“Greta Garbo podia ter qualquer um, mas tudo que ela queria era ficar sozinha”, diz Pedro, personagem de Marco Nanini, que é fã da atriz sueca, em certo ponto do filme. Dentre suas falas emblemáticas, essa é a que mais exemplifica as contradições de seu personagem que, ao longo da trama, vive de forma completamente oposta ao que diz. Em “Greta”, o cineasta Armando Praça deixa para trás o estereótipo de homossexuais jovens, sarados, e nos apresenta um homem idoso, forte, melancólico, rodeado por relações frágeis e superficiais. O filme é um conto de esperança e realismo dos seres marginalizados. É uma belíssima obra de Praça que ataca o preconceito e fala de forma despudorada sobre a vida de homossexuais comuns.  

“Greta” nos apresenta a história do enfermeiro Pedro (fenomenal Nanini) aos 70 anos, que trabalha em um hospital público de Fortaleza. Em um dia de folga, ele precisa levar a amiga Daniela (Denise Weinberg) que está em estado terminal de câncer para ser internada. Por falta de leito no hospital, o enfermeiro decide ajudar o assassino Jean (Demick Lopes), que deu entrada ferido, após matar um desafeto com 40 facadas. No lugar de Jean, Pedro consegue internar Daniela na esperança de que a amiga siga com um tratamento. O enfermeiroleva Jean para casa e os dois vão desenvolver uma relação, enquanto o protagonista enfrenta o drama da morte iminente de Daniela.  

O filme de Praça é melodrama com personagens fortíssimos. Pedro é um homem que deseja amar e ser amado. O personagem de Nanini transborda em tela a dor da solidão, da perda e também da esperança. Na cena de abertura, o enfermeiro aparece entrando em uma ambulância retirando a maquiagem dos olhos e passando as mãos nos cabelos brancos, em uma mensagem clara do diretor que devemos esquecer Lineu, personagem que Nanini viveu por tantos anos na televisão em “A Grande Família”. Na trama, vamos lidar com o ser humano cru, com pouquíssima ética no trabalho, relações amorosas, violência, uso quase abusivo de álcool.

É impossível não ser empático com a história de Pedro e de como ele se envolve com pacientes do trabalho, homens em uma boate por pura solidão. A cena em que ele chora após um orgasmo é emblemática em expor o quão vazio é a vida daquele homem. Praça filma o sexo de maneira limpa, intimista, como artificio narrativo para apresentar o mundo em que Pedro vive. Poderia até dizer que com certo exagero, mas vejo a necessidade que Praça tinha em mostrar aquela história sem censura ou floreios.  

A interpretação de Marco Nanini é arrebatadora. O ator tem um bom roteiro em mãos, mas o que ele faz em “Greta” é belíssimo! Sua total entrega ao personagem, seus olhares vazios, arrependido, apaixonado. Sua dedicação à amiga Daniela e a dependência em cuidar das pessoas. Pedro consegue mostrar seu amor servindo, suturando e observando as relações sexuais e até amorais dentro do hospital em que trabalha. A construção de seu personagem é impecável, desde as cenas de nu frontal, até a sua despedida da amiga de longa data. Vemos um Marco Nanini completamente pouco visto pelo grande público: frágil, tímido, cansado, melancólico.

‘AMOR QUE A GENTE TEM PARA DAR’

A câmera em ponto fixo, poucos cortes e uma fotografia em tons de amarelo e roxo só reforçam a maneira intimista, humana em que os personagens são retratados. Desde os primeiros minutos o espectador sente que observa escondido a vida daquele enfermeiro, seja no hospital com visual gótico ou no pequeno e humilde apartamento de Pedro.

É somente no terceiro ato que o diretor se alonga demais, adicionando cenas com pouco sentido e que não contribuem para o desfecho, esse por sua vez inesperado, mas bonito. A impressão que fica é que Armando Praça sabe a joia que tem nas mãos e não quer finalizar. Um conflito final é mais estruturado e mal desenvolvido dentro da trama, mas não consegue apagar o brilho de sua mensagem.

“Greta” é um filme sobre os excluídos, os marginalizados. Tão significativo ver esse filme em uma sessão tarde da noite no Centro de Manaus. Difícil não deixar a sessão refletindo sobre quantos Pedro(s) e Daniela(s) temos ali, ou quantos Jeans existem no mundo. A verdade é que o diretor usa todo seu olhar humanizado e melancólico em seu primeiro longa-metragem, ao nos apresentar personagens tão complexos e genuínos. Se a sua pretensão era desenvolver uma trama tocante, poderosa, Praça consegue isso com maestria.

Não é possível assistir “Greta” e não se incomodar, e não ser tocado por aquela história. Ao final da sessão, saímos com o olhar triste de Pedro e da beleza que é a sua esperança em finalmente viver um amor. E como diz Daniela durante sua última canção: “O que se leva dessa vida coração é o amor que a gente tem para dar”.

Enfim, que bom que existem filmes como Greta no mundo.

‘Red Rocket’: a miséria humana dentro do falso american dream

Recomeçar. Um reinício, uma nova oportunidade, uma nova perspectiva, um recomeço. Estamos sempre nesse ciclo vicioso de dar um novo pontapé inicial. Todavia, há um certo cansaço nesta maratona de reiniciar a vida quando (nunca) ocorre de uma maneira planejada e o...

‘Top Gun: Maverick’: o maior espetáculo cinematográfico em um bom tempo

Precisamos de poucos segundos para constatar: a aura dourada de San Diego, banhada por um perpétuo poente, está de volta. “Top Gun: Maverick” se esforça para manter a mesma identidade estabelecida por Tony Scott no original de 1986 – tanto que a sequência de créditos...

‘Tantas Almas’: olhar sensível sobre questões amazônicas

Captar as sensibilidades que rondam a Amazônia e a vivência de seus moradores é um desafio que nem todos os cineastas estão dispostos a experimentar. A região, nesse sentido todo território sul-americano recoberto pelas suas florestas e rios, desperta curiosidade e o...

‘O Homem do Norte’: Eggers investe na ação aliada aos maneirismos

Considerando o que tem em comum entre os planos definidores de suas obras, podemos encontrar a frontalidade como um dos artifícios principais que Robert Eggers usa para extrair a performance de seus atores com êxito.  Ao mesmo passo que esses momentos tornam-se frames...

‘O Peso do Talento’: comédia não faz jus ao talento de Nicolas Cage

Escute esta premissa: Nicolas Cage, ator atribulado de meia-idade, teme que sua estrela esteja se apagando; o telefone já não toca mais, as propostas se tornaram escassas e o outrora astro procura uma última chance de voltar aos holofotes com tudo. Vida real, você...

‘O Soldado que não Existiu’: fake news para vencer a guerra

Em 1995, Colin Firth interpretou o senhor Darcy na série da BBC que adaptou “Orgulho e Preconceito”, de Jane Austen. Dez anos depois, Matthew Macfadyen eternizou o personagem no filme de Joe Wright, tornando-se o crush de muitas jovens e adolescentes. John Madden...

‘@ArthurRambo: Ódio nas Redes’: drama sintetiza a cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento permeia a internet às claras. Para o público com acesso  frequente, é impossível nunca ter ouvido falar sobre o termo. Vivemos o auge da exposição virtual e como opera a massificação para que os tais alvos percam - merecidamente - ou não -...

‘Águas Selvagens’: suspense sofrível em quase todos aspectos

Certos filmes envolvem o espectador com tramas bem desenvolvidas, deixando-nos mais e mais ansiosos a cada virada da história; outros, apresentam personagens tão cativantes e genuínos que é impossível que não nos afeiçoemos por eles. Mas existe também uma categoria...

‘Ambulância – Um Dia de Crime’: suco do cinema de ação dos anos 2000

Vou começar com uma analogia, se me permitem. Hoje em dia, o ritmo e consumo de coisas estão rápidas e frenéticas. Com o Tik Tok e plataformas similares, esse consumo está ainda mais dinâmico (e isso não é um elogio) e a demanda atende às exigências do mercado. A...

‘Eduardo e Mônica’: para deixar Renato Russo orgulhoso

Se há algo que é difícil de ser respeitado no mundo cinematográfico atual é a memória e o legado do artista. Por isso, ver o legado de Renato Russo e da Legião Urbana sendo absorvido pelo cinema com um grau de respeito e seriedade acaba por fazer a situação inusitada,...