Eu não vou dizer que “Crepúsculo” é um filme injustiçado ou não tão ruim quanto falam. Muito menos que seja tecnicamente bem resolvido ou que seja um bom guilty pleasure (até porque eu não gosto de usar essa expressão, embora entenda quem prefira). Eu direi que “Crepúsculo”, o primeiro filme da saga, é bom. Não bom do tipo “tão ruim que fica bom”, mas simplesmente um filme que oferece a quem assiste uma experiência cinematográfica satisfatória.

Faço parte de uma geração que, enquanto público, não poupou esforços em relação à saga: ou se odiava ou se amava. Acredito que uma parte significativa dos espectadores, inclusive, já partiram de uma opinião formada antes mesmo de assistir ao filme, tanto o primeiro quanto o segundo grupo. Preciso esclarecer que nunca fui de me interessar e estudar muito o contexto mercadológico das obras (é uma característica pessoal), mas me arriscarei a algumas opiniões.

Nesse sentido, não tentarei entender a saga como fenômeno cultural ou de bilheteria muito menos farei comparações com outras franquias adolescentes que a antecederam ou sucederam como “Harry Potter” e “Jogos Vorazes”, por exemplo. Buscarei entender como artisticamente o primeiro filme se definiu e farei comparações a obras que geralmente não são tão conectadas a “Crepúsculo”.

Pretendo discutir (e defender!) o primeiro filme da série, lançado em 2008, com direção de Catherine Hardwicke. A diretora não seguiu trabalhando nos seguintes filmes da franquia, dos quais, não coincidentemente, não gosto.

SEXO E PODER

Indo direto ao ponto principal de minha defesa, “Crepúsculo” provavelmente é um dos filmes que mais ilustra a frase: ‘Os jovens só pensam em uma coisa’. Tudo tem uma conotação sexual: Bella (Kristen Stewart) está sempre mordendo os lábios e Edward (Robert Pattinson) sempre surge com uma cara de quem tá se segurando para não gozar. Tudo coloca o sexo de uma forma distorcida, como uma relação de poder.

Em determinado momento do filme, alguns homens atacam Bella. Edward a salva. Ele afirma saber “os pensamentos repulsivos” que os homens tinham. No filme, a razão de saber isso é a capacidade de ler mentes que ele possui. Alguns minutos depois, o vampiro exerce esse poder sobre algumas pessoas e tudo que elas pensam é em sexo e dinheiro. Ou seja, poder. Edward reflete na mente dos outros seus próprios pensamentos.

Não é somente o relacionamento abusivo do casal protagonista que ilustra isso. Pode-se perceber também nos amigos da Bella que só a tratam bem por um interesse amoroso ou no vampiro do mal que não sabe receber um não e persegue sua presa. Ou até na caricatura de xerife (mais um para simbologia de poder) que é o pai da protagonista, com seu bigode e poucas falas.

BUSCA PELA VEROSSIMILHANÇA

Pois bem, uma análise parecida pode ser encontrada em vários outros textos e opiniões sobre a obra. E qual seria meu ponto para enxergar isso como uma qualidade e não defeito? Retornemos a 2008, ano de lançamento do filme. Naquele ano, foram lançados também “Batman: O Cavaleiro das Trevas”, segundo e mais aclamado filme da trilogia de Christopher Nolan, e “Homem de Ferro”, o primeiro filme do que conhecemos hoje como Universo Cinematográfico Marvel.

Esses dois filmes definiram uma parte significativa das apostas do cinema de fantasia (tomo a liberdade para encaixar o cinema de super-heróis nesse gênero, embora possa haver discussões) para a década seguinte, recém-acabada. Discutiu-se durante um bom tempo as diferenças entre DC e Marvel, a “sobriedade” de um e a “alegria” de outro, mas é inegável que se estabeleceu dessa batalha uma característica determinante: uma busca implacável pela verossimilhança. Algo simbolicamente representado pelos efeitos práticos de Nolan e os mega caros efeitos visuais da Marvel, por exemplo.

O primeiro filme dos vampiros teens bebe dessa fonte. Não é “Crepúsculo” a última das fantasias clássicas, ou algo do tipo. Uma parte de sua originalidade deriva inclusive dessa tentativa de transformar tudo em algo palatável. Porém, percebo que uma boa parte das críticas feitas ao filme geralmente se voltam para quando a obra falha em oferecer ao público essa verossimilhança.

É comum ouvir críticas à cena em que Edward escala a árvore com Bella em suas costas, ou quando ele corre rápido para salvá-la, ou até mesmo toda a parte da cena onde a família Cullen joga beisebol (uma das minhas cenas favoritas). O argumento é de que essas situações tiram quem assiste do filme, e logicamente é válido.

Mas confesso que ao adentrar naquele universo, desde o momento em que Edward passa mal por sentir o cheiro de Bella, essa sensação de algo totalmente irreal predomina. E, o principal, não é mais abandonada.

A pele extremamente branca dos Cullen, que brilha ao sol, a figura caricata do Xerife, e os típicos adolescentes do ensino médio estadunidense inúmeras vezes retratados no cinema, constroem no filme esse ar de maleabilidade com os temas e os personagens. Brinca-se com a mitologia dos vampiros, com o clichê adolescente, com o tão explorado romance proibido. Tudo em torno da descoberta sexual, uma característica que predomina na faixa etária a qual a obra se origina e se destina.

HIGH SCHOOL ENCONTRA RADIOHEAD

Não me parece justo com o filme o ressentimento de não entenderam o que são os vampiros. Acredito que esse aspecto foi completamente compreendido, por sinal. É muito bem utilizado, ao colocar essas figuras sempre retratadas com temor, como os “populares” nesse meio adolescente. E a partir disso, a conotação sexual se apresenta como ponto positivo.

Eu não sou fã, de forma geral, de planos holandeses (os planos “tortos” do filme) demonstrando instabilidade a todo momento, e nem da ideia de misturar músicas pops só por misturar, tentando agregar valor a alguma cena. Mas ora, se há um lugar onde essas técnicas, juntas, podem contribuir com a narrativa, não seria exatamente nesse meio “adolescente perdido se descobrindo”? Para mim, nessa obra se encaixa perfeitamente.

As atitudes toscas são encenadas de forma tosca o que contribui para que ninguém termine o filme achando Edward um bom par, mas sim, que “Crepúsculo” funciona como um bom filme de retrato geracional, partindo da mitologia vampiresca e do high school, ao som de Muse e Radiohead.

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