Criado por Bram Stoker, Drácula já ganhou diversas versões com o passar do século, seja no cinema, animações, gibis, games e séries de televisão. Nesta versão em formato de minissérie, feita pela BBC com a Netflix, temos uma nova adaptação, uma (não tão) nova abordagem em uma versão que nos faz perguntar: por que diabos deixaram produzir isso?

A dupla Steven Moffat e Mark Gatiss, de “Sherlock”, implementa o mesmo modelo narrativo da série do detetive britânico em “Drácula”. São três episódios com cerca de uma 1h30 de duração em que acompanhamos o desenrolar da clássica trama até desandar em uma horrenda conclusão.

Uma nova visão a respeito de uma obra ou um personagem é sempre bem-vinda, principalmente quando os novos elementos e perspectivas são bem explorados, o que aqui não é o caso. As decisões tomadas a respeito de alguns dos personagens principais do livro clássico e seus destinos logo no primeiro episódio só não são um completo desastre, pois a caracterização e design de produção ajudam bastante. A paleta de cores sombria é correta, criando muito bem uma atmosfera claustrofóbica e opressora, no interior do Castelo do Conde.

A partir do segundo episódio conseguimos ter uma dimensão de como a série vai se sabotando. Os clichês e piadas se repetem a todo momento – entendemos o Drácula não beber vinho – além de um excessivo número de viradas na trama. Temos de personagem assumindo a identidade de uma pessoa e depois se arrependendo (não é preciso explicar a razão) a pessoas escapando da morte de maneira milagrosa. Apesar de ser uma personagem espirituosa, a irmã Agatha (Dolly Wells) precisa ter seus conflitos internos apresentados e resolvidos na mesma cena?! Fora soluções bizarras que desafiam qualquer lógica.

VERDADEIRA PERDA DE TEMPO

A ideia de apresentar o Drácula para o contexto atual não é nova, porém, aqui tem um potencial altamente desperdiçado. A inclusão da era digital na trama supostamente poderia render algo mais ambicioso, mas o roteiro resolve se entregar a um humor bizarro. Drácula lidando com celular, tablet, televisão e advogados para escapar de cárcere privado – ok, confesso que ri nessa, apesar dos absurdos.

Alçado ao sucesso mundial por “The Square”, Claes Bang até empresta dignidade ao personagem, fazendo o que pode para salvar a minissérie. O seu Drácula começa assustador e, aos poucos, vai se tornando canastrão. E o ato final é pavoroso, anticlimático, não sendo totalmente esquecível apenas por conta da frustração que ele causa.

Drácula passa a série toda dizendo que toma vidas; pensei que estava se referindo apenas às suas vítimas onde ele consume o sangue, mas, no fim, percebi que tinha me tornado mais uma delas. Um tempo que não recupero.  É sempre importante lembrar que Drácula é um Conde e, pelo título, merecia mais respeito.

‘Os Irregulares de Baker Street’: Sherlock mal tratado em série péssima da Netflix

Sim, lá vamos nós para mais uma adaptação das obras de Arthur Conan Doyle. A Netflix, por exemplo, mantém uma linha de produção na qual não aborda exatamente a figura de Sherlock Holmes, mas sim, personagens ligados a ele. Após o sucesso de ‘Enola Holmes’ é a vez dos...

‘Small Axe: Educação’: ensino como instrumento de luta racial

Chegamos ao último episódio de “Small Axe”, série antológica dirigida por Steve McQueen (“12 Anos de Escravidão”). Intitulado “Educação”, o capítulo final narra um conto infantil carregado de incompreensões, racismo e a luta por uma educação inclusiva. O diretor, que...

‘Small Axe: ‘Alex Wheatle’: quando se encontra o senso de pertencimento

Duas coisas se destacam em “Alex Wheatle”, quarto episódio da série antológica “Small Axe”: a construção visual e o protagonista. Ao longo das semanas, tenho destacado o trabalho do diretor de fotografia Shabier Kirchner. Seja por sua câmera sensível em “Os Nove do...

‘Small Axe: Vermelho, Branco e Azul’: Boyega contra o racismo policial inglês

Em “Small Axe”, chegamos à semana do episódio que rendeu a John Boyega o Globo de Ouro de Melhor Ator em Minissérie ou Telefilme. Intitulado “Vermelho, Branco e Azul”, justamente as cores presentes na bandeira do Reino Unido, acompanhamos a saga de Leroy Logan...

‘Por Trás dos Seus Olhos’: imperdível thriller psicológico eletrizante

O quão longe você iria para ter o amor de alguém? Existem escrúpulos na busca pela vida perfeita com quem se ama? Esses são alguns questionamentos levantados pela minissérie da Netflix ‘Por trás de seus olhos’. Baseada no romance homônimo de Sarah Pinborough, a...

‘Os Últimos Dias de Gilda’: alegoria das sementes do ódio brasileiro

Se Jean-Paul Sartre já dizia que o inferno são os outros, imagina o que ele diria se ele fosse mulher e vivesse no subúrbio do Rio de Janeiro. "Os Últimos Dias de Gilda", nova minissérie da Globoplay exibida no Festival de Berlim deste ano, dá pungentes contornos a um...

‘Small Axe: Lovers Rock’: experiência sensorial em trama irregular

Tomando como referência o episódio anterior, considero essa segunda história de “Small Axe” um ponto fora da curva. A direção permanece impecável e, mais uma vez, a ambientação é o grande destaque da narrativa. No entanto, “Lovers Rock” carece de uma história mais...

‘Wandavision’: série Marvel divertidamente esquisita

AVISO: Spoilers leves no texto a seguir. -- Em 2020, por causa da pandemia, não tivemos nenhum novo lançamento do Marvel Studios. Nenhumzinho. Fãs em todo o mundo, em busca de fantasia e de um pouco de escapismo para ajudar a encarar um mundo assolado por problemas e...

‘Small Axe: Os Nove do Mangrove’: espaço de resistência e luta

“Small Axe” chegou no Globo Play sem fazer muito barulho. Coleção de cinco longas-metragens, a série em formato de antologia dirigida por Steve McQueen (“12 Anos de Escravidão”) é considerada uma das melhores produções lançadas nesse período pandêmico. Ao longo dos...

‘Lupin’: Omar Sy supera narrativa previsível em série mediana

Apresentando Arséne Lupin para o restante do mundo, a nova produção francesa da Netflix, ‘Lupin’ é baseada nos romances policiais de Maurice Leblanc contando com a responsabilidade de atualizar suas histórias para os dias atuais. Apesar de possuir uma narrativa pouco...