Em certo momento de Zumbi 2 – A Volta dos Mortos-Vivos é difícil você não coçar a cabeça e pensar que está diante de uma obra um tanto quanto “fora da casinha”, ensandecida, uma daquelas experiências únicas de pura diversão que só certos filmes italianos de horror com enorme coragem e inventividade sabiam proporcionar ao público nas décadas de 1970 e 1980. Este momento em especial é uma cena fantástica: uma mulher seminua (Susan, uma das personagens do filme) resolve fazer um mergulho. Fugindo do estereótipo recatada e do lar, Susan fica de topless e fio-dental diante de estranhos e após colocar o seu equipamento de mergulho, afunda no oceano. Entre tubarões e peixes, ela encontra um zumbi decomposto – totalmente ali de bobeira na imensidão azul – que a ataca.

Se a cena por si só já é surreal (o que diabos um zumbi faz no fundo do mar?), o filme ainda dá continuidade com outro momento antológico depois que a mocinha foge do morto-vivo e vê este confrontar um tubarão. Enquanto o predador do mar mastiga a dentadas um dos seus braços, o zumbi carcamano devora pedaços dele. O momento não tem qualquer lógica ou acrescenta qualquer finalidade narrativa à história dali pra frente, mas é uma loucura deliciosa que só poderia sair da cabeça desvairada do cinema fantástico italiano, no caso do seu diretor, Lucio Fulci. Nem o mestre da magia, Spielberg imaginária que seu predador marítimo favorito seria responsável por uma cena insólita como esta.

São razões assim, que fazem Zumbi 2 um filme seminal de horror, o exercício de estilo a ser apreciados pelos olhos e ouvidos (a trilha sonora de Fabio Frizzi é imersiva e taciturna) que trazem uma questão central presente – na maioria dos filmes de Fulci – de agonia e ansiedade na construção do pavor e medo. Dentro da forte estética italiana do poder da violência, a obra é um banho de sangue que valoriza o horror visceral e bruto repleto de imagens fortes. Anne Bowles (Tisa Farrow, irmã de Mia Farrow) sai em busca do seu pai depois que o seu barco é encontrado à deriva em Nova York. Juntamente com o jornalista Peter West (Ian McCuloch), eles vão à ilha caribenha de Matul (cheia de superstição), local onde o seu pai foi visto pela última vez. É claro que a ilha encontra-se infestada por uma epidemia de zumbis. 

Podemos dizer que Fulci fazia filmes de terror na sua própria essência, sempre com um gore inventivo e sofisticado. Zumbi 2 é uma peça cinematográfica apelativa e uma orgia visceral, onde cenas violentas vão se acumulando na narrativa.

O zumbi e suas abordagens cinematográficas

Se há algo que eu acho fascinante no filme é a sua transição elegante entre o horror clássico elegante para o brutal e visceral. Zumbi 2 tem seus momentos trash como a citada passagem absurda da luta entre um zumbi e um tubarão, mas também consegue ir para o cinema de entretenimento puro com gargantas dilaceradas, olhos perfurados e muita escatologia. Fulci também não deixar de oferecer ao espectador um cinema bem filmado, com seus planos e contraplanos que norteiam o seu apuro estético, muito bem apresentado na tensa seqüência onde a esposa do Dr. Menard (a bela atriz grega Olga Karlatos) tem o seu olho varado (Fulci sempre teve tara por olhos) por uma farpa de madeira. Este momento impactante reúne uma pequena aula de montagem e iluminação (jogo de luzes e sombras) para ampliar a atmosfera de horror.

O confronto final entre os personagens humanos com uma horda de zumbis em uma igreja abandonada ganha um tratamento do cinema gótico por fazer um belo contraste por uma floresta sombria à noite, sempre transformando os cenários do filme em corredores escuros assustadores e de clima taciturno. Este embate também adquire tons de um grande faroeste italiano (spaghetti western) pelas lentes de Fulci, um verdadeiro confronto entre mocinhos e pistoleiros mortos-vivos.

Até elementos poéticos fúnebres você encontra em Zumbi 2 principalmente quando os mortos levantam de sua tumbas – que Fulci filma com um plano subjetivo criativo, da câmera saindo da terra com a trilha sonora de tambores tribais de Frizzi,ao fundo e em ritmo constante. A genialidade do cineasta é isso: fazer um filme que é uma montanha-russa de repulsa grotesca, mas um cinema com essência refinada.

 A elevação da figura do zumbi para imagem de seres decompostos

 

A picaretagem do cinema italiano de horror sempre foi conhecida, principalmente pelas cópias baratas ou continuações inspiradas em sucessos americanos no gênero.  O fato do filme de Fulci carregar o título de 2 é um exemplo disso: ele foi vendido pelos produtores como a continuação não oficial de O Despertar dos Mortos, de George Romero.

Tirando a esperteza do título e a idéia que os mortos-vivos só podem ser abatidos com tiro da cabeça, Zumbi 2 pouco se assemelha ao de Romero. A grande inovação de Fulci é mostrar os seus zumbis como seres putrefatos. Diferente dos de Romero que eram apenas pessoas comuns com maquiagem azul ou branca no rosto, os mortos-vivos de Zumbi 2 são uma horda de monstros de visual grotesco jamais visto até então no cinema –  composição que ganha força graças ao ótimo trabalho de Giannetto de Rossi, que deixa seus seres reais, sujos e brutais à serviço do poder da violência. É emblemática a cena que um zumbi sai da terra com vermes nos olhos.

Se os filmes de Romero transformaram a figura do zumbi numa metáfora político-social do indivíduo moderno, Zumbi de Fulci dá foco à imagem em movimento, do corpo a carne na sua forma mais pura e simples. Seus mortos-vivos são extremamente corpóreos, não há espaços para discussões políticas ou raciais e sim para o colapso do corpo ligado ao entendimento e fascinação católica pela carne. O corpo dilacerado pelos zumbis no filme funcionam como metáfora da violência  -a citada cena do olho perfurado citada no início do texto sintetiza a fragilidade do tecido humano – que penetram, rompem e espetam a carne humana, a nossa área mais vulnerável. O tom de apocalipse zumbi para o cineasta é a própria destruição do corpo.

Não é a toa que Fulci deixa de lado a preocupação da crítica social romeriana para adentrar no campo sobrenatural da superstição, resgatando o conceito do zumbi da sua herança literária, do voodoo haitiano, de forças que se estendem além do entendimento racional. Um niilismo forte sobre a ausência de Deus, com temáticas que subvertem a crença cristã e a própria ciência, principalmente quando o personagem do médico no filme, Dr.Menard (Richard Johnson) não consegue explicar a epidemia de mortos na ilha. Em outras palavras, Fulci mostra em Zumbi 2 a fragilidade do corpo humano e que a vida além da morte é um grande vazio infinito habitado por mortos-vivos, onde perdemos toda a nossa fé na capacidade de encontrar sentido e ordem – capitalizada na cena de encerramento do filme.

Zumbi 2 – A Volta dos Mortos-Vivos funciona como a grande epopéia morta-viva do cinema de zumbi. Um filme que sintetiza bem o cinema fragmentado, irracional e agressivo de Lucio Fulci.  Entre olhos perfurados, carne humana despedaçada, efeitos especiais e cenas antológicas e hipergráficas na sua violência, a obra é um conjunto cru, simples e visceral. Abriu portas para o cinema fantástico italiano mergulhar no spaghetti de horror com obras que vieram para transgredir e divertir o público.

A influência do filme de Fulci é tão grande que é difícil você não ver similaridades entre os mortos grotescos de The Walking Dead, Madrugada dos Mortos, Resident Evil e demais filmes de zumbis com as criaturas decompostas do filme italiano. No geral, “Zumbi 2” é um verdadeiro deleite para quem curte vísceras e sangue, não é o melhor do cineasta, mas é sem dúvida o mais intenso da sua filmografia.

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