repetição de tantos filmes genéricos vistos por ai. Entretanto, as temáticas voltadas à terceira idade e ao empoderamento feminino apontam o quanto é enganosa essa primeira percepção.

Dirigido e escrito por Mina Shum, “Meditation Park” acompanha a história de Maria Wang (Pei-Pei Cheng), uma mulher que vive em função do marido. Submissa, ela é tratada literalmente como uma serviçal. Essa atitude acaba por deixá-la sem o senso de pertencimento a seu lugar no mundo e totalmente dependente. Ao encontrar evidências da traição do marido, ela passa a refletir sobre a vida ao lado dele e a ausência de liberdade que permeia a relação.

Um processo lento e sincero

É interessante como a narrativa se desenvolve a partir do processo de auto-conhecimento de Maria. Ele parece lento e retardatário em alguns momentos, mas, para alguém que viveu mais de meio século de vida a mercê do patriarcado, é compreensível seu amadurecimento requerer uma vivência degrau por degrau. Wang é fruto de uma cultura machista e passou anos vivendo em opressão e confinamento familiar, para qualquer mulher escapar dessa situação torna-se um processo difícil. E neste sentido, “Meditation Park” se agiganta ao evidenciar a importância de mulheres contarem as narrativas de outras mulheres, afinal, Shum é muito cuidadosa e eficiente em mostrar essa construção da liberdade feminina.

A personagem de Pei-pei é forte, humana e suas atitudes são compreensivas e racionais. No entanto, ela não está ilesa dos padrões sociais impostos desde a infância e tal desalinhamento perpassa todas as mulheres do filme. O maior exemplo disso é sua filha Ava: a personagem de Sandra Oh luta para firmar-se no mundo, apesar de sua herança machista, e enfrenta dilemas contemporâneos entre obrigações trabalhistas e domésticas. Embora seu marido seja o contrário de seu pai, é justamente a afetuosidade e busca de companheirismo que lhe são incômodas, demonstrando o quanto a cultura machista também adoece os relacionamentos.

Autoconhecimento e libertação

Ao final, o processo de amadurecimento mostra o quanto o conhecimento nos transforma completamente, a ponto de não sermos capazes de voltar ao que éramos e de questionar o que seremos. Tudo o que Maria percebe no decorrer de sua libertação torna impossível que se mantenha confortável em sua casa, na relação doentia com seu esposo e na falsa ideia de proteção do mundo. Ela mesma passa a olhar o seu passado de forma diferente e a questionar suas escolhas. Isso não permite sabermos por quanto tempo sua resistência durará, mas dá a certeza de que nada será como antes. E isso acontece por meio da substituição do tom sépia pelo azul e o devido destaque a individualidade de Maria.

Conhecer-se possibilita que Maria Wang amadureça e se liberte. A atuação cativante de Pei-Pei e a construção de sua personagem fazem com que o público seja levado a torcer por ela e futuro, porque vemos nela muitas mulheres que não ainda não conseguiram transformar sua visão dos padrões estabelecidos e das opressões sociais. Em “Meditation Park”, torcemos por Maria, da mesma forma que torcemos por elas.

‘Girlfriends’: o indie intimista que inspirou ‘Frances Ha’

Após assistir a Girlfriends (1978), o indie intimista de Claudia Weill, é difícil não se entregar a mesma sensação fantasmagórica de Wanda (idem, Barbara Loden, 1980): embora com enredos bastante diferentes, são obras que partem da perspectiva humanizada das...

Muito além da tragédia: conheça a carreira de Sharon Tate

Enigmática. Bonita. Estrela em ascensão. Vítima de uma chacina. Há várias formas de lembrar-se de Sharon Tate, infelizmente, a que mais se popularizou foi a tragédia que envolveu sua morte. Ela se tornou indissoluvelmente conectada ao crime que a levou, o que deixa em...

‘Varda por Agnès’: testamento final de um ser humano raro

Inspiração, criação e compartilhamento.  Com estas três palavras, Agnès Varda sintetiza um trabalho de seis décadas entre filmes de ficção, documentários, curtas experimentais e instalações de arte. A realizadora belga deixou um vácuo enorme no mundo do cinema após a...

O que torna Pauline Kael um ícone da crítica cinematográfica?

Nascida em uma fazenda na Califórnia, Pauline Kael estudou filosofia na Universidade de Berkeley, mas abandonou a faculdade e se mudou para Nova York no início da década de 1940. Algum tempo depois, ela conheceu o poeta e escritor Lawrence Ferlinghetti em um café. Ele...

10 Mulheres Roteiristas da Atualidade que Você Precisa Conhecer

Todo filme precisa de um roteiro para conduzir como as coisas vão se desenvolver. Embora o roteirista não seja tão aclamado e prestigiado pelo público, ele é uma figura de extrema importância para a realização de boas produções.Um roteiro bem trabalhado e...

‘Uma obra viva de arte’: o legado de Agnès Varda em 10 filmes

Conheci Agnès Varda aos 15 anos de idade.No momento da vida que eu desvendava o cinema, suas possibilidades e me apaixonava. Foi assistindo "Reposta das Mulheres", um pequeno manifesto feminista sobre a mulher e seu corpo, que eu descobri que o cinema...

Oito Grandes Artistas Mulheres do Cinema que Você Precisa Conhecer

"Qual profissional do cinema (diretora, atriz, roteirista, montadora, figurinista, diretora de fotografia...) você acha que o público precisa conhecer mais e por quê?" Esta pergunta foi feita a algumas das principais críticas de cinema do Brasil pela...

Mulheres Críticas de Cinema que Você Precisa Conhecer

A luta das mulheres dentro da indústria do cinema não se resume apenas no processo de realização de um filme seja na frente ou atrás das câmeras. Como comprova estudo realizado pela escola de comunicação e jornalismo USC Annenberg, nos EUA, a crítica...

‘Absorvendo o tabu’: tema essencial à saúde da mulher patina em narrativa superficial

O curta-documentário “Absorvendo o tabu” (Period. End of Sentence, 2018) captura a atenção do espectador ocidental pelo espanto. Não se trata de uma surpresa que assuste como um filme de terror, e sim aquela que nos toca pelo absurdo da situação que busca...

‘Be Natural’: rica pesquisa ampara documentário sobre primeira diretora de cinema do mundo

Vivemos tempos em que a história é questionada sem a mínima base para tal, e isso torna mais emblemático assistir a Be natural: a história não contada da primeira cineasta do mundo em 2018. O filme foca na vida da diretora francesa Alice Guy-Blaché, assim...