Já falei do primeiro Matrix na comemoração dos 15 anos do filme. Até hoje, o considero um dos grandes filmes-pipoca da história do cinema. Mas, quanto a isso, a maioria concorda. O terreno fica mais instável quando se começa a falar das suas continuações…

Decepcionantes? Sim. Ruins? De jeito nenhum. Aqui estão as razões pelas quais Matrix Reloaded e Revolutions merecem a nossa atenção.

Em 2003, todo o mundo estava esperando pelas sequências de Matrix. Aliás, com o lançamento previsto não apenas dos filmes, mas também de um videogame (Enter the Matrix) e de uma coletânea de curtas animados – muito legal, por sinal – intitulada Animatrix, o estúdio Warner Bros. e os cineastas irmãos Andy e Larry Wachowski planejavam “conquistar o mundo” com sua história.

Em suma, 2003 seria “o ano Matrix”. No entanto, ao final daquele ano, após o terceiro filme ser lançado, começou uma reação contrária à franquia, provocada em parte pela grande exposição da marca, e em parte pela qualidade dos dois filmes, Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, que foram percebidos pelo publico como bastante inferiores em relação ao longa original.

E eles realmente são. Olha, não vou dourar a pílula aqui, seja azul ou vermelha: Reloaded e Revolutions têm seus problemas, sendo o maior deles a boa e velha “gordura”. Se os roteiros de ambos tivessem sido enxugados e combinados numa só produção, provavelmente teríamos hoje uma continuação à altura do primeiro Matrix. A seguir, neste texto falarei sobre os defeitos dos dois filmes, mas também falarei sobre suas qualidades. E, para mim, essas qualidades fazem deles trabalhos dignos de respeito e atenção. Talvez, livres das expectativas, agora possamos ver essas qualidades pelo que realmente são.

Ainda aqui? Então vamos lá…

MATRIX RELOADED

Passados alguns meses depois do final do primeiro filme, em Reloaded a resistência humana descobre que um ataque catastrófico das máquinas irá em breve destruir a cidade de Zion. Correndo contra o tempo para impedir o ataque, Neo (Keanu Reeves), transformado num ser superpoderoso dentro da Matrix, percebe que a única salvação é chegar ao computador central das máquinas, a Fonte. Após uma conversa com o Oráculo (Gloria Foster) sobre predeterminação e escolha, ele descobre sobre o Chaveiro (Randall Duk Kim), o programa que lhe dará acesso à Fonte, e parte à procura dele junto com seus aliados Morpheus (Laurence Fishburne) e Trinity (Carrie Anne-Moss).

Parece simples, mas depois do sucesso do primeiro filme os irmãos Wachowski parecem embriagados com a ideia de que “mais é melhor”. Tudo nesse filme é maior que no primeiro: os cenários, os diálogos e monólogos, as cenas de ação… Enquanto no primeiro os heróis tinham um ar meio rebelde, quase “riponga”, neste vemos que o mundo humano segue uma organização militarista semelhante a outras já vistas em dezenas de outras produções.

Só a partir da primeira meia hora é que a história realmente começa, com Neo esclarecendo algumas coisas junto ao Oráculo e depois enfrentando seu inimigo Smith (Hugo Weaving, cuja atuação permanece excepcional nos dois filmes). Smith agora é capaz de se copiar. A luta entre o herói e centenas de Smiths é uma cena bem ambiciosa, mas a tecnologia da época ainda não consegue realizá-la a contento: o espectador sai da cena quando Neo e Smith viram nítidos “bonecos de videogame”. Apesar desse tropeço, é a partir daí que Reloadedrealmente se transforma numa ótima aventura fantástica.

A luta no castelo do Merovíngio (Lambert Wilson), por outro lado, é um momento cinematograficamente brilhante, realizado com o tradicional trabalho de coreografia e cabos, sem computação gráfica. E a posterior perseguição na rodovia é uma das grandes sequências de ação do cinema moderno: são cerca de 15 minutos nos quais o espectador não respira direito, hipnotizado pelo poder das imagens. Pode-se até argumentar que a sequência não precisa se estender tanto e que grande parte dela não serve à trama, mas é o caso de um estilo (e que estilo!) tomando precedência sobre a substância.

Quando Neo finalmente alcança a Fonte, ele descobre o Arquiteto (Helmut Bakaitis), essencialmente “deus” no universo do filme – não à toa, é interpretado por um velhinho de barbas brancas… É o momento mais importante de toda a trilogia e no qual os roteiristas alteram completamente a nossa relação com a história. Na conversa entre eles, descobrimos que tudo que Neo sabia no primeiro filme era mentira, que dentro da Matrix ele não passa de um programa com uma função predeterminada, e que nunca houve escolha. No entanto, contrariando as expectativas do Arquiteto, Neo é também humano e resolve escolher – ao invés de cumprir sua função, ele resolve salvar sua amada da morte certa. É o dilema da humanidade, sintetizado pela cena: afinal, existe destino, um grande plano para tudo, ou nossas vidas são constituídas apenas de momentos aleatórios determinados exclusivamente pelas nossas escolhas?

Uma reviravolta de roteiro tão grande assim é corajosa e deixa a história mais rica e interessante. E como tal, é uma manobra meio incomum no cinema hollywoodiano. Após essa cena, espectadores saíram do cinema coçando as cabeças enquanto esperavam pela continuação…

MATRIX REVOLUTIONS

No início da terceira parte, Morpheus e Trinity resgatam Neo do “limbo” para onde foi sua mente e depois elaboram um plano desesperado para salvar Zion. Morpheus e a capitã Niobe (Jada Pinkett-Smith) partem para a batalha, já Neo e Trinity vão até a cidade das máquinas para propor uma tentativa de paz. Enquanto isso, o programa Smith, um vírus fora de controle, ameaça destruir a Matrix e o mundo real.

Revolutions tinha tudo para encerrar a trilogia com chave de ouro e responder aos interessantíssimos questionamentos deixados ao fim de Reloaded… No entanto, ele sofre do mesmo problema do anterior: demora uns bons 30 minutos para começar, pois o tempo gasto no limbo não serve realmente a uma grande função dramática. E há outro grande problema, herdado de Reloaded: os Wachowskis não conseguiram fazer com que nos interessássemos realmente pelo pessoal de Zion no segundo filme. Ao invés disso só nos deram aquela estranha festa rave. Então, quando chegamos ao terceiro filme acompanhamos uma longa batalha, mas não nos importamos com nenhum dos personagens que está lutando. Embora os efeitos sejam espetaculares, melhores que os de Reloaded…

Mesmo assim, também é um filme repleto de grandes momentos, como a visão da cidade das máquinas – bastante inspirada pelo trabalho do artista H. R. Giger, criador do Alien – ou a cena em que Neo e Trinity veem o céu azul pela primeira vez em suas vidas. No entanto, é o desfecho da trilogia que mais me deixa entusiasmado a respeito do filme.

Nos filmes fantásticos de Hollywood, há o bem e o mal, e este último, quase sempre, é destruído ao final. Nas continuações de Matrix não: os humanos e as máquinas são mostrados como dois lados da mesma moeda, interdependentes entre si, como a conversa entre o conselheiro Hamman (Anthony Zerbe) e Neo em Reloadedjá antecipa.

Além disso, o final expande tematicamente a história, ao deixar claro que há mais por trás das nossas vidas do que as escolhas que simplesmente fazemos. No primeiro, Neo escolhe entre a pílula azul e a vermelha; no segundo, entre uma porta e outra. No terceiro, a decisão de Neo, de se oferecer para fazer a paz, é o momento mais humano da trilogia. O que ele escolhe agora não é de natureza binária, como antes, entre sim e não. Sua escolha não é maniqueísta, pois ela mostra que não é necessário que um dos lados vença. Aliás, o maniqueísmo passa longe do desfecho: ao vermos programas falando sobre sentimentos humanos e a própria ambição do Smith, provocada pela sua despertada humanidade, fica claro como os lados inimigos estão mais próximos do que pensam na trilogia.

E no final, o conflito Neo/Smith acaba sendo uma luta entre a esperança do primeiro e o niilismo do segundo, e o desfecho dela deixa claro de que lado os diretores estão. É uma noção, na verdade, quase espiritual, não necessariamente religioso – embora haja um subtexto religioso na trilogia, para alguns muito cristão, mas o universo de Matrix é politeísta – e algo que nem sempre é vista no cinema hollywoodiano, especialmente nos blockbusters.

CONCLUSÃO

Pode-se até argumentar que o primeiro Matrix não precisava realmente de uma continuação. Mas é a natureza do negócio: público e estúdio querem mais, e neste caso, os cineastas já tinham a história. As sequências não são desprovidas de problemas, mas por trás das explosões, lutas e efeitos, há uma história com um subtexto muito rico. Talvez os filmes ainda hoje sejam mal vistos porque contrariaram expectativas: as pessoas esperavam ver algo tão impactante quanto o primeiro, o que não aconteceu. E por outro lado, não esperavam ver no segundo, algo que contrariasse a história mostrada no primeiro; nem ver, no terceiro, uma história sobre guerra entre homens e máquinas terminar com esperança e paz. Para mim, esses dois elementos ajudam a fazer da trilogia Matrix, como um todo, algo muito especial.

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