Pesadelo. Eis uma boa palavra para definir este caos vivido desde o início da pandemia da COVID-19. Trancados em casa, somos rondados pelo temor da morte, vendo familiares, amigos ou conhecidos caindo lentamente em um martírio sufocante. Mas, será que este inferno não é a tônica de milhões de pessoas ao longo de uma vida independente do caos na saúde pública? A maior atriz brasileira da atualidade, Grace Passô, nos questiona sobre isso no fantástico curta-metragem “República”, gravado durante a quarentena da primeira onda em um apartamento no bairro da República, em São Paulo.  

No filme dirigido, roteirizado e protagonizado por Grace, acompanhamos uma mulher sendo despertada com uma ligação telefônica. Do outro lado da linha, uma pessoa informa uma notícia perturbadora. Durante bons minutos não sabemos exatamente qual o teor da informação, mas, a reação incrédula da protagonista nos coloca diante de um angustiante mistério, solucionado apenas quando ela liga para mãe: o Brasil não existe; tudo não passa de um sonho de um xamã, o qual pode acordar a qualquer momento. 

Com ecos dos protestos pela morte de George Floyd e da mortalidade crescente entre negros no Brasil por conta da pandemia pela falta de assistência básica nas unidades de saúde, “República” ecoa o desejo de fuga semelhante ao visto em “Inabitável”, filmaço da dupla Enock Carvalho e Matheus Farias. Diante de um país historicamente opressor às minorias e agravado por conta do horror de um presidente negacionista, homofóbico e racista, o susto inicial da protagonista confunde-se lentamente com uma sensação de alívio do fim. Por que lamentar o fim do pesadelo do racismo, da injustiça social, da perseguição do Estado através da polícia?  

A câmera de Wilssa Esser alimenta este contexto de sufocamento ao se manter sempre próxima de Gracê ampliando a dimensão das descobertas e dos sentimentos, enquanto o fluxo de informações e o trabalho de som desenvolvidos deixa a tensão no ponto máximo. O jogo proposto, porém, se torna ainda mais denso a partir da metade final quando Grace quebra tudo visto até ali e coloca o próprio cinema e a si mesma neste caótico universo disruptivo. 

“República” se torna uma obra simbólica de um inferno persistente marcado por repressão, violência e racismo. Tudo em forma de pesadelo. 

‘Rivais’: a partida debochada e sensual de Luca Guadagnino

Luca Guadagnino dá o recado nos primeiros segundos de “Rivais”: cada gota de suor, cada cicatriz, cada olhar e cada feixe de luz carregam bem mais do que aparentam. O que parece uma partida qualquer entre um dos melhores tenistas do mundo e outro que não consegue...

‘A Paixão Segundo G.H’: respeito excessivo a Clarice empalidece filme

Mesmo com a carreira consolidada na televisão – dirigiu séries e novelas - admiro a coragem de Luiz Fernando Carvalho em querer se desafiar como diretor de cinema ao adaptar obras literárias que são consideradas intransponíveis ou impossíveis de serem realizadas para...

‘La Chimera’: a Itália como lugar de impossibilidade e contradição

Alice Rohrwacher tem um cinema muito pontual. A diretora, oriunda do interior da Toscana, costuma nos transportar para esta Itália que parece carregar consigo: bucólica, rural, encantadora e mágica. Fez isso em “As Maravilhas”, “Feliz como Lázaro” e até mesmo nos...

‘Late Night With the Devil’: preso nas engrenagens do found footage

A mais recente adição ao filão do found footage é este "Late Night With the Devil". Claramente inspirado pelo clássico britânico do gênero, "Ghostwatch", o filme dos irmãos Cameron e Colin Cairnes, dupla australiana trabalhando no horror independente desde a última...

‘Rebel Moon – Parte 2’: desastre com assinatura de Zack Snyder

A pior coisa que pode acontecer com qualquer artista – e isso inclui diretores de cinema – é acreditar no próprio hype que criam ao seu redor – isso, claro, na minha opinião. Com o perdão da expressão, quando o artista começa a gostar do cheiro dos próprios peidos, aí...

‘Meu nome era Eileen’: atrizes brilham em filme que não decola

Enquanto assistia “Meu nome era Eileen”, tentava fazer várias conexões sobre o que o filme de William Oldroyd (“Lady Macbeth”) se tratava. Entre enigmas, suspense, desejo e obsessão, a verdade é que o grande trunfo da trama se concentra na dupla formada por Thomasin...

‘Love Lies Bleeding’: estilo A24 sacrifica boas premissas

Algo cheira mal em “Love Lies Bleeding” e é difícil articular o quê. Não é o cheiro das privadas entupidas que Lou (Kristen Stewart) precisa consertar, nem da atmosfera maciça de suor acre que toma conta da academia que gerencia. É, antes, o cheiro de um estúdio (e...

‘Ghostbusters: Apocalipse de Gelo’: apelo a nostalgia produz aventura burocrática

O primeiro “Os Caça-Fantasmas” é até hoje visto como uma referência na cultura pop. Na minha concepção a reputação de fenômeno cultural que marcou gerações (a qual incluo a minha) se dá mais pelos personagens carismáticos compostos por um dos melhores trio de comédia...

‘Guerra Civil’: um filme sem saber o que dizer  

Todos nós gostamos do Wagner Moura (e seu novo bigode); todos nós gostamos de Kirsten Dunst; e todos nós adoraríamos testemunhar a derrocada dos EUA. Por que então “Guerra Civil” é um saco?  A culpa, claro, é do diretor. Agora, é importante esclarecer que Alex Garland...

‘Matador de Aluguel’: Jake Gyllenhaal salva filme do nocaute técnico

Para uma parte da cinefilia, os remakes são considerados o suprassumo do que existe de pior no mundo cinematográfico. Pessoalmente não sou contra e até compreendo que servem para os estúdios reduzirem os riscos financeiros. Por outro lado, eles deixam o capital...