Atenção: Esse texto contém spoilers 

Como fã de quadrinhos sempre procurei adaptações com classificação indicativa para maiores de 18 por gostar dos temas densos e cenas de luta mais trabalhadas e até mesmo violentas. Por isso, ‘Titãs’ logo se mostrou como uma ótima pedida considerando seu apuro técnico pelas sequências de ação. Entretanto, mesmo sendo dirigida ao público adulto, o seriado continua a apostar em tramas extremamente bobas, deixando seus personagens com o desenvolvimento superficial já visto na primeira temporada. 

Mostrando uma grande falta de coesão narrativa, a segunda temporada da produção começa com o arco estabelecido anteriormente sendo finalizado. Ou seja, o pai de Rachel (Teagan Croft) finalmente é derrotado de forma surpreendentemente fácil. Após a vitória, Dick Grayson (Brenton Thwaines) leva os membros mais novos dos Titãs para a antiga torre de treinamento do grupo, o que é suficiente para antigos inimigos e lembranças desagradáveis surgirem na vida dos super-heróis. 

A escolha por Deathstroke (Esai Morales) ser o grande vilão da temporada é uma boa pedida, principalmente, considerando todo seu histórico com o grupo. Entretanto, sua motivação dependente dos Titãs chega a ser quase infantil, tornando-se mais um exemplo de ótimo desempenho em cenas de ação com um péssimo desenvolvimento individual. 

Heróis em excesso 

Se do lado antagonista a construção de personagem não é satisfatória, os Titãs enfrentam uma grande dificuldade em mostrar coesão como grupo. De um lado temos os novos e inexperientes mutantes Rachel, Garfield (Ryan Potter), Jason (Curran Walters), Conner (Joshua Orpin) e Rose (Chelsea Zhang) e, em contrapartida, Hank (Alan Ritchson), Dawn (Minka Kelly) e Donna (Conor Leslie) são a lembrança viva de Dick sobre seus erros no passado. O equilíbrio entre os dois grupos não é algo fácil de ser visto em cena, passando a temporada sem ao menos uma sequência de luta juntos. 

Aqui, a impressão passada por “Titãs” é que na tentativa de agradar seu público, a série mostra os mais diversos heróis com suas respectivas histórias na esperança de que alguma chame atenção do público. Reforçando isto, Aqualad (Drew Van Acker) é apresentado e morto em apenas um episódio, tornando-se tão desinteressante quanto a trama paralela de Kory (Anna Diop), a qual reencontra e mata seu ex-namorado, descobre a morte dos pais, perde os poderes; tudo isso sem interferir na história do grupo principal. 

Falando em personagens mal aproveitados, é preciso mencionar a presença do Batman na história. Apesar de um bom desempenho de Iain Glen no papel, sua principal aparição é como a voz da consciência de Dick, sendo novamente seu mentor de alguma forma. Além disso, o icônico personagem somente é usado como desculpa para outros furos do roteiro. 

Para finalizar o compilado de personagens ruins, Conner e Krypto são extremamente negligenciados pela narrativa e, apesar de serem os mais poderosos do grupo, suas cenas de ação são as piores apresentadas e com efeitos especiais que fazem qualquer público achar graça. Além de tudo isso, os roteiristas ainda possuem a grande coragem de matar Donna da forma mais boba possível e sem nenhuma carga dramática. 

Resquícios de salvação? 

Além dos desenvolvimentos superficiais, a atuação de grande parte do elenco não consegue corresponder aos dramas enfrentados. Temas como o vício de drogas de Hank e a superação dos traumas de Dick não ganham performances generosas de seus intérpretes. Neste quesito, a melhor cena dramática da temporada é protagonizada por Curran Walters, o qual apesar de ser um personagem nada carismático, conseguiu aproveitar seus poucos momentos de tela. 

Como foi dito em diversos momentos deste texto, as cenas de ação continuam sendo o grande chamariz da série. Em cada momento, a produção consegue realizar um ótimo trabalho na montagem e ritmo das cenas assim como nas diferentes ambientações que tornam cada luta única. 

Apesar de possuir uma proposta consistente, ‘Titãs’ torna-se cada vez mais uma série com dificuldades para fidelizar seu público e o principal inimigo neste quesito é justamente a falta de tramas mais maduras. Assim, a produção possui muita violência para os menores de 18 anos e pouca densidade para o público adulto, correndo o risco de ficar sem público algum. 

Crítica | ‘Bridgerton’ 3ª Temporada – Parte 1: a crença de que podemos viver uma história de amor

Querido e gentil leitor,  Ouvi essa semana que é difícil para um crítico escrever sobre o que ele ama. Meu teste de fogo será trazer para vocês a análise da primeira parte da terceira temporada de “Bridgerton”. Estamos na era Polin, ship de Penelope e Colin, e esta...

‘Bebê Rena’: a desconcertante série da Netflix merece todo sucesso inesperado

E eis que, do nada, a minissérie britânica Bebê Rena se tornou um daqueles fenômenos instantâneos que, de vez em quando, surgem na Netflix: no momento em que esta crítica é publicada, ela é a série mais assistida do serviço de streaming no Brasil e em diversos países,...

‘Ripley’: série faz adaptação mais fiel ao best-seller

Vez por outra, o cinema – ou agora, o streaming – retoma um fascínio pela maior criação da escritora norte-americana Patricia Highsmith (1921-1995), o psicopata sedutor Tom Ripley. A “Riplíada”, a série de cinco livros que a autora escreveu com o personagem, já...

‘O Problema dos 3 Corpos’: Netflix prova estar longe do nível HBO em série apressada

Independente de como você se sinta a respeito do final de Game of Thrones, uma coisa podemos dizer: a dupla de produtores/roteiristas David Benioff e D. B. Weiss merece respeito por ter conseguido transformar um trabalho claramente de amor - a adaptação da série...

‘True Detective: Terra Noturna’: a necessária reinvenção da série

Uma maldição paira sobre True Detective, a antologia de suspense policial da HBO: trata-se da praga da primeira temporada, aquela estrelada por Matthew McConaughey e Woody Harrelson, e criada pelo roteirista/produtor Nic Pizzolato. Os grandiosos oito episódios...

‘Avatar: O Último Mestre do Ar’: Netflix agrada apenas crianças

Enquanto assistia aos oito episódios da nova série de fantasia e aventura da Netflix, Avatar: O Último Mestre do Ar, me veio à mente algumas vezes a fala do personagem de Tim Robbins na comédia Na Roda da Fortuna (1994), dos irmãos Coen – aliás, um dos filmes menos...

‘Cangaço Novo’: Shakespeare e western se encontram no sertão

Particularmente, adoro o termo nordestern, que designa o gênero de filmes do cinema brasileiro ambientados no sertão nordestino, que fazem uso de características e tropos do western, o bom e velho faroeste norte-americano. De O Cangaceiro (1953) de Lima Barreto,...

‘Novela’: sátira joga bem e diverte com uma paixão nacional

Ah, as novelas! Se tem uma paixão incontestável no Brasil é as telenovelas que seguem firmes e fortes há 60 anos. Verdade seja dita, as tramas açucaradas, densas, tensas e polêmicas nos acompanham ao longo da vida. Toda e em qualquer passagem de nossa breve...

‘Gêmeas – Mórbida Semelhança’: muitos temas, pouco desenvolvimento

Para assistir “Gêmeas – Mórbida Semelhança” optei por compreender primeiro o terreno que estava adentrando. A série da Prime Vídeo lançada em abril é um remake do excelente “Gêmeos – Mórbida Semelhança” do genial David Cronenberg, como já dito aqui. O mundo mudou...

‘A Superfantástica História do Balão’: as dores e delícias da nostalgia

Não sou da época do Balão Mágico. Mesmo assim, toda a magia e pureza desse quarteto mais que fantástico permeou a infância da pessoa que vos escreve, nascida no final daquela década de 1980 marcada pelos seus excessos, cores vibrantes, uma alegria sem igual e muita...