Mare Sheehan não encara um bom momento em sua vida. Ela é uma policial na faixa dos 40 anos na cidadezinha de Easttown, no estado americano da Pensilvânia, um daqueles locais onde todo mundo conhece todo mundo. Há cerca de um ano uma jovem desapareceu por lá, e Mare e a polícia não descobriram nem rastro dela. Mare também cuida sozinha da filha adolescente e do neto após uma tragédia familiar. Ela passa seus dias resolvendo problemas e fumaçando pelo seu cigarro elétrico, sem paciência para muita coisa. Mas, quando aparece o cadáver de outra moça da cidade, tem início uma investigação que vai sacudir a vida dela.

“Mare of Easttown” é mais uma interessante experiência narrativa na tradição da HBO, no sentido de que usa um formato conhecido de história ou de produção televisiva – no caso, o procedural, aquela seriado de TV policial focado na investigação de um caso e nos procedimentos policiais, estilo Law & Order – para criar uma produção que transcende esse formato, mais pessoal e interessante do ponto de vista dramático. No caso, a alquimia do criador e roteirista Brad Inglesby e do diretor Craig Zobel é regida pela noção de que “o espectador vem pelo mistério, mas continua assistindo pela personagem e seu universo”. E quando a personagem é vivida por Kate Winslet, aí já se pode dizer que se tem o principal ingrediente para a alquimia funcionar.

NA LINHA DE ‘SOPRANOS’ E ‘TRUE DETECTIVE’

Winslet tem na Mare uma das suas mais inspiradas criações: em boa parte da minissérie, por insistência da própria atriz, a personagem é mostrada do modo mais realista e desglamourizado possível, o que adiciona muito ao tom da produção. Tanto que o primeiro episódio dos sete é inteiro para conhecermos Mare e seu universo: a rotina na polícia, as pressões do trabalho, seu convívio familiar com a mãe e a filha (vividas por Jean Smart e Angourie Rice, respectivamente), e até o flerte inesperado com um escritor (interpretado por Guy Pearce). Só ao final dele que é introduzido o elemento do mistério.

Por isso, é até um pouco reducionista chamar Mare of Easttown de procedural: com um enfoque tão grande assim em uma personagem, no seu cotidiano e nos seus dramas, ela acaba se irmanando mais de outras produções da HBO que transcendem gêneros, como Família Soprano ou mesmo True Detective.

O que não significa que o mistério e o suspense sejam negligenciados na série: “Mare of Easttown” trabalha sim – e muito bem – seus elementos investigativos e de thriller com momentos poderosos de curiosidade e até tensão. O quinto episódio com a parceria de Mare e do jovem policial Colin (interpretado com brilho por Evan Peters), o qual, aliás, tem mais do que um pequeno interesse nela, oferece um suspense forte. A minissérie como um todo possui uma visão bem feminina, abordando temas como violência contra a mulher, solidão, abuso e sororidade – claro, boa parte desse enfoque se deve à estrela da série, trabalhando junto com o roteirista. E a resolução final da temporada é poderosa e dramaticamente rica, e não decepciona.

SLICE OF LIFE

Seja no drama ou no suspense, a série transmite uma autenticidade que rege todos os seus momentos. A ambientação é precisa: o clima frio, a melancolia das vidinhas na cidade até o sotaque diferente usado por Winslet transmite a sensação de imersão, de realidade, sem a qual Mare of Easttown acabaria não funcionando. Os atores desaparecem nos seus papéis e tudo parece um slice of life, um recorte da vida captado pelas câmeras com veracidade e delicadeza.

E temos consciência de que a vida continua. Mare of Easttown não oferece grandes conclusões para os dilemas da vida que qualquer mulher pode enfrentar, mas, em seus delicados momentos encontra pequenas fontes de esperança e de continuação. Funciona como drama, funciona como suspense e, como um todo, é uma excepcional obra televisiva, ancorada por umas das melhores atrizes do momento e que conhece a personagem a fundo. Ao final dos sete episódios, a conhecemos a fundo também. Ela deixa de ser apenas uma personagem de TV e se torna praticamente uma amiga. Uma daquelas amigas turronas, meio difíceis, mas que gostamos de visitar de vez em quando só para saber se ela está bem.

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