“Tempos Modernos” talvez seja o filme mais popular de Chaplin e do icônico personagem Carlitos, curiosamente a última obra em que essa persona marcante aparece.  Neste clássico, somos embalados pelos acordes de “Smile” enquanto acompanhamos as desventuras de um operário que tenta sobreviver diante das iminentes mudanças na divisão de trabalho e a expansão do sistema capitalista.

Além de popular, esta é uma das obras mais atemporais de Chaplin devido à contundente crítica social presente. O cineasta utiliza o humor pastelão com gotas de ingenuidade para retratar o gosto amargo que a Grande Depressão deixou no mundo. Ainda em 1936, era possível sentir as consequências da crise alinhadas aos processos de industrialização pós 2ª Revolução Industrial. Chaplin mostra como tudo isso afetou a vida em comunidade.

RITMO MECÂNICO DE PRODUTIVIDADE

Neste processo, é importante perceber como “Tempos Modernos” se preocupa em apresentar a procura pela recuperação econômica e adequação a uma realidade que pouco ampara os que estão nas classes mais baixas. Em tela, isso se evidencia com a utilização do modelo fordista de produção: repleto de equívocos, mas, aplaudido como exemplo do desenvolvimento produtivo. Afinal, este modelo servia como alicerce do modo de vida burguês norte-americano. No entanto, o filme de 1936 deixa nítida a exaustão a qual os empregados eram submetidos na linha de produção e como a repetição poderia desencadear a insanidade, realmente criticando o outro lado da moeda.

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O que reforça essa ideia é o uso da ciência e tecnologia como ferramentas de alienação e domínio industrial, empurrando os operários para a fila do desemprego. Dessa forma, toda modernidade apreciada na Revolução Industrial disfarça a decadência que envolve o setor humano. Se por um lado os avanços são inquestionáveis, os padrões de sociabilidade humana enfrentam uma tragédia envolta de pessoas com a vida sem sentido, sem tempo para atividades que não visem o lucro e presas a atender as necessidades do modo de vida capitalista. Como em “Metrópolis” (1927), de Fritz Lang, os operários vivem a caminho do abatedouro e resumem sua vida ao ritmo mecânico da produtividade. Não é por acaso que uma das primeiras cenas do filme remete a esse clássico da ficção científica.

Arte como instrumento questionador

Chaplin usava o cinema para questionar e o humor era o canal escolhido para efervescer suas críticas. O público se diverte com suas obras por identificar-se com as situações apresentadas; os personagens de seu cinema vivenciam questões cotidianas e banais que se transformam em momentos inesperados e surreais. Neste caso, de forma simples, visual e criativa, ele denuncia a desumanização e alienação do sistema apenas com os gestos insanos de Carlitos. 

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Até mesmo o som, instrumento a qual Chaplin era tão avesso em seu cinema, aparece em “Tempos Modernos” como instrumento de argumentação. Além de surgir em momentos específicos, o som assume a postura de ferramenta de censura. Na fábrica, por exemplo, a voz do superior ecoa pelas paredes, mas não é permitido a nenhum dos operários parar, escutá-lo e respondê-lo. A eles só cabe concordar e seguir o ritmo desenfreado de produção.

Diante disso, a ironia presente na titulação da obra não poderia ser mais precisa. Afinal os tempos modernos trouxeram avanços incontestáveis, por outro lado, no entanto, sujeitaram o homem a sobreviver em busca da produtividade que alimenta o sistema capitalista, enquanto para a maior parte da população sobram as migalhas. Assim, que tipo de humanidade a modernidade fabrica?

Mais uma vez, Chaplin usa o humor e a sensibilidade para chamar atenção para assuntos sérios. Ele se despede de Carlitos de forma magistral, nos fazendo refletir até que ponto um sistema tão abraçado pelo mundo realmente é a melhor escolha para os usuários mais distantes do topo da pirâmide. Mais de 80 anos depois e a sua crítica permanece forte e intocável.

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