Caio Pimenta aproveita as péssimas críticas de “Era uma vez um Sonho” para recordar 10 filmes que naufragaram antes de chegarem ao Oscar.

As primeiras críticas de “Era uma vez um Sonho” não foram absolutamente nada generosas com o filme da Netflix. No Metacritic, site que compila avaliações de críticos de cinema, a média do filme está em 38 em uma escala de 0 a 100. “Jojo Rabbit” foi o pior dos avaliados entre os indicados ao Oscar 2020 e, mesmo assim, conseguiu 58 pontos. Já no Rotten Tomatoes, a avaliação positiva cai para apenas 27%. 

O Alonso Dulrade, do ‘The Wrap’, critica o filme por considerar que ele não busca entender as razões do caos da situação e apenas foca em como o protagonista hétero branco é superior aos demais ao seu redor. Já o Matt Goldberg, do site Collider, considera esse o pior filme do Ron Howard e disse que a ruindade é tanta que até faz duvidar do talento da Glenn Close e Amy Adams. O Justin Chang, do Los Angeles Times, aponta que “Era uma vez um Sonho” é um amontado de cenas juntas em busca de um Oscar.  

Esse é o tom de muitas críticas. De qualquer modo, tire as suas próprias conclusões a partir do dia 15 de novembro quando o filme chega na Netflix. A pergunta que fica agora é o que esperar de “Era uma vez um Sonho” no Oscar 2021? 

Para começo de conversa, já adianto as possibilidades dele surgir em Melhor Filme, Direção para o Ron Howard e Roteiro Adaptado praticamente sumiram. Só uma reviravolta daqueles completamente inesperadas podem ajudar o filme. Daí, a gente as duas indicações que são as que o filme mais aguardava. 

Em Melhor Atriz, a Amy Adams pode ficar de fora. Afinal, a categoria é uma das mais disputadas da temporada de premiações. Tem a Vanessa Kirby, de “Pieces of a Woman”, Frances McDormand, de “Nomadland”, a Viola Davis, por “A Voz Suprema do Blues” e a Michelle Pfeiffer, do criticado “French Exit” na dianteira pelas vagas. No pelotão de trás, aparecem a Meryl Streep, por “A Festa de Formatura”, Sophia Loren, de “Rosa e Momo”, Carey Mulligan, por “Promising Young Woman” e Andra Day, de “The United States Vs Billie Holliday”. Com isso, a disputa parece acirrada demais para a Amy Adams superar todos os problemas do filme e ainda assim chegar ao Oscar. 

E a Glenn Close? Bem, ela é um caso à parte. 

A derrota no Oscar 2019 colocou a Academia em uma saia justa: indicar novamente a Glenn Close para fazê-la perder mais uma vez faz sentido? Já são sete nomeações e nenhuma vitória de uma das atrizes mais queridas e talentosas de Hollywood. Apesar da categoria de atriz coadjuvante do ano que vem estar aberta e, até por isso, com possibilidades claras de vitória para a Glenn Close, premiá-la por um filme considerado uma bomba seria justo com a carreira dela? 

Sinceramente, se for para ser assim e a gente ficar a vida inteira reclamando por ela ter sido premiada por “Era uma vez um Sonho” e não por “Ligações Perigosas” ou “Atração Fatal”, eu prefiro esperar mais um pouquinho. A melhor saída pode ser não a indicar, evitando o constrangimento de mais uma derrota e guardar, talvez, essa oportunidade para 2022 ou 2023. Afinal, ela tem condições tranquilas de fazer mais um grande papel sem depender de uma atuação tão Oscar-bait, tão visivelmente desesperada por uma estatueta como essa. 

Agora, “Era uma vez um Sonho” não é um caso único de filme cercado de expectativas para o Oscar que cai pouco depois de levantar voo. Vamos recordar 10 casos disso dos anos 2000 para cá. 

PEARL HARBOR 

A Disney quis um “Titanic” para chamar de seu e chamou Michael Bay para comandar o épico “Pearl Harbor”. O resultado, entretanto, não chegou nem na cutícula do filme do James Cameron. 

Com um triângulo amoroso de dar sono, uma trama fraquíssima e as boas cenas de ação no estilão Michael Bay, “Pearl Harbor” serviu mais como um blockubster descartável do que um candidato sério ao Oscar 2002. 

O filme, pelo menos, concorreu em quatro categorias técnicas, vencendo edição de som. 

ALEXANDRE 

Oliver Stone brilhou no Oscar no fim dos anos 1980 e início dos 1990 com duas estatuetas de Melhor Direção. Depois de um período de baixa, esperava-se que voltasse ao topo com o épico “Alexandre”. Porém, ficou só na expectativa mesmo. 

Com uma narrativa de pouca fluidez e um roteiro inchado, “Alexandre” não prende o espectador na história de um dos maiores líderes da História. Para piorar, as questionáveis escolhas visuais e Colin Farrell canastrão não ajudam em nada o épico, esnobado totalmente na temporada de premiações de 2005. 

AUSTRÁLIA 

Baz Luhrmann reencontrando Nicole Kidman após “Moulin Rouge”, o filme que introduziu os musicais no século XXI, tinha tudo para dar certo. 

“Austrália”, porém, não funcionou nem como épico, romance ou filme de aventura. Desde o estilo sempre exagerado de Luhrmann ao casal sem química entre Kidman e Hugh Jackman até a duração além do que o roteiro consegue acompanhar, o filme exige boa vontade extrema para que consiga chegar ao seu fim. 

Concorreu apenas em Melhor Figurino. 

NINE 

Apesar da ideia não ser das mais felizes – uma nova versão de “8 ½”, clássico de Fellini – “Nine” tinha boas justificativas para acreditar que fosse bom. 

Rob Marshall, por exemplo, vinha do Oscar de “Chicago”, enquanto o elenco reunia gigantes como Daniel Day-Lewis, Sophia Loren, Penélope Cruz, Nicole Kidman e até a estrela pop Fergie. 

Porém, com momentos musicais pouco criativos, Day-Lewis cantando mal até dizer chega e uma história que não sai do superficial, “Nine” não empolgou nem público nem crítica. Ainda conseguiu quatro indicações, mas, muito abaixo do que era esperado. 

ALÉM DA VIDA 

Em momento de alta na carreira, Clint Eastwood parecia forte para o Oscar 2011 com “Além da Vida”, nova dobradinha com o astro Matt Damon. 

“Além da Vida”, entretanto, se revelou um dos piores filmes recentes de Clint: uma produção bem filmada e com momentos impactantes, mas, que não se sustenta como um todo a partir de um roteiro indeciso e personagens pouco carismáticos. 

Foi indicado apenas em Melhores Efeitos Visuais. 

O MORDOMO DA CASA BRANCA 

Igual era a Amy Adams para o Oscar 2021, o Forest Whitaker parecia nome certo em Melhor Ator na cerimônia de 2014 pelo trabalho em “O Mordomo da Casa Branca”. Bastou, porém, do filme para ver que a história não era bem essa. 

Dirigido por Lee Daniels, a cinebiografia do respeitado mordomo que serviu oito presidentes dos EUA na Casa Branca tem todas as melhores intenções do mundo, mas, exagera nas tintas, saindo como um retrato superficial e pouco questionador dos dilemas raciais. 

Guarda traços com a sensação deixada pelo trailer de “Era uma vez um Sonho”: tem uma cara tão Oscar-bait que se torna insuportável. 

JOY

 

David O. Russell teve a aura de queridinho da Academia abalada com “Joy”. 

O diretor indicado por filmes superestimados como “O Vencedor” e “Trapaça” achava que seria indicado com uma produção que aproveitava o momento de feminismo em alta na sociedade e na própria Hollywood em parceria com a estrela Jennifer Lawrence. Porém, as críticas foram unânimes de que o estilo do diretor parecia esgotado em um roteiro que forçava demais a boa vontade para soar interessante sem conseguir ser. 

A indicação da Jennifer Lawrence em Melhor Atriz foi uma das mais aleatórias do Oscar nos últimos tempos, fazendo lembrar de um filme que deveria ser esquecido. 

A LONGA CAMINHADA DE BILLY LYNN 

Ang Lee era o diretor do momento no início dos anos 2010 com dois Oscars de Melhor Direção por dois filmes de gêneros diferentes e extremamente eficientes. Quando ele se meteu a fazer uma produção de guerra, todo mundo tinha certeza que vinha mais um filmaço. 

Porém, quebramos a cara. Apesar do interessante desafio técnico de se filmar em 3D com resolução em 4K, algo inédito e o mais avançado tecnologicamente da época, “A Longa da Caminhada de Billy Lynn” chegou atrasado demais para falar sobre os traumas da Guerra do Iraque, soando um cansativo mais do mesmo. 

É uma pena que, de lá para cá, o Ang Lee não fez mais nenhum grande filme. 

PEQUENA GRANDE VIDA 

Falando de queridinho da Academia, o Alexander Payne acumulou indicações nos últimos anos com “Sideways”, “Os Descendentes” e “Nebraska”. Essa boa fase, porém, terminou com “Pequena Grande Vida”. 

Seria uma ficção científica ou um drama? Ou por que não uma comédia? “Pequena Grande Vida” demonstra esta indecisão constante sobre o que pretende ser refletindo em uma história que parece nunca deslanchar. Azar do grande elenco mal aproveitado. 

CATS 

O maior de flops, sem dúvida, aconteceu no ano passado quando “Cats” saiu da corrida do Oscar direto para o Framboesa de Ouro. 

O musical baseado no sucesso da Broadway é tão bagunçado a um ponto que chega a ser divertido. “Cats” gabarita nos erros: dos efeitos visuais ao roteiro incapaz de amarrar os elos da história a uma direção horrorosa, temos uma produção das mais equivocadas já feitas em Hollywood. 

E pensar que o diretor de “Cats” um dia superou David Fincher no Oscar. 

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