“Moonrise kingdom” (2012) é o primeiro filme de Wes Anderson que poderíamos classificar explicitamente como infantil. Ainda que tenha dirigido a animação “O Fantástico Senhor Raposo” (2011) no ano anterior, e expresso tramas que perpassam o universo adolescente como “Três é demais” (1998) e mesmo se levarmos em consideração excertos de “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), nunca antes as crianças foram as protagonistas de sua filmografia.

O estilo particular de Anderson e o universo pré-adolescente resultam em uma união escrita nas estrelas. O motivo: o ponto de vista dos jovens protagonistas Sam Shakusky (Jared Gilman) e Suzy Bishop (Kara Hayward) na descoberta do amor permite ao diretor aprofundar todos os aspectos caros ao seu cinema: a forte estilização da imagem, com a atenção especial à simetria das imagens, padrões impecáveis nas escolhas das paletas de cores, uso assertivo de música (instrumental ou não), diálogos que equilibram cinismo e doçura, elenco de apoio estelar, dentre outros.

A fuga dos jovens amantes Sam e Suzy os leva a um mundo, até certo ponto, sanitizado – nesse caso, livre de adultos. Será uma metáfora para a própria filmografia de Anderson como um todo, em que questões de classe, gênero ou dilemas políticos inexistem?

Tudo bem ser assim

A fruição resulta numa experiência tão fluida e agradável que, no geral, isso pouco importa: a inocência de Sam se expressa mesmo quando as entrelinhas de sua história se mostram amargas, tal como quando vemos que o menino é órfão e não exatamente uma prioridade para adoção; por sua vez, Suzy carrega um ar maduro, um tanto raivoso, mas igualmente mantém-se criança, perdida em seus inúmeros livros de literatura infanto-juvenil, bolados pelo próprio Anderson.

Assim, a decisão pela fuga – Sam, por conta do sentimento de não pertencimento; e Suzy, pela alienação que sente em relação ao resto da família – aprofunda-se apenas na medida em que ela se permite ser um ativador de uma grande aventura na qual o foco maior está em explorar aspectos da linguagem cinematográfica.

A melancolia do casal de protagonistas é, nesse sentido, puro estilo, mas dentro desse contexto, está tudo bem ser assim. Talvez por isso, “Moonrise Kingdom” não trava grandes diálogos com outros filmes protagonizados por crianças, seja os mais profundos, como “Os incompreendidos” (François Truffaut, 1959) ou “Conta comigo” (Rob Reiner, 1986), ou os mais didáticos, como um “A fantástica fábrica de chocolate” (Mel Stuart, 1971).

Em termos de roteiro e construção de personagens, um bom paralelo para “Moonrise Kingdom” seria com os próprios filmes de Anderson. Sam, por exemplo, é um protótipo de qualquer um de seus protagonistas: um garoto de personalidade um tanto conturbada, talvez levemente autista, solitário, incompreendido por alguns bons motivos e muitos maus motivos. Em resumo: um Holden Caulfield de 12 anos – até o chapéu é o mesmo do protagonista do livro “O apanhador no campo de centeio”, de J. D. Salinger – e vocabulário apurado.

Personagens de apoio como Ward (Edward Norton), o capitão Sharp (Bruce Willis) e o senhor e Senhora Bishop (Bill Murray e Frances McDormand, respectivamente) cumprem funções bem delimitadas; ajudam a emperrar ou avançar a trama, de acordo com a tensão ou alívio pretendidos pela narrativa. Suzy, por sua vez, traça alguma relação, principalmente em termos de estilo, com a Margot Tenenbaum (Gwyneth Paltrow) de “Os Excêntricos Tenenbaums”, embora apresente um senso de menor passividade perante os acontecimentos, resultado num dos personagens mais interessantes da filmografia de Anderson.

Preenchendo lacunas com estilo

Em “Moonrise Kingdom”, Anderson preenche as lacunas de profundidade com impecável esmero técnico, especialmente no plano visual. Sua tão característica obsessão com planos mais amplos e simétricos impera nesse longa, e como de praxe, intercala-se com jump cuts e tomadas de ponto de vista subjetivo, seja no trajeto de um carro ou barco, no plano e contra-plano que demarcam um diálogo íntimo de Sam e Suzy, ou na mania que esta última tem de ver o mundo pelas lentes de seus binóculos.

O uso das cores para expressar sentimentos, diferenças entre grupos e estágios do andamento da narrativa também bate o ponto em “Moonrise Kingdom”. O amarelo impera no desejo de Sam de se integrar a algo – ao um de seus lares adotivos, ao grupo de escoteiros, sendo uma cor que garante unidade a todo o longa, também muito ornado por marrons e laranjas.

Não por acaso, é amarela a mala de Suzy na fuga, ainda que sua paleta seja um pouco mais diversa, com predomínio do rosa no figurino. Os azuis e verdes mais suaves também imperam na fuga dos amantes juvenis na natureza, ao passo que elas se aproximam cada vez mais de tons acinzentados ou mais escuros no último (e mais sombrio) ato do filme.

O amor pelo analógico – que localiza o filme em um 1965 estilizado no qual as crianças mandam cartas, consultam mapas de papel e ouvem música em toca-discos – é outro detalhe que aloca “Moonrise kingdom” para um ambiente mais de fantasia que de realidade. Aí entra o cuidadoso trabalho de direção de arte, sempre muito detalhado nos filmes de Anderson: os interiores seguem padrões absurdos de cor e decoração e a ordem prevalece sobre o bom gosto de forma gritante.

Essa expressão antinatural de simetria do universo que o diretor constrói apenas destaca o caráter anárquico da aventura dos pequenos. Eles fogem por amor e revolta, bagunçam a arrumação pré-determinada pelos adultos. E talvez por isso o filme fique conosco quando termina: bem como o cinema de Anderson, a memória fragmenta e distorce, intensificando os sentimentos e, em especial, o passado, e acaba que a criança dentro do adulto não resiste a essa aventura na floresta.

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