Mais um dia, mais uma volta ao redor do Sol… E mais um filmeco para se assistir na Netflix. É curioso notar como este A Força da Natureza veio a existir, pois ele explica muito sobre como o cinema funciona hoje, do ponto de vista econômico e industrial. Existe todo um mercado de produções de gênero que hoje em dia vão direto para o streaming, com uma trama daquelas milimetricamente calculada para agradar ao maior número possível de espectadores, e que conta com um ou mais astros das antigas como chamariz para o público e também como viabilizador da produção.

Esse A Força da Natureza se encaixa perfeitamente nesses quesitos: um típico chiclete mental de hoje em dia, feito para ser consumido e esquecido poucos minutos depois, mas, viável economicamente e capaz de manter as engrenagens da indústria do cinema girando.

Esse, em especial, foi filmado em Porto Rico, e um filme é sempre bom para movimentar a economia de um local. Só o espectador, mesmo, que não é recompensado de maneira alguma por ver isso aqui.

Na trama, Emile Hirsch vive um jovem policial que caiu em desgraça – causada pela sua própria estupidez na cena de abertura. Sério, ele é sério candidato ao título de pior herói dos últimos tempos num filme. Rebaixado e com uma nova parceira (Stephanie Cayo), ele recebe a missão de evacuar uns moradores teimosos de um prédio quando um furacão categoria 5 se aproxima de Porto Rico.

Dentre estes moradores, tem o policial veterano ranzinza (Mel Gibson), sua filha médica (Kate Bosworth), um velho com uma fortuna em obras de arte e um sujeito que cria um tigre (!). Acontece que tem uma quadrilha de bandidos, liderada pelo personagem de David Zayas (da série Dexter), que deseja roubar as obras de arte do coroa e invade o prédio durante o furacão, forçando os heróis a se unirem para enfrentá-los.

Na década passada, pareceu por um momento que Hirsch e Bosworth virariam astros de Hollywood. Não aconteceu… Agora aqui estão eles, estrelando um Duro de Matar no condomínio e molhados. Ela até que escapa com dignidade; ele mata pessoas por acidente e precisa ser salvo com frequência por outros personagens ou pelas circunstâncias. É realmente um John McClane dos pobres.

 DURO DE MATAR NO CONDOMÍNIO

Já Gibson é a melhor coisa do filme, fácil. Diga-se o que dizer dele, o ator sempre foi uma figura carismática em frente às câmeras e não precisa muito aqui para roubar o filme. O cachê dele provavelmente consumiu a maior parte do orçamento, fazendo com que o diretor Michael Polish encene cenas de ação canhestras nos corredores de um condomínio indistinto. Mesmo assim, é melhor ver essas cenas do que aquelas em que os personagens tentam ter conversas significativas sobre quem são – “A Força da Natureza” tem uns diálogos esquisitos, da expressão “transplante fecal” à triste história de como o cara do tigre veio a treinar seu bichinho de estimação. Em todo o caso, a grana investida em Gibson valeu a pena: o rosto dele aparece com destaque no pôster e no trailer, mesmo com ele aparecendo relativamente pouco.

Pelo menos, Gibson ainda se esforça e trabalha sério no filme, ao contrário do seu colega ícone de ação dos anos 1980 Bruce Willis, que hoje em dia embolsa cheques para aparecer por cinco minutos em filmes parecidos como esse…

De resto, a trama acaba sendo, além de batida, mal contada – só descobrimos o que de fato o herói fez para ser demovido lá pelo meio do filme, e o que os vilões querem de verdade quase no final! E há por todo o filme aquela sensação incômoda de que ninguém está ali por vontade própria, o projeto não passa de um cheque para todos os envolvidos.  Tudo é tão genérico e previsível que parece que a história de “A Força da Natureza” foi composta por algum algoritmo – e de uma certa forma, foi. Pena que não chega a ser do tipo “tão ruim que fica bom”.  E não demora muito, e logo virá outro filme parecido. Assim é a vida e assim funciona a indústria do cinema.

Ei, mas, ao menos, este aqui tem um tigre.

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