Ricardo Calil ficou conhecido como documentarista de grandes filmes sobre a música e a cultura brasileira. São dele produções como “Uma Noite em 67” sobre o célebre Festival da Record com estrelas como Roberto Carlos, Chico Buarque, Os Mutantes e Gilberto Gil; “Eu Sou Carlos Imperial” sobre uma das figuras mais polêmicas do pop nacional, e o recente “Narciso em Férias” em que Caetano Veloso conta sobre sua prisão durante a ditadura militar. 

Em 2021, o diretor muda o foco das grandes estrelas da cultura brasileira para mirar em pessoas quase sempre invisibilizadas. Em “Cine Marrocos”, Calil apresenta as histórias e realidades dos sem-tetos de uma ocupação em um dos mais luxuosos dos antigos cinemas de rua de São Paulo. A arte, entretanto, está presente na recriação feita por estes moradores de clássicos do cinema. 

Gentilmente, Calil conversou com o Cine Set sobre o longa já em cartaz nos cinemas, sobre o documentário brasileiro no momento turbulento em que o país vive e o destino dos cinemas de ruas. 

Cine Set – Meu primeiro questionamento após assistir ao filme é o porquê você optou por levar professores de teatro para dentro da ocupação do Cine Marrocos e pedir para aquelas pessoas que moravam lá reencenarem clássicos da era de ouro de Hollywood? Como foi o processo até chegar na ideia dessa abordagem? E qual a sua favorita? 

Ricardo Calil – O projeto do “Cine Marrocos” nasceu quando eu li a notícia de que existia essa ocupação de sem-tetos dentro desse cinema histórico de São Paulo. Nele, aconteceu o primeiro festival internacional de cinema do Brasil, em 1954, em que foram exibidos grandes clássicos do cinema. Depois, o Marrocos acabou tendo uma gradual decadência até fechar em 1993 e ser ocupado por esse movimento em 2013. 

Depois que vi a notícia, fui lá visitar e encontrei pessoas muito interessantes. A ocupação era no saguão do cinema; a sala em si estava fechada. Daí, veio a ideia de reabri-la; eu amo cinema e não gosto de ver um fechado. A proposta era abrir o cinema com a ideia de reexibir os filmes do festival de 1954, ou seja, pegar o momento de maior luxo da história do Marrocos e levá-lo até os moradores para que pudessem ter acesso àqueles lindos e clássicos filmes.  

Intuitivamente veio a ideia de fazer oficina de teatro para reencenar sequências desses clássicos. Eu acho que a ideia era promover o encontro desses universos diferentes: luxo, precariedade, passado, presente, ficção e realidade. Também pretendíamos pegar essas pessoas que são muitas vezes vistas como criminosos ou são invisibilizadas e mostrar que elas são pessoas de enorme talento, que podem ser as estrelas desse filme, merecedoras de uma vitrine tão bonita quanto a tela grande do cinema. 

Tenho um carinho especial em relação à nossa versão da cena final de “Crepúsculo dos Deuses”, meu filme favorito e que, curiosamente, fazia parte da programação do festival de 1954. A moradora da ocupação, Volusia Gama, recriou o momento imortalizado pela Gloria Swanson e se revelou uma ótima atriz. 

Cine Set – Um dos momentos mais surpreendentes do filme foi descobrir a grande quantidade de imigrantes africanos na ocupação. Quando vocês chegaram lá, vocês também se surpreenderam com a questão forte de imigração dentro do Cine Marrocos? Como foi entrevistar esses personagens? 

Ricardo Calil –A notícia sobre a ocupação informava que, entre os dois mil moradores, tinha uma quantidade grande de refugiados africanos e de imigrantes latino-americanos, além de uma comunidade LGBTQI+ bastante significativa. Tinha apenas as informações básicas quando cheguei, mas só fui me aprofundar mesmo nas histórias de vida quando convidamos as pessoas para participarem da oficina.  

No geral, eram histórias muito ricas e essas dos refugiados africanos traziam contextos tristes e violentos. Teve um caso de um jornalista do Congo, o Panda, que o pai era ministro da Defesa e foi assassinado pelo ditador, o próprio chefe dele. Para não ser torturado e morto, ele precisou fugir para o Brasil. Já o Joseph veio do Camarões e teve o pai assassinado pelo grupo terrorista Boko Haram.  

Chegar ao Brasil para eles é tentar a segunda chance de uma vida nova e melhor. 

Cine Set – Existe uma relação histórica bastante delicada da grande imprensa brasileira sobre como noticiar as ocupações dos movimentos de sem-tetos. Em um dos momentos-chave do “Cine Marrocos”, nós temos uma retórica de que esses movimentos são associados à criminalidade. O filme busca apresentar os personagens daquela ocupação de forma humanizada e sem julgamentos, mas houve em algum momento uma percepção de que aquele espaço seria um local criminoso ou violento? E o que você acha do discurso que criminaliza os movimentos sem-tetos? 

Ricardo Calil –Eu acho totalmente errado a abordagem midiática em relação aos sem-tetos e sou absolutamente a favor do movimento de moradia. Trata-se de uma luta nobre, justa que tenta corrigir um absurdo básico da realidade brasileira: gente sem casa e casa sem gente. Não faz nenhum sentido isso. É absurdo um prédio sem nenhuma função social fechado para especulação mobiliária, enquanto tem gente morando na rua. 

Os moradores que conhecemos no cinema eram pessoas absolutamente batalhadoras, honestas e talentosas, como o filme mostrou. Mas, teve uma coisa específica nessa ocupação, totalmente uma exceção à regra, que eram as lideranças do movimento os quais foram acusados de pertencer a criminalidade e, neste caso específico, as acusações faziam sentido. 

A esmagadora maioria dos demais moradores, entretanto, não tinha envolvimento com esse caso. A gente conheceu a fundo os moradores, que são pessoas muito especiais, brilhantes e tenho orgulho deles serem as estrelas do nosso filme. 

Cine Set – Diante do atual contexto de governo Bolsonaro e com a paralisação dos financiamentos de projetos audiovisuais da ANCINE, como você enxerga o papel do cinema documentário neste momento do país e como mantê-lo nesta conjuntura? 

Ricardo Calil – É um momento dificílimo. Vivemos uma tempestade perfeita: o governo Bolsonaro + pandemia + a paralisação da Ancine. O documentário é mais frágil do que a ficção: embora seja mais barato, ele encontra muitas dificuldades para ter seu espaço nos cinemas.  

Acho uma possibilidade interessante direcionar parte da produção para o streaming, mas, por serem formadas por um conjunto de empresas, haverá projetos que interessarão a elas, enquanto outros, tão importantes quanto, não vão despertar o mesmo interesse e terão que ter apoio, suporte público, através de leis de incentivo, para serem realizados. 

Neste momento, temos um governo que não entende minimamente a importância da cultura, em particular, do cinema, e, por isso, joga contra. A minha torcida é que a pandemia passe logo e voltemos a ter em breve um governo capaz de valorizar a arte. Essa é a única maneira de boa parte do nosso cinema sobreviver. 

Cine Set – O Cine Marrocos enfrentou a crise dos cinemas de rua pelo Brasil, muitos deles fechados ao longo de décadas, e o filme é lançado em um momento de dúvida sobre o futuro das salas seja pela pandemia, seja pelas plataformas de streaming. Acredita em um futuro para os cinemas de rua semelhante ao Cine Marrocos?  

Ricardo Calil –Se já era difícil sem esse governo, ficou tudo ainda mais complicado com ele. Eu amo cinema e, especialmente, os cinemas de rua. Por quê? Para mim, eles são um símbolo de uma vida urbana civilizada, agradável. A ideia de que você está ali no centro da cidade, andando, trabalhando e, de repente, pode entrar em uma sala de cinema e escapar para o mundo da fantasia e da ficção me comove. 

Os cinemas de rua, infelizmente, já estavam enfrentando um processo muito severo de decadência. O Marrocos, por exemplo, foi inaugurado como a mais luxuosa do Brasil em 1951 e, a partir dos anos 1970, começa a exibir filmes pornográficos e fecha na década de 1990. É uma trajetória muito comum deste tipo de empreendimento. 

O objetivo do “Cine Marrocos” também é propor uma pequena utopia de que, em dado momento, a gente pode transformar aquele espaço em casa e cinema. Enquanto houve a filmagem, ele havia sido cinema, virou casa e, durante a filmagem, foi casa e cinema. Porém, desde 2016, quando houve a reintegração de posse, o poder público de São Paulo decidiu que o local não deve ser nada – nem casa, nem cinema, nada. 

Hoje, o prédio está fechado. Eu acho que isso também é um símbolo dos nossos desencontros e desenganos, dos descaminhos no trato com esses espaços de cultura e com as pessoas que não tem casa.

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