Um lugar-comum que vez por outra é repetido por quem trabalha com cinema é que não se dá para realmente dirigir crianças e animais. Em frente à câmera, eles vão mais ou menos fazer o que eles querem. Bem, talvez hoje em dia seja um pouco mais fácil dirigir crianças, mas não na época em que Charles Chaplin fez O Garoto, em 1921. Há quase um século atrás, a ideia de Chaplin para esse filme surgiu ao encontrar o ator certo para o Garoto do título, e o seu princípio norteador para a obra foi construir o filme em torno dele. Deu tão certo, que ainda falamos sobre ele hoje, quase 100 anos depois. Talvez seja, hoje, o seu filme mais inserido na consciência popular. Até mesmo gente que nunca o assistiu do começo ao fim reconhece algum dos seus momentos.

O Garoto foi um filme importantíssimo na carreira de Chaplin, feito num momento de encruzilhada, tanto pessoal quanto particular.  Chaplin tinha acabado de encarar a perda do seu primeiro filho, com Mildred Harris, sua primeira esposa. Na época, o relacionamento de Harris com Chaplin atraiu controvérsia: ela tinha 16 anos quando se conheceram e o filho do casal, um menino, e mal formado, faleceu poucos dias depois de nascer, em 1919. Algum tempo depois, o casal se divorciaria.

 À época, Chaplin já era o maior astro de cinema do mundo, e 1919 também marcou o momento em que ele fundou, junto com os ouros astros da época, Mary Pickford e Douglas Fairbanks, o estúdio United Artists, em busca de independência completa sobre o sistema de Hollywood e produtores. A partir dali, na carreira, Chaplin faria tudo do seu jeito.

Esse momento conturbado, pessoal e profissionalmente, influenciou a concepção e visão artística de O Garoto. Chaplin conheceu o pequeno Jackie Coogan, que se apresentava em números com seu pai – que tem uma ponta no filme na cena do abrigo – e se apaixonou pelo menino. De fato, a ideia de fazer O Garoto nasce quando Chaplin encontra Coogan e percebe do que ele é capaz. Até então ele tinha feito, em meio às suas dezenas de curtas, apenas um longa, O Casamento de Carlitos (1914). O Garoto também nasceu como um curta, mas foi aos poucos se expandindo quando Chaplin começou a retrabalhar o projeto.

INFLUÊNCIAS DE TRAGÉDIAS PESSOAIS

A história é simplíssima: uma jovem mãe sozinha (Edna Purviance) abandona seu bebê sem querer, e ele acaba sendo encontrado pelo Vagabundo (Chaplin). Cinco anos depois, o Vagabundo e o Garoto (Coogan) sobrevivem de pequenos trambiques. A mãe acaba reencontrando seu filho perdido, o que ameaça separar os dois.

O que torna “O Garoto” especial é o que Chaplin faz com essa historinha. Tudo é concebido com a imagem em mente – é interessante revê-lo, em 2020, depois de tantos filmes modernos que incrivelmente não exploram tanto as possibilidades da linguagem visual. A versão atual de O Garoto, depois de alguns cortes que Chaplin fez no começo dos anos 1970, dura 50 minutos e impressiona pela economia narrativa. Tudo é encenado em poucos planos. Alguns momentos são até bem sofisticados, do ponto de vista de narrativa, como o plano com a Mãe sentada no alpendre da casa, pensando no filho num canto do quadro, e o Garoto sai pela porta e se senta ao lado dela, preenchendo o outro lado do enquadramento. Ou quando o Vagabundo sai correndo pelos telhados, desesperado em busca do Garoto, e ao fundo, embaixo na rua, a caminhonete que é o seu objetivo aparece no enquadramento.

Em outros aspectos, Chaplin não é tão bem sucedido. Apesar de ele caracterizar bem a personagem da Mãe e tratar seu drama com delicadeza, a cena em que ela abandona o bebê, um momento crucial da narrativa, acaba ficando um pouco ambígua – depois descobrimos que ela não o abandonou de propósito, mas isso não fica claro na encenação do momento. E tentativas de relacionar o sofrimento da Mãe com o de Cristo são canhestras e apelativas. É sabido que, nessa mesma época, Chaplin também lidava com o transtorno mental da sua mãe, e adiou a vinda dela para os Estados Unidos até depois da finalização de O Garoto. As imagens de pobreza e o tratamento da Mãe no filme são evocativos da própria infância do diretor.

Através do filme, também, Chaplin pôde viver um pouco do amor que estava guardado para seu filho. O relacionamento do Vagabundo e do Garoto é tocante mesmo – amplificado pelo fato de Coogan não atuar, apenas ser, no filme. Enquanto todos os adultos atuam como atores de cinema mudo, de forma expansiva, ele é o único natural, e o que ele faz no filme, que eternizou a sua fofice em celuloide, não podia ser ensaiado ou planejado. Chaplin disse que construiu o filme em torno dele; pois bem, ele não estava exagerando ou mentindo quando disse isso.

É graças à sinceridade de Coogan, e de Chaplin – provavelmente motivada pelo amor pelo filho que não veio a ter, naquela época – que O Garoto ainda hoje é especial. O filme faz rir – a cena da briga com o irmão mais velho é sensacional – e emociona do mesmo jeito, com honestidade. Ele capta, nos seus melhores momentos, uma pureza emocional que não se pode fingir ou fabricar. Ela vem honestamente, do coração, e fotografar o que se passa no coração é um milagre, algo que muitos filmes almejam, mas nem todos conseguem. Um milagre influenciado, ou determinado, por pequenas tragédias da vida real.

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