Com três curtas-metragens já produzidos, o jovem diretor amazonense de 27 anos, Lucas Martins, se prepara para lançar seu mais novo trabalho intitulado “Um Mal Necessário”, contemplado pelo edital Feliciano Lana, do governo do Amazonas com recursos da Lei Aldir Blanc.

Se em “Barulhos” e “O Estranho Sem Rosto” Martins entrega suspenses psicológicos e em “À Beira do Gatilho” um policial noir, agora, Lucas opta pela comédia com elementos de fantasia e aventura.

“O curta é livremente adaptado tanto do conto “Fausto”, de Goethe, quanto da versão homônima cinematográfica de 1926, dirigida pelo grande F.W. Murnau. “Um Mal Necessário” é uma versão moderna, cômica e surreal do conto que mostra um ator iniciante e sem sucesso (Ricardo Gabriel) vendendo sua alma para Mephistofelis (Adriano Holmes) em troca de poder conseguir realizar seu desejo de atuar. Mas, a partir daí, seu sonho vira pesadelo e o caos vem a sua vida por uma noite”, contou Lucas em entrevista ao Cine Set.

Palácio da Justiça foi uma das locações de “Um Mal Necessário”.

Além de Ricardo Gabriel e Adriano Holmes, o elenco conta com Alexandre Mourão e Alex Jensen mais as participações de Guilherme Lobo e Jimmy Christian. Já na produção estão Augustto Gomes e Michelle Dantas, fotografia de Reginaldo Tyson, maquiagem e animatrônicos por Marcio Nascimento, direção de arte e figurino por Eva Pereira, iluminação de Helly Pinheiro e Edson Pinheiro, maquinária por Alexandre Leite, trilha sonora por Pablo Araújo, montagem por Max Michel. Quem assina o roteiro e direção é o próprio Lucas Martins.

Com o encerramento das gravações, o curta já entrou para o processo de pós-produção. Segundo Martins, “Um Mal Necessário” terá duração entre 10 a 15 minutos. Para o cineasta, foi um desafio filmar durante a pandemia.

“O Palácio da Justiça e a estrada rumo ao condomínio Alphaville, na Ponta Negra, são algumas das locações. Filmamos também na produtora do filme, a Plongée Produções, e no Teatro da Instalação, no Centro. Filmar em uma pandemia sempre é um desafio, mas apenas seguimos os procedimentos padrões de segurança e higiene”, contou o cineasta.

Sob AS LUZES DE Bava

Mestre do horror gótico italiano de filmes como “O Chicote e o Cavalo”, “A Garota que Sabia Demais”, “Seis Mulheres Para o Assassino” e “O Ciclo do Pavor”, Mario Bava foi a grande referência de Lucas Martins para “Um Mal Necessário”.

Mario Bava, independente de gêneros, foi um grande mestre do cinema. O jeito como consegue criar algo assustador e violento enquanto ainda traz, ao mesmo tempo, um visual belo, é inspirador e próprio dele. Não foi reconhecido como tal em vida, mas, seus filmes causaram e ainda causam impacto em qualquer um que os assiste e em nós diretores que também realizamos filmes. Isso fica claro quando vemos essa influência nos trabalhos de Scorsese, Dario Argento, Edgar Wright, entre outros.

Lucas Martins

diretor de "Um Mal Necessário"

“Um Mal Necessário” terá duração entre 10 a 15 minutos.

Apesar da admiração ao mestre do horror gótico, Lucas Martins contou que não buscou se inspirar diretamente pelos filmes de Bava. “Normalmente não busco filmes como inspiração, nem assisto filmes antes de realizar um. É um processo mais centralizado na minha própria visualização imagética e atmosférica do roteiro. Mas, nesse caso, eu apresentei quem era Bava para a equipe em uma reunião, exibindo trechos de “Black Sabbath” (1963), “Mata Baby, Mata” (1966), “Sete Mulheres Para um Assassino” (1964) e “Perigo: Diabolik” (1968)”.

“A ideia era a equipe se tornar familiarizada com a estética que o nosso filme tem, algo completamente visual, sem ter explicação para o uso de cores, de onde vem a luz e até mesmo da troca de cores dessas luzes. Mais uma vez é algo completamente visual e que adiciona na atmosfera e surrealismo”, acrescentou o diretor, também fazendo referência ao diretor Gary Sherman (“Poltergeist III”).

Além de Bava, Lucas Martins conta que “Um Mal Necessário” possui outras referências diretas como “Os Três Patetas” – um dos primeiros filmes que o cineasta assistiu. “Os clássicos desenhos dos Looney Tunes, que vejo sempre, e de diretores que trabalham comédias malucas e terror, igualmente ótimos, como Sam Raimi (“A Morte do Demônio”), John Landis (“Um Príncipe em Nova York”) e Joe Dante (“Gremlins”) são fortes influências para mim. As comédias cartunescas de Frank Tashlin (“Ou Vai ou Racha”) e Jerry Lewis (“O Professor Aloprado”) também são fantásticas”.

‘Barelle Vague’

“À Beira do Gatilho” é um dos filmes amazonenses que mais circularam em festivais internacionais em 2021.

Para Lucas Martins, desde 2019, o cinema amazonense tem conseguido alcançar voos mais altos e atingir um público maior em festivais cada vez mais distantes de Manaus, como ocorreu com “O Barco e Rio”, ganhador de cinco Kikitos no Festival de Gramado 2020.

“Isso tem sido uma realidade cada vez mais comum a partir desse ano. Meu segundo curta independente, “O Estranho Sem Rosto”, participou do Maranhão na Tela e outros festivais nacionais. Também entrou recentemente em um novo festival, o Cine Horror – Mostra de Cinema de Horror, Suspense e Ficção, em Salvador, Bahia”, conta.

O cineasta ainda brinca que o novo momento do cinema amazonense pode até ser definido como a “Barelle Vague”, termo criado pelo diretor fluminense radicado em Manaus, Walter Fernandes Jr.

“A circulação de filmes como “À Beira do Gatilho”, “Graves e Agudos em Construção”, “Terra Nova” e tantos outros mostra para as pessoas que o cinema do Amazonas é uma realidade, conseguindo seu espaço aos poucos. É um belo momento demonstrando a importância de editais para o desenvolvimento de produções locais, o número de empregos que ela rende e o alcance que esses trabalhos têm”, descreveu.

Em entrevista ao Cine Set, o cineasta amazonense Lucas Martins também abordou um pouco sobre seu processo de produção, a trajetória de “À Beira do Gatilho” em festivais internacionais, e sua paixão pela sétima arte.

Cine Set – É possível esse forte aspecto urbano em seus curtas. Você busca explorar um olhar regionalizado para o cinema de gênero em Manaus?

Lucas Martins – Não. Creio que quão mais universal a história e a forma que você a conta seja, mais alcance e vai ter. Mas, acho que a cidade onde a história passa, de uma forma ou de outra, sempre vai ter uma influência seja ela pequena ou grande. Foram os casos, por exemplo, de “Annie Hall”, “Operação França” e “Casablanca“.

Como qualquer outra cidade do mundo, Manaus é um ótimo cenário para qualquer história de qualquer gênero. Tudo depende da visão do diretor e como ele usa a cidade na narrativa.

Acho que trabalhar em um set é melhor, pois, é um ambiente controlado em que tudo está ao meu alcance. Entretanto, sou apaixonado pelo visual urbano e as possibilidades que posso criar com esse cenário. Fico muito feliz que com “À Beira do Gatilho”, o filme que lancei esse ano, consegui realizar um pouco disso.

Set de filmagem de “Um Mal Necessário”.

Cine Set – Sobre a carreira de “À Beira do Gatilho” e as participações em festivais internacionais. Como está sendo receber as notícias, o feedback e o alcance de um novo público?

Lucas Martins – A sensação é de que o dever está sendo cumprido. Meu objetivo ao realizar um filme é contar uma história através da visão que tenho como diretor e que ela seja assistida pelo maior número de pessoas possíveis. Quando o curta alcança audiências mais distantes em festivais lá fora, isso é uma prova de que a produção teve uma aceitação desse público e um impacto na plateia.

Eu nunca pensei em ganhar prêmios e, quando o “À Beira do Gatilho” ganhou dois no Tagore Internacional Film Festival, na Índia, (Melhor Filme Policial e Melhor Diretor), vi que minhas expectativas foram ultrapassadas.

O melhor prêmio, entretanto, foi quando um colega diretor que estava pensando em desistir de realizar filmes viu o curta e se sentiu inspirado em voltar a fazer filmes. Isso foi algo incrível e uma das maiores conquistas na minha opinião.

“À Beira do Gatilho” também não seria possível sem meu time (elenco e equipe da Plongée Produções): eles trabalharam tão intensamente para tirar do papel essa história e essas conquistas estão sendo tanto deles quando minhas. Ele foi recentemente selecionado ao Noble Internacional Film Festival And Awards e está com sete indicações.

Apesar de estarmos aqui de dedos cruzados, a maior conquista é que o filme foi selecionado e vai ser descoberto por um novo público.

Curta foi premiado no edital Feliciano Lana com recursos da Lei Aldir Blanc.

Cine Set – Quando surgiu o interesse por cinema? Como foi a transição de cinéfilo para diretor?

Lucas Martins – O cinema está em presente desde criança.  Infelizmente não há mais programas infantis na Tv aberta, mas eram programas como esses que exibiam Looney Tunes e clássicos da Disney (algo que ignorantemente muitos não dão importância e que tratam como algo fútil). Esses “curtinhas” de animação são algumas das melhores coisas que temos no cinema e uma das poucas coisas nessa mídia que podemos classificar de fato com a palavra “arte”.

Nos Looney Tunes tínhamos em versão animada o que Buster Keaton e Harold Lloyd faziam enquanto possui como trilha belas obras da música clássica e originais de compositores incríveis como Carl W. Stalling e Milt Franklyn, com diretores e roteiristas maravilhosos trabalhado nesses filmes. Como era o caso de Chuck Jones, Frank Tashlin, Bob Clampett, Robert McKimson, Jack Kinney (provavelmente o diretor que me fez querer dirigir), Tex Avery, Ben Sharpsteen, Wolfgang Reitherman, etc.

“Os Três Patetas” também me fizeram amar cinema assim como Spielberg, Zemeckis, Landis e Dante. Com tudo isso – e mais um pouco – como não se apaixonar por essa mídia? Todo diretor é um cinéfilo. O que se tem que fazer é simplesmente realizar um filme e nunca parar de continuar fazendo.

A lista é grande. Estou começando a inserir mais tons de ação e aventura, tons policiais e humor nas minhas produções e gostaria de evoluir cada vez mais isso. Sou louco por westerns, então, planejo realizar isso também.

Animação é algo que tenho um grande carinho e desejo. Como disse, a lista é grande e fico muito grato por poder realizar e evoluir em cada filme ou projeto. Como dizia o grande Alan Parker parafraseando o mestre Fred Zimmerman: “Fazer filmes é um privilégio que não pode ser desperdiçado”. A cada trabalho é uma honra realizar e evoluir não só como diretor, mas também como ser humano.

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