Todo ano o mesmo processo ocorre quando a entrega do Oscar se aproxima. Jornalistas, críticos e o público discutem sobre qual filme merece ganhar, qual não merece, sobre a qualidade das atuações, sobre os méritos de cada indicado… Alguns repetem conversas já transformadas em clichês: o prêmio na verdade não é tão importante assim; grandes nomes do cinema nunca ganharam; o Oscar coloca o show acima da qualidade artística, etc.

Essas coisas até podem ser verdade. No entanto, o Oscar indiscutivelmente serve também como uma espécie de raio-X anual da produção cinematográfica americana. De vez em quando, a radiografia é bonita, indicando que o paciente está saudável. Percebemos como o cinema americano passou bem em anos como 1939, com indicados como Vitória Amarga, A Mulher Faz o Homem, O Mágico de Oz, No Tempo das Diligências e o vencedor …E o Vento Levou. Ou em 1994, cujos indicados incluíam Pulp Fiction, Um Sonho de Liberdade, Quiz Show e Forrest Gump. Em anos mais recentes, como 2007, 2010 e 2013, tivemos uma boa quantidade de grandes filmes entre os indicados.

Por outro lado, ocasionalmente a radiografia que o Oscar expõe provoca um desânimo. Veja os concorrentes, por exemplo, de 1963: o inchado e cafona Cleópatra com Elizabeth Taylor, o irregular western A Conquista do Oeste… Apenas o semiautobiográfico Terra do Sonho Distante, de Elia Kazan, representou um alento. Não à toa, o vencedor foi a bobinha comédia Tom Jones, com Albert Finney, um filme do qual quase ninguém se lembra hoje. Ou 1983, quando só havia um único grande filme dentre os concorrentes – Os Eleitos, de Philip Kaufman – e este ainda perdeu para o abobado Laços de Ternura. Na opinião deste que vos fala, 2011 foi também, dentre as edições recentes, um ano de muitos concorrentes medianos ou fracos – quando metade dos indicados é composta pelos fraquíssimos Tão Forte e Tão Perto e Histórias Cruzadas e pelos medianos Cavalo de Guerra e Os Descendentes, é sinal de que a produção anual não foi tão boa assim.

Então, qual foi o melhor ano do cinema americano? Qual foi a melhor época? Muita gente fala do já mencionado 1939, mas para mim, e tomando o Oscar como termômetro, 1975 também é forte candidato. Há quarenta anos, tivemos uma cerimônia na qual todos os cinco indicados foram obras-primas. Era a época da Nova Hollywood e da renovação do cinema americano. E cada um dos indicados representou uma tendência e um estilo de história que seriam consagrados ao longo do tempo. Por isso, esta é a oportunidade perfeita para homenagear estes cinco filmes magníficos. Então, vamos relembrar:

O retrato do país: Nashville

O cineasta Robert Altman pediu à sua roteirista Joan Tewkesbury para ir até a cidade de Nashville para pesquisar o lugar, a Meca da música country americana. O resultado foi Nashville, o épico caipira e intimista que acabou sendo um dos melhores filmes da carreira do diretor.

Comandando seu tradicional grande elenco – são mais de 20 personagens! – Altman nos leva para dentro daquele microcosmo, que acaba representando os Estados Unidos em tumulto, com o país recém-saído da Guerra do Vietnã e da renúncia do Presidente, Richard Nixon. O filme, claro, dá umas alfinetadas na cafonice dos ídolos country e na música deles, mas o olhar de Altman é mais afetuoso do que cínico, na maior parte do tempo. No fim das contas ele acaba produzindo um retrato do país, uma terra que admira seus ídolos, mas também é atormentada pela confusão e pela violência. E quando um ídolo sai de cena, por causa dessa mesma violência, outro está imediatamente a postos para assumir seu lugar, porque em Nashville (e nos EUA) a música e o show não podem parar.

Nashville recebeu cinco indicações para o Oscar: Melhor Filme, Diretor e para as atrizes Lily Tomlin (sua estreia nas telas) e Ronee Blakley, ambas na categoria de Atriz Coadjuvante. Mas ganhou apenas uma estatueta, na categoria de Melhor Canção, a bela “I’m Easy”, interpretada pelo ator Keith Carradine.

O monstro das bilheterias: Tubarão

Orçamento estourado, uma produção problemática e um monstro mecânico que não funcionava: por um momento, parecia que Tubarão seria uma bomba. Mas depois de comer o pão molhado que o tubarão mastigou, o jovem diretor Steven Spielberg se reuniu com a sua montadora Verna Flelds e com o compositor John Williams e acabou levando às telas um filme que ainda hoje é capaz de deixar o público com medo de entrar na água. E de quebra, criaram também a maior bilheteria do cinema até então e o primeiro grande blockbuster de verão.

Sobre Tubarão e o Oscar: Spielberg perdeu a indicação a Melhor Diretor porque a Academia optou por Federico Fellini e seu trabalho em Amarcord. Claro, ninguém sabia quem era esse moleque até então, e sem dúvida as notícias da produção tumultuada contribuíram para que Spielberg perdesse a indicação. Foi a sua primeira decepção com a Academia, e outras ainda viriam, mas esta em particular rendeu um momento até engraçado, gravado e eternizado num vídeo.

Assista-o abaixo, no qual o cineasta se mostra confiante a princípio e depois surpreso – um dos sujeitos no vídeo com ele é o ator Joe Spinelli, de O Poderoso Chefão. Ao final, Spielberg fala sobre a “reação negativa ao sucesso”, indicando que a Academia torce o nariz para filmes populares, uma acusação que persiste até hoje e não é totalmente sem mérito.

Tubarão conseguiu ser indicado a Melhor Filme, mas acabou vencendo apenas nas categorias técnicas de Montagem, Som e Trilha Sonora.

A louca história real: Um Dia de Cão

Na tarde de 22 de agosto de 1972, dois assaltantes invadiram um banco no Brooklyn, em Nova York, e fizeram reféns quando foram cercados pela polícia. O cerco demorou várias horas, atraiu a atenção da mídia, e as coisas se tornaram mais dramáticas quando descobriram que um dos ladrões estava lá para conseguir dinheiro para a operação de mudança de sexo do seu amante.

Alguns anos depois, o especialista em Nova York e grande diretor, Sidney Lumet filmou essa história, com Al Pacino e John Cazale em desempenhos estupendos nos papéis principais e o resultado foi Um Dia de Cão. Este filme vibrante, estranhamente divertido e cheio de suspense foi capaz de tecer considerações sobre o momento político do país – Sonny, personagem de Pacino, se torna herói e quase ídolo da contracultura ao gritar sobre o massacre da prisão de Attica pela polícia anos antes, na cena mais famosa do filme. Um Dia de Cão aborda também o papel da mídia. Afinal, não deixa de ser curiosa a forma como Sonny passa de herói a vilão aos olhos dos espectadores moralistas assim que seu caso homossexual é revelado pela imprensa.

Um Dia de Cão recebeu seis indicações para o Oscar: Melhor Filme, Diretor (Lumet), Ator, (Pacino), Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Montagem e Roteiro Original, sendo vencedor nesta última categoria.

A pintura de um Mestre: Barry Lyndon

Stanley Kubrick, por um tempo, tentou fazer um filme sobre Napoleão, mas o projeto escapou ao seu controle. Então, com a carta branca do estúdio Warner Bros., se lançou em outra produção de época: Barry Lyndon, baseado no livro de William Makepeace Thackeray, sobre a ascensão e queda de um sujeitinho irlandês e ordinário em meio à conturbada Europa do século XVIII. Com seu conhecido perfeccionismo, Kubrick filmou tudo no estilo de pinturas da época, com quadros estáticos e os zooms que se tornaram marca registrada. Chegou até a fazer uso de lentes concebidas para a NASA para captar a iluminação das cenas interiores noturnas, cuja luz provinha apenas das velas presentes nos cenários.

O efeito é sensacional e fantasmagórico: é como se Kubrick tivesse construído uma máquina do tempo e conseguido filmar no século XVIII. Barry Lyndon é um dos filmes de época mais mágicos do cinema, e sem igual na sua capacidade de fazer o espectador mergulhar na realidade descrita na história. Mas, no fim das contas, o público não se mostrou tão interessado nesse mergulho. A bilheteria foi considerada fraca pelo estúdio e as críticas, mornas. Porém, o tempo passa, e curiosamente hoje Barry Lyndon desfruta do status de clássico e obra-prima do cinema.

A Academia, no entanto, reconheceu o trabalho de Kubrick, indicando Barry Lyndon nas categorias nobres de Melhor Filme, Diretor e Roteiro Adaptado. O filme venceu os prêmios de Direção de Arte, Fotografia, Figurinos e Trilha Sonora adaptada.

A loucura universal: Um Estranho no Ninho

A história do rebelde McMurphy (um sensacional Jack Nicholson), que se finge de louco, vai parar num hospital psiquiátrico e causa mudanças na vida dos outros pacientes, é a essência do clássico Um Estranho no Ninho. Baseado no livro de Ken Kesey, escrito na época dos movimentos pelos direitos civis, o filme de Milos Forman aborda menos o tema da loucura e dos tratamentos psiquiátricos, e se concentra mais no eterno dilema humano Liberdade vs. Repressão.

Forman, que emigrou da Checoslováquia para os Estados Unidos, entendia do tema da falta de liberdade. A rebeldia de McMurphy conquista o espectador, que torce por ele contra a geladíssima Enfermeira Ratched (um ótimo desempenho de Louise Fletcher). É esse anseio do ser humano, o de ser livre de alguma forma, o principal assunto do filme na visão de Forman, e é ele que torna a obra universal e atemporal. Talvez tenham sido essas qualidades que o colocaram como superior aos demais na visão da Academia.

Um Estranho no Ninho é um dos três filmes a ter vencido os cinco principais Oscars: Melhor Filme, Diretor (Forman), Ator (Nicholson), Atriz (Fletcher) e Roteiro – no caso, Adaptado. Apenas dois outros conseguiram esse feito: a comédia Aconteceu Naquela Noite (1934) e o suspense O Silêncio dos Inocentes (1991). Um Estranho no Ninho foi também indicado nas categorias de Montagem, Fotografia, Trilha Sonora e Ator Coadjuvante para Brad Dourif.

Cinco obras-primas

Responda aí: quando foi a ultima vez, na cerimônia do Oscar, na qual se pôde dizer que todos os concorrentes ao prêmio principal eram igualmente maravilhosos e mereciam ganhar? No caso de 1975, é até compreensível que diferentes pessoas tenham seus favoritos – eu tenho os meus, um empate técnico entre o suspense poderoso e a arte presente em Tubarão e a beleza assombrosa da obra-prima Barry Lyndon. Mas ninguém pode dizer que houve injustiça na premiação. Então, vamos aproveitar essa data comemorativa e ver (ou rever) estes cinco filmes capazes, ainda hoje, de resistir ao tempo, e relembrar uma ocasião especial na qual a cerimônia da premiação e tudo que a cerca ficaram pequenas em relação às obras de arte que o prêmio foi criado para celebrar.

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