Caro leitor, você conhece a expressão “massavéio”? É um daqueles neologismos divertidos que brasileiros criam com a língua portuguesa. No caso, é usado por tiozinhos como eu, quarentões que ocasionalmente ainda leem histórias em quadrinhos de super-heróis. O “massavéio” é melhor exemplificado por uma ideia: algo como ver uma ilustração do Batman empunhando um sabre de luz enquanto enfrenta dinossauros armados com metralhadoras, entendeu? A gente dizia “É massa, véio!” quando via algo assim, e virou a corruptela “massavéio”. É algo maneiro, cool, que não faz muito sentido, mas desperta atenção pelo espetáculo que se basta por si só. Aliás, tenho certeza que alguém, em algum lugar, já desenhou essa imagem…

Liga da Justiça de Zack Snyder é o “massaveísmo” em forma de cinema. É a expressão máxima do cineasta Zack Snyder, sem filtros, sem notas de estúdio ou preocupações além de colocar na tela a sua visão dos super-heróis DC. Você provavelmente conhece os bastidores desse projeto: Snyder fez O Homem de Aço (2013) e Batman vs. Superman: A Origem da Justiça (2016) como o arquiteto do Universo DC no cinema, que o estúdio Warner queria que competisse de igual para igual com o do Marvel Studios. Os dois filmes foram bem nas bilheterias, mas dividiram opiniões e fãs. Pressionado pelo estúdio, Snyder filmou sua versão de Liga, mas não pôde terminá-la por uma tragédia pessoal – sua filha Autumn cometeu suicídio. A Warner, em vez de dar um tempo para que se recuperasse, o colocou de escanteio e chamou Joss Whedon, de Os Vingadores (2012), para concluir o filme e o resultado foi um Frankenstein feito por comitê com pitadas “marvelizadas” que decepcionou nas bilheterias, embora nem seja assim tão desastroso. Dentre os filmes Warner/DC recentes, Esquadrão Suicida (2016) e Mulher Maravilha 1984 (2020) são muito, muito piores que Liga da Justiça.

Snyder conseguiu completar seu Liga depois de uma campanha maciça na internet e também graças ao desejo da Warner em alavancar o streaming da HBO Max. O resultado é este épico de 4 horas de muito “massaveísmo”. A trama, em si, é a mesma do filme lançado em 2017: temos “MacGuffins”, as tais caixas maternas que são perseguidos por heróis e vilões, o fim do mundo está vindo e blá blá blá. No time dos heróis, Batman (Ben Affleck) e Mulher Maravilha (Gal Gadot) tentam recrutar os demais superpoderosos para formar uma equipe. O time dos vilões é chefiado pelo Lobo da Estepe (Ciáran Hinds), que ganhou um upgrade espinhoso na sua armadura na visão de Snyder.

FESTIVAL SNYDER DE CÂMERA LENTA

A nova versão tem alguns dos mesmos problemas da anterior: a história é boba e bem rasa, e o Lobo da Estepe continua o vilão mais sem graça dos últimos anos num grande blockbuster de heróis – deve ter sido o personagem em computação gráfica mais fácil de animar em todos os tempos, visto que só tem uma expressão facial. E em vários momentos, parece um videogame quando a ação começa. Mas a visão de Snyder traz seus próprios temperos à receita…

Para começar, ele se aproveita da liberdade que o streaming lhe deu e, incentivado por sua legião de fãs, coloca tudo e mais a pia da cozinha no filme. Sua versão de Liga é um filme inchado, especialmente nas duas primeiras horas (!). São muitas redundâncias: o Aquaman (Jason Momoa) recusa duas vezes embarcar na aventura, a batalha das Amazonas contra o Lobo da Estepe parece que não acaba nunca. E a câmera lenta não ajuda. Snyder é muito talentoso na criação de suas composições visuais. Há planos nesse filme que poderiam virar quadros nas paredes de nerds em todo o mundo. Mas é tanta câmera lenta que, brincando, podemos até achar que o filme diminuiria em uma hora se os planos alongados transcorressem em velocidade normal.

Claro, Snyder usa desse artifício para engrandecer personagens e situações. Mas, quando tudo é épico, quase nada acaba sendo. A situação chega a um ponto que até uma semente de gergelim de um pão de sanduíche aparece caindo em câmera lenta; não há outra reação possível a não ser o riso. É cinema do excesso em último grau. E se os heróis DC são deuses na visão do diretor, é difícil se relacionar com eles: Snyder continua sem compreender alguns deles ou já deixou de se importar – bizarro é o momento em que uma menininha pergunta à Mulher Maravilha se pode ser como ela, depois de vê-la pulverizar um vilão. O único personagem que ganha um arco dramático verdadeiro é o Ciborgue (Ray Fisher), cuja participação é bastante expandida em relação à versão de cinema. Desenvolver o Ciborgue e transformá-lo na alma da equipe é uma boa ideia na teoria, mas fica devendo na prática porque o personagem continua um pesadelo de design, um pedaço de CGI esquisito que não cativa apesar do esforço de Fisher.

PARADOXO SNYDER

Ainda assim… Depois que a trama realmente engrena – e demora até lá – Liga de Snyder começa a se tornar algo… divertido? O cinema do excesso de repente se torna mais focado, e Snyder sempre se deu melhor quanto mais simples eram as narrativas de seus filmes. O diretor manda fanservices bobos que deixarão confusos espectadores sem familiaridade com as HQs, inclui algumas piadas (!), cria um clímax inegavelmente empolgante e, definitivamente, põe na tela o espetáculo que os super-heróis mais icônicos do mundo merecem e que a versão de cinema, de forma meio banal, tentou criar. Ainda assim, há várias semelhanças entre as duas versões, talvez mais do que muitos fãs queiram admitir.

Liga da Justiça de Zack Snyder é bom? Mais ou menos. Quem não gosta de Snyder não vai se converter; quem já o idolatra vai rezar dobrado no altar dele depois de vê-lo. De certa forma, é um filme à prova de crítica. E a sua existência levanta debates até mais interessantes sobre a questão de autoralidade em Hollywood e, no fim das contas, Snyder é autor, goste-se ou não. Apesar de tudo, esse Liga era o que deveria ter chegado aos cinemas – claro, não com quatro horas de duração… É mais épico, a trama faz um pouco mais de sentido, tem identidade. O filme inegavelmente funciona, a partir de certo ponto, de um jeito bem primitivo, apelando para a porção lagarto do cérebro do espectador que se empolga com o Batman disparando raios laser em monstros insectóides, com a Mulher Maravilha decapitando inimigos, ou com o Superman (Henry Cavill) vestido de preto.  Momentos como esses e outros em Liga da Justiça de Zack Snyder apelam à nossa fantasia de infância, a empolgação com aventuras e fantasias.

Liga da Justiça de Zack Snyder é um filme paradoxal: seu diretor posa de adultão, mas seu filme é para todos que são crianças de alma. Ele devia admitir isso, não há nada de errado. Afinal de contas, certos tipos de “massaveísmo” são muito, muito difíceis de resistir.

‘Dois Estranhos’: violência gráfica ganha contorno irresponsável em favorito ao Oscar

Acredito que esse seja um filme que divida opiniões. De um lado, há aqueles que o aplaudem por explicitar a violência contínua sofrida por jovens negros, e, do outro, há aqueles que o taxam de explorador. Vou fazer uma mea culpa e revelar que acho interessante a...

‘Feeling Through’: a boa e velha empatia em belo filme

Quando dou aula nos cursos aqui do Cine Set, sempre digo aos alunos que o cinema é uma máquina de exercitar e desenvolver a empatia. Realmente acredito que quanto mais filmes assistimos, e quanto mais mergulhamos em histórias, com o tempo todos nós passamos a aprender...

‘Tina’: documentário para celebrar uma gigante do Rock

Das várias injustiças cometidas contra Tina Turner - a Rainha do Rock -, talvez a mais louca a persistir até hoje seja o fato de ela não constar como artista solo no Hall da Fama do estilo que rege. Os eleitores da organização podem corrigir esse fato em 2021, já que...

‘Os Segredos de Madame Claude’: desperdício de um ícone em filme tão fraco

Tenho um pé atrás com produções que buscam abordar personagens reais com o intuito de vender diversidade e inclusão. Essa sensação é mais aguda diante de projetos que discutem personalidades femininas como “Maria Madalena” (Garth Davis, 2018) e “Joana D’Arc” (Luc...

‘Amor e Monstros’: pouco mais de ousadia faria um grande filme

Os melhores momentos de Amor e Monstros, parceria dos estúdios Paramount Pictures com a Netflix, estão logo no início do filme. É quando o narrador da história, o jovem Joel, reconta o apocalipse que devastou a Terra e que transformou insetos e animais em criaturas...

‘We’: o cinema como construtor de uma memória coletiva

"We", o novo filme de Alice Diop, é várias coisas: uma lembrança familiar, uma celebração das vidas comuns e uma busca pela identidade da França nos dias de hoje. Acima de tudo, o documentário, que ganhou o prêmio de Melhor Filme da mostra Encontros do Festival de...

‘Chaos Walking’: ótimo conceito nem sempre gera bom filme

Toda vez que se inicia a produção de um filme, cineastas participam de um jogo de roleta: por mais bem planejada que seja a obra e não importando o quão bons sejam os colaboradores que eles vão reunir para participar dela, tudo ainda pode acabar mal. Cinema é...

‘Locked Down’: dramédia na pandemia sucumbe à triste realidade

Dentre tantas situações inesperadas da pandemia da Covid, com certeza, a quarentena forçada foi uma grande bomba-relógio para conflitos conjugais e familiares. Agora, se conviver ininterruptamente com quem se ama já é desafiador, imagine passar semanas, meses dentro...

‘Godzilla Vs Kong’: sem vergonha de ser uma divertida bobagem

Não há como contornar: Godzilla vs Kong é um filme bobo. Todos os filmes “versus” feitos até hoje na história do cinema, com um personagem famoso enfrentando outro, foram bobos, e essa nova investida do estúdio Warner Bros. no seu “Monsterverse” – a culminação dele,...

‘Collective’: aula sobre o fundamental papel do jornalismo investigativo

“Collective” é, provavelmente, o filme mais marcante desta temporada de premiações. O documentário dirigido por Alexander Nanau traz à tona denúncias concernentes à corrupção no Ministério da Saúde romeno, algo super atual no período pandêmico e que dialoga com...