Com uma entrevista exclusiva de Robério Braga, Caio Pimenta aborda como surgiu o Amazonas Film Festival no ano de 2004.

Projeto foi contemplado com o Prêmio Manaus Conexões Culturais 2020 – Lei Aldir Blanc – AUDIOVISUAL.

A CHEGADA DO CINEMA E ERA SILVINO SANTOS

Silvino Santos filmando o salto de Teotonio no Rio Madeira para o filme “No Paiz das Amazonas”, em 1921, a mando de J.G. Araújo.

No final do século XIX, Manaus vivia o auge da era da borracha, chegando até a ser considerada a Paris dos trópicos. Exageros à parte, a verdade é que a primeira sessão na cidade aconteceu em abril de 1897, pouco menos de 1,5 ano da primeira e clássica sessão dos irmãos Lumiére, lá na França. 

O primeiro grande momento do cinema aqui do Amazonas aconteceu com Silvino Santos. O português da pequena vila chamada Cernache do Bonjardim chegou a Manaus no início do século XX e se tornou o pioneiro do audiovisual na Amazônia.  

Com o financiamento do comendador J.G Araújo, Silvino realizou o clássico “No Paiz das Amazonas”, em 1922, para a comemoração do centenário da Independência. 

Porém, acompanhando a decadência econômica após o fim do auge do ciclo da borracha, Silvino e o cinema do Amazonas caíram no ostracismo, marcando uma característica da nossa produção: a descontinuidade. 

A GERAÇÃO CINECLUBISTA DOS ANOS 1960

Joaquim Marinho foi um dos líderes do movimento cineclubista dos anos 1960 em Manaus.

Impulsionado pela Nouvelle Vague, Cinema Novo, as transformações sócio-culturais e a criação de Zona Franca de Manaus, o cinema volta a ganhar vida nos anos 1960.  

A geração de Joaquim Marinho, Márcio Souza, Cosme Alves Netto cria o Grupo de Estudos Cinematográficos, um dos cineclubes mais importantes do Brasil na época, fomentando a cinefilia e estimulando a produção em Manaus. 

Nos anos 1960, a gente teve dois marcantes festivais de cinema em Manaus: em 1966, o I Festival de Cinema Amador do Amazonas, e, três anos depois, o maior de todos, o Festival Norte de Cinema Brasileiro. Foi nele que a geração cineclubista de 1960 prestou uma homenagem e fez o resgate histórico a Silvino Santos. O pioneiro do cinema do Amazônia morreu três meses depois. 

Infelizmente, mais uma vez, o cinema do Amazonas sofreu com a descontinuidade e, entre as décadas de 70 e 90, a produção local registra poucos avanços.  

Essa situação muda a partir no início do século XXI quando, na esteira da Retomada do cinema brasileiro e da acessibilidade proveniente dos meios digitais de produção, abre novas possiblidades. Nisso, temos, em 2001, a criação da Amazonas Film Comission e também do Núcleo do Polo Digital. E três anos depois, em 2004, a primeira edição do Amazonas Film Festival. 

ENTREVISTA: ROBÉRIO BRAGA

 

Cine Set – Como surgiram as primeiras ideias para que o Amazonas Film Festival começasse a acontecer em 2004?

Robério Braga – Quando a Secretaria de Cultura foi instalada, em 1997, formulamos uma proposta de trabalho que culminou em inúmeras atividades e ações, entre elas, um programa de realização de festivais. A partir da experiência do Festival Amazonas de Ópera, estabelecemos marcos temporais para fazermos festivais das várias manifestações artísticas.

Precisávamos dar uma resposta à história do Amazonas com o cinema, afinal, o Estado teve clubes e instituições que debateram e discutiram cinema, críticos publicando análises nos jornais da cidade diariamente ou aos fins de semana, além de diversos cinéfilos e cineastas. Tivemos a oportunidade de ‘agasalhar’ por aqui o Silvino Santos com uma produção muito significativa no século passado. Também era necessário recuperar o Teatro Amazonas como um espaço de cinema, afinal, em 1897, tivemos cinema nele. A criação do Amazonas Film Festival ainda está inserida como parte de uma reabilitação do Centro Histórico e reanimação dos setores criativos do Estado por saber que havia uma juventude promissora e capaz de trabalhar neste segmento de forma embrionária.

Dentro deste cenário, começamos a desenhar o festival de cinema. Fizemos toda identificação de orçamento, levantamento de recursos, convencimento político, pois, não seria possível realizar nada sem que o governador estivesse empenhado. Porém, antes que pudéssemos implentá-lo, recebemos a visita de um produtor amazonense e um dos dirigentes do órgão municipal de cultura e turismo, o Ivano Cordeiro, acompanhado de um belga, o Jean-Pierre Dutilleux. Os dois demonstraram que tinham interesse em um evento, um festival de cinema. O Jean-Pierre tinha experiência no setor e contatos na Europa. Na época, a Secretaria já vinha desenvolvendo esta ideia há, pelo menos, 2,5 anos e resolvemos integrar as duas propostas. Deste contato, surgiu a Le Public Système (grupo francês de comunicação e produção audiovisual) com o Lionel Chouchan em sua vasta experiência de festivais internacionais, incluindo, Cannes. Ele veio a Manaus e, a partir daí, evoluimos para um evento de porte internacional.

Promovemos uma reunião do Chouchan e do Jean-Pierre com o então governador Eduardo Braga, o qual resolveu bancar a ideia que poderia parecer um pouco maluca, extravagante, mas, que hoje se mostra produtiva. Todas as vezes em que vejo produções de amazonenses sendo feitas e se desenvolvendo observo que o Amazonas Film Festival teve uma participação importante neste processo até porque o evento não foi exclusivamente de cinema em si restrito a apresentações de produções internacionais, nacionais e locais; houve também atividades pedagógicas com cursos, oficinas, workshops, palestras, além das bolsas de estudos para Escuela Internacional de Cine y Television, em Cuba e dos prêmios de roteiro do Banco Daycoval. O festival começou assim e durou 10 anos com uma programação de alta qualidade repleta de grandes artistas produtores e diretores, permitindo que a juventude e os cineastas amazonenses trocassem os seus cartões com grandes profissionais do mundo todo, abrindo portas para muita gente.

Cine Set – Quais foram os principais apoiadores nacionais e internacionais do Amazonas Film Festival? Como era a dinâmica desta relação?

Robério Braga – Da primeira equipe, o Ivano e o Jean-Pierre logo se afastaram e o Chouchan já veio, a partir do terceiro, quarto festival, sem essa equipe. Por outro lado, agregamos apoio do Bradesco, Banco Daycoval, Coca-Cola, Semp Toshiba e de organizações empresariais locais que prestavam serviços e forneciam redução de custos em suas operações para que pudéssemos contratá-las, afinal, tratava-se de um evento caro com pagamentos em euro, dólar como, por exemplo, as passagens aéreas. O valor de cada edição, por exemplo, dependia muito da oscilação destas moedas.

Mesmo assim, na época, era importante fazer estes investimentos. Era uma decisão de governo com uma lógica de política cultural em curso, abrangendo todas as áreas das manifestações artísticas, além de espaços como bibliotecas, museus, teatros e cinemas. 

Durante o Amazonas Film Festival, não tivemos baixas nos produtores nem nos patrocinadores. Havia sempre antecipadamente patrocinadores querendo assinar os contratos para o evento do ano seguinte.

Cine Set – O olhar exotizante sobre a Amazônia é uma constante histórica na forma como o cinema internacional sempre abordou a região. Ainda assim, o Amazonas Film Festival adotou um slogan do ‘Filme de Aventura’. Por que esse slogan foi adotado? Era uma questão comercial? Como isso foi se transformando com o tempo?

Robério Braga – O Amazonas Film Festival começou sem ter esta particularidade, sendo adotada a marca de ‘Filme de Aventura’ a partir da terceira edição. Era uma ação de marketing voltada para atrair grandes nomes internacionais. Se para nós, moradores da região, pegar uma trilha, ir ao rio ou ir a uma pescaria em uma região mais distante como o Alto Rio Negro já é uma aventura, imagina isso para um europeu que nunca se deparou com uma imensidão verde e de água como esta?

Era um apelo internacional mesmo como uma proposta de consolidação no mercado externo. Se o festival tivesse tido continuidade, essa marca seria firmada ainda mais, independente de utilizarmos ou não mais esta expressão. 

Cine Set – Além do cinema, o Amazonas Film Festival tinha um foco ambiental relativo à preservação da Floresta Amazônica, um discurso muito forte naquela época. Gostaria de saber como partiu esta decisão do evento também abranger a questão ambiental.

Robério Braga –  O governo Eduardo Braga tinha uma proposta ambientalista muito forte tanto que criou a Fundação Amazonas Sustentável, realizou um grande fórum internacional, inclusive, com o ex vice-presidente dos EUA, Al Gore, e Arnold Schwarzenegger. Sendo o festival uma política de Estado, fomos integrando ações de cultura com as iniciativas voltadas ao meio ambiente.  Desta forma, artistas fizeram plantios de árvores e envolvemos o INPA para tratar animais que haviam sido machucados por ações indevidas de terceiros.

Esta integração entre política econômica, ambiental e cultura existente no Estado fortalecia o festival atraindo patrocinadores, além de artistas e diretores nacionais e internacionais que compreendiam a mensagem verdadeira de proteção da floresta defendida pelo governo.  

Cine Set – O tamanho do Amazonas Film Festival impediu que ele continuasse? Ou foi a crise econômica que o Brasil começou a entrar naquele momento? Não era possível de um festival menor, mais focado no cinema latino? Como o senhor encara esta etapa final?

Robério Braga – Era possível e foi tentado, mas, a intenção da política de governo mudou estranhamente. Estranhamente.

Resistimos com o festival até onde foi possível. As últimas duas edições, por exemplo, foram desenhadas diversas vezes para que pudesse ser feito com a redução dos recursos públicos colocada para a Secretaria. Somente a participação da iniciativa privada não era suficiente para operacionalizar o evento de forma internacional. E o Amazonas Film Festival, que cresceu da forma como cresceu, precisava manter a qualidade.

O ideal era que continuasse com o alto nível de performance, tradição e organização do que ser feito de qualquer forma. Nossa diretriz era realizá-lo da melhor forma possível com as condições que tínhamos.

Dois dias após participar do Amazonas Film Festival, Marcos Paulo morreu aos 61 anos.

Cine Set – De todas as 10 edições do Amazonas Film Festival, qual aquele momento que o senhor considera que valeu a pena todos os desafios enfrentados?

Robério Braga –  Foram muitos, inúmeros. Tenho os vídeos, as fotos, os catálogos, os recortes de jornal. Porém, uma delas me causa espécie e me emociona até hoje: circular e olhar no Largo de São Sebastião para uma fila sem fim de pessoas aguardando para entrarem no Teatro Amazonas e participarem do festival. Lembro das oficinas, workshops, palestras.

Recordo ainda dos artistas de peso internacional se dizendo gratos por participarem de um evento de alta qualidade, muito bem organizado, e feito por gente e com o jeito daqui, tomando o tacacá no Largo, passeando pelas pedrinhas da calçada da praça de São Sebastião, como dizia o grande poeta Álvaro Maia. As imagens do povo amazonense vivendo a expectativa do tapete vermelho, convivendo com artistas nacionais e internacionais não me saem da retina.

O evento também foi a reaproximação de artistas amazonenses que tinham ido embora daqui como Aurélio Michiles e Djalma Limongi Batista, com os realizadores que ficaram como Roberto Kahané, Márcio Souza e ainda conhecendo os que surgiram, entre eles, Sérgio Andrade e Júnior Rodrigues. Recordo de ter ficado entristeciado com a situação do Marcos Paulo que se despediu do mundo (emociona-se) no palco do nosso Teatro. Um grande artista com o plano de realizar uma grande produção aqui no Amazonas. Chegamos a nos reunir no café do Teatro Amazonas, junto com a esposa dele, a Antônia Fontenelle, em que me narrou todo o projeto dele, falou sobre as locações que tinha escolhido e pediu apoio logístico e operacional para a nossa Film Comission. 

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