“Driveways” é um filme simples. O tipo de produção que não encontraria lugar entre os blockbusters para projeção nos cinemas de shopping. Devido a pandemia, no entanto, temos acesso mais fácil a obras como essa. É necessário deixar claro que a simplicidade é onde repousa a beleza e o coração do filme dirigido por Andrew Ahn (“Spa Night”), que aborda afetos e aceitação.

Acompanhamos o pequeno Cody (Lucas Jaye) e sua mãe, Kathy (Hong Chau, de “Watchmen”), que estão de passagem para vender a casa que pertencia a irmã dela. O garoto é solitário e tem dificuldade em socializar com as outras pessoas da sua idade, o que, entretanto, não o impede de desenvolver uma amizade com o vizinho de sua tia, um veterano de guerra (Brian Dennehy). A partir dessa relação, o roteiro utiliza atividades cotidianas para discutir aceitação, inteiração e como o afeto é construído a partir desses dois pontos.

Socialização e afetos

Desde os primeiros instantes, fica evidente que a interação da família se restringe a mãe e filho. Kathy parece ter dificuldade em aproximar-se das pessoas e o mesmo ocorre com seu filho. Como alguém que convive mais com adultos do que com pessoas da sua idade, Cody não consegue se relacionar com as crianças do bairro, o que fica nítido pela sua falta de entendimento de gírias juvenis e pelo seu comportamento silencioso. Isso resulta em ele não saber lidar com conflitos de qualquer espécie, por exemplo.

Tal conduta, no entanto, é importante para aumentar a empatia criada em torno da amizade do garoto e Dell. O afeto entre ambos é um condutor para os tirar da solidão, para isso, precisam aceitar o que lhes é imposto pela vida. Enquanto Cody tem que aprender a lidar com as mudanças de sua idade, incluindo nisso as decisões da mãe e saber se relacionar com outras crianças, Dell precisa seguir em frente após a morte da esposa e decidir se viver em seu ambiente isolado é melhor do que estar perto de sua filha.

Nesse processo, os dois personagens têm um encontro de alma sincero e encantador. A cena em que festejam o aniversário de Cody no bingo com Dell e seus amigos e o diálogo final entre o senhor e a criança são as maiores evidencias da ternura, respeito e aceitação no qual o afeto entre eles é alicerçado. Além de relembrar que há sempre uma saída para a solidão.

A beleza do elenco

Parte dessa delicadeza provém justamente do elenco: Brian Dennehy, que perdemos em abril deste ano, entrega suavidade e doçura em sua relação com o jovem Lucas Jaye. O garoto, por sinal, faz de “Driveaways” um filme leve e divertido devido a sua ingenuidade, responsável por diminuir sua áurea infantil que sabe tudo – elemento muito presente nas tramas que envolvem atores mirins.

Outro detalhe interessante, também, é a diversidade do elenco: temos personagens asiáticos, afrodescendentes e hispanos e todos eles buscam interagir com a família de Cody e fazer-lhe bem. Curiosamente, o maniqueísmo recai sobre os personagens caucasianos que agem com indiferença e até mesmo atitudes intolerantes em relação a família asiática.

Andrew Ahn constrói uma trama simples, mas nos faz envolver-nos com seus personagens e seu cotidiano pacato, porém carregado de afeto, ternura e companhia. Itens essenciais para o tempo de pandemia.

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