Ambientado em 1975, ano que institui a ditadura militar na Argentina,” Vermelho Sol” busca elucidar a pergunta-chave: como as pessoas deixaram isso ocorrer? Elas não perceberam nada estranho? A partir desta premissa, o longa aproveita para dar uma resposta dura e seca: todos sabiam, mas preferiram olhar para o outro lado. Com roteiro e direção de Benjamín Naishtat, o projeto se constrói em um clima de pura calmaria, focando em uma família de classe média alta, para explicar como o regime militar chegou ao poder.

“Vermelho Sol” inicia com uma sequência de quase 30 minutos em que Naishtat introduz o advogado Claudio (Darío Grandinetti) para o espectador em um restaurante de classe média alta. O advogado entra em discussão com um estranho (Diego Cremonesi) e a briga se estende para fora do local levando à morte do sujeito com um tiro dado pelo protagonista. Claudio tem a chance de levá-lo ao hospital de carro, porém, decide deixá-lo para morrer em um deserto.

Bem executados, todos esses acontecimentos são construídos em um ambiente de excelente suspense, apostando bastante em jogos de montagem com trocas de planos gerais com mais fechados e em desfoques bem pensados. Fica até o gostinho do que irá acontecer dali em diante, porém, o roteiro leva a outro caminho.

É de se esperar que as ações seguintes desenvolvam algum tipo de segredo ou trauma por parte de Claudio, mas, isso passa longe de acontecer. “Vermelho Sol” avança três meses e as coisas não poderiam estar melhor para ele. Claudio e sua família continuam saindo, se divertindo, sem que o passado influencie em nada o presente. Tal aspecto chama a atenção já que dentro da narrativa, e pelo próprio peso histórico do tema que “Vermelho Sol” utiliza, isso se torna um simbolismo do que é a história violenta da América Latina. Em tempos onde mais e mais é valorizado o período militar no Brasil, as pessoas parecem esquecer os horrores que foram executados durante os anos de chumbo e continuam a viver, achando que aquilo está somente no passado e que nada mais deveria ser feito.

TOQUES DE ALMODÓVAR

Seja em um número de mágica onde uma pessoa da plateia desaparece ou na agressividade do namorado da filha de Claudio ao suspeitar de uma traição, simbolismos e metáforas guiam o roteiro de “Vermelho Sol”. Benjamín Naishtat apresenta pequenos mecanismos na própria sociedade argentina para explorar o contexto político social do país.

Isso se mostra eficiente ao revelar a cumplicidade e o próprio teor agressivo que existe dentro do ser humano. Ele pode se vestir e falar bem, mas consegue admirar e até se satisfazer na hora de matar uma mosca, assim, fazendo um paralelo com as torturas que ocorreram no período.

Por vezes, “Vermelho Sol” termina lembrando um filme de Almodóvar pela presença constante da cor vermelha no figurino e direção de arte. Talvez uma forma de incluir uma ideia de que a qualquer momento qualquer um poderá ser vítima de algum ataque ou desaparecer, dado o delírio da paranoia “comunista”. O drama argentino ainda busca um tom quase que formalista, sempre com câmera parada e pouco uso de cortes dentro das cenas. Isso consegue auxiliar no clima de calmaria que o filme busca alcançar, deixando o espectador tão sedado quanto as personagens em suas vidas “normais”.

“Vermelho Sol”, ao final, consegue trazer uma ótima resposta para a pergunta feita no início deste texto, colocando aos personagens e as situações expostas as razões pelas quais um governo autoritário chega ao poder. Já Naishtat sai deste filme como um dos diretores mais interessantes para ficar de olho dado sua visão para simbolismos e sua mão para dirigir cenas de suspense.

Michel Guerrero e as memórias da infância no Cine Carmen Miranda

Michel Guerrero possui uma longa carreira no teatro manauara, incluindo sua personagem mais famosa, Lady Park. Agora, ele revive sua paixão de infância pelo cinema para produzir seu primeiro curta-metragem como diretor, “Cine Carmen Miranda”. Partindo de uma narrativa...

Cláudio Bitencourt e Diego Lopes: “o talento do Marco Ricca elevou ainda mais ‘Lamento’”

Glamourosos e com uma diversidade de gente de todos os tipos entre hóspedes e clientes, hotéis sempre foram locais adorados por roteiristas e diretores para ambientarem suas produções. De Edmund Goulding em "O Grande Hotel" (1932) ao clássico "O Iluminado", de Stanley...

Daniel Nolasco: ‘A História brasileira ressignificou ‘Vento Seco’’

"Vento Seco" estreia no circuito comercial dos cinemas brasileiros em um mundo bem diferente de quando foi formulado inicialmente lá no longuíquo 2013. A chegada de um governo de extrema-direita ao poder e todo o preconceito contra minorias trazido por ele coloca...

Ignacio Rogers: ‘’O Diabo Branco’ mostra como as feridas da colonização seguem abertas’

 Com uma trajetória na carreira de ator iniciada em 2005, o argentino Ignacio Rogers resolveu se aventurar na direção de longas-metragens neste ano com “O Diabo Branco”. A produção em cartaz nos cinemas brasileiros toca em pontos sensíveis da colonização...

Heitor Dhalia: ““Anna” foi um filme desafiado pelo seu tempo”

Um nome importante do meio artístico utilizando seu prestígio para promover um ambiente tóxico de trabalho ao promover abusos morais e até sexuais a seus subordinados. Não, ainda não se trata da cinebiografia de Harvey Weinstein e sim do mote principal de “Anna”, novo...

Lucas Salles: “filmes como ‘Missão Cupido’ trazem a esperança de um final feliz”

Vindo de uma geração marcada pela transformação tecnológica, Lucas Salles é um bom exemplo de artista multiplataforma. Já foi repórter do 'CQC' e do 'Pânico na Band', realiza stand-up comedy no teatro, foi apresentador da "A Fazenda Online" e também investe na...

Lírio Ferreira: “‘Acqua Movie’ é uma extensão espiritual de ‘Árido Movie’”

A Retomada do Cinema Brasileiro viu surgir uma nova geração de diretores pernambucanos com impacto de influenciar e referenciar a produção nacional fora do eixo Rio-São Paulo. Lírio Ferreira abriu as portas em 1997 com o já clássico “Baile Perfumado”. Ao som do mangue...

Ricardo Calil: ‘Cine Marrocos’ simboliza os desencontros do Brasil com a cultura e os sem-tetos’

Ricardo Calil ficou conhecido como documentarista de grandes filmes sobre a música e a cultura brasileira. São dele produções como “Uma Noite em 67” sobre o célebre Festival da Record com estrelas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Os Mutantes e Gilberto Gil; “Eu Sou...

Gustavo Pizzi: “‘Gilda’ representa a luta contra a imposição externa sobre a própria vida”

No Brasil 2021 de Jair Bolsonaro, uma mulher livre, dona do próprio corpo e contrária a opressão masculina incomoda muita gente. “Os Últimos Dias de Gilda”, série disponível na Globoplay, mostra muito bem isso.  A produção exibida na Berlinale Series neste ano estreou...

Júlia Rezende: “’Depois a Louca Sou Eu’” pode ser uma ponte de diálogo sobre a ansiedade’

“Meu Passado me Condena 1 e 2”, “Ponte Aérea” e “Uma Namorado para a Minha Mulher”. Todos os estes filmes são sucessos recentes da comédia romântica brasileira dirigidas pela Júlia Rezende. E ela está chegando nos cinemas com “Depois a Louca Sou Eu” com a Débora...