‘O rock morreu?’ deve ser a pergunta mais batida da história da música. Nos dias atuais, porém, ela anda fazendo sentido, pelo menos, no Brasil, onde o gênero sumiu das paradas de sucessos e as principais bandas do país vivem dos hits de antigamente. Para piorar, diante da maior crise política, econômica e sanitária da nossa história, os nossos roqueiros pouco são contundentes em se colocar contra as atrocidades de um governo genocida – para um Tico Santa Cruz (Detonautas) temos Rogers Moreiras (Ultraje a Rigor) e Digões (Raimundos) da vida. 

“Graves e Agudos em Construção” surge como um último suspiro da velha e boa rebeldia roqueira. Durante 14 minutos, o diretor e roteirista Walter Fernandes Jr joga na lata do lixo qualquer narrativa clássica simplificadora ou linearidade para provocar o público com sequências completas em si mesmas. No fim, o conjunto delas ecoa um grito contra o autoritarismo e a favor de uma arte e cinema mais provocador. 

Três personagens guiam o público durante o curta: uma prostituta (Júlia Kahane), um trabalhador da construção civil (Álex Jansen) e um garoto (Rhuann Gabriel). O trio, exceto por uma cena, não aparece junto, ainda que o menino vivido com muita intensidade por Rhuann, seja uma ponte entre os dois adultos.  

CAMPO DE BATALHA SIMBÓLICO 

As nove sequências que compõem “Graves e Agudos em Construção” são carregadas de fúria seja vinda das atuações – impressionante a força em cena de Júlia Kahane, atriz que já tinha tido uma excelente performance na peça “Vacas Bravas”, do Ateliê 23 – seja das provocações trazidas das quebras bruscas oferecidas ao espectador – a cena inicial no canteiro de obras termina de forma catártica como um grande show de rock.  

O tom surrealista de caminhos longe do óbvio não é apenas para provocar um choque gratuito no público; serve, acima de tudo, para apontar o caráter transgressor da arte e tirar o público da zona de conforto. 

“Graves e Agudos em Construção” joga o espectador em um campo de batalha simbólico repleto de intensidade e relevância, algo que o rock há muito, muito tempo não consegue mais ser.  

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