Se alguém me perguntar quais são os meus filmes favoritos de Chaplin, eu não teria nenhuma dúvida em dizer que são O Garoto e Tempos Modernos, duas obras que traduzem facilmente a essência do comediante: sempre na pele de Carlitos, temos no primeiro o vagabundo desastrado, sensível e genial. No segundo, o palhaço como objeto de análise e protesto social, sem jamais perder o senso humano que marcou sua carreira. Apesar de ambos serem os meus favoritos, não vou negar que é Luzes da Ribalta aquele que mais toca fundo no meu coração em relação a sua filmografia. 

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Sua mistura poética entre o humor e a tragédia deixa o longa-metragem uma espécie de reflexão sobre o ciclo da vida, algo que em tempos de isolamento e quarentena fazem o filme ganhar uma celebração incondicional à generosidade e ressoar sobre o valor e significado à vida, uma espécie de combustível humano de altruísmo que Chaplin injeta para assimilarmos a existência com outros olhos, seja para vibrar com nosso sucesso e do outro, seja para chorar o nosso fracasso e compartilhá-lo com o outro. Atemporalidade em transmitir as emoções da subjetividade humana, talvez seja a melhor definição para Chaplin e seu cinema e em Luzes da Ribalta temos uma lição para a vida em vários aspectos. 

Calvero (Charles Chaplin) é um palhaço em decadência que luta contra o álcool. Um dia, ao chegar bêbado a seu prédio, ele salva uma jovem bailarina que tentava suicídio. Ela é Thereza (Claire Bloom). Despejada pela dona do prédio, ela passa a viver com Calvero, onde formam uma bela amizade. Aos poucos o palhaço estimular Terry a voltar a dançar, mesmo ela se mostrando insegura. Enquanto aos poucos ela vai alcançando o estrelato, Calvero precisa enfrentar seus demônios interiores para não se afundar na amargura.

Risos, Lágrimas e Memórias – O trabalho íntimo do artista

 

Não deixa de ser curioso saber, que inicialmente, o próprio cineasta sentia um forte desprezo pela chegada definitiva do som ao cinema, já que grande parte da sua obra foi marcada pela simplicidade das imagens e do silêncio. Apesar disso, Chaplin não deixou que este ranço tomasse conta da sua vida e a evolução da sétima arte o permitiu a se adaptar as mudanças e buscar na maturidade, a importância de se reinventar. Se em Tempos Modernos o som finalmente aparecia, em O Grande Ditador o discurso e fala se faziam presentes na figura clássica de Carlitos.

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Em Luzes da Ribalta temos o toque de gênio: Chaplin se despe da sua própria figura de criação (sem o seu bigodinho tradicional) para mostrar um retrato nu e cru da sua verdadeira face, sem maquiagem. É sua obra mais intimista, com diversos elementos biográficos – sua desilusão com a arte, as perseguições que sofreu pela censura americana que o acusou de comunista e a relação sofrida com a mãe que guarda muitas semelhanças com o que Terry vive na produção – e que retrata na sua pura perfeição, o cinema da simplicidade humanista, que diz muito sobre as relações humanas.

Tanto que a primeira metade do filme, construída nas conversas entre Calvero e Terry no apartamento dele, funciona como uma catarse terapêutica, onde cada um conforta o outro através de monólogos e lições que materializam os risos, as lágrimas e as memórias da vida – este último muito bem representado nos sonhos de Calvero que ilustram uma espécie de flashback onírico que será crucial para o último ato.

Nota-se que em Luzes, o cineasta nos vende um convite de cinema para adentrar no mundo real da arte onde a determinação, esperança e imaginação são elementos responsáveis em fortalecer o conceito do amor à vida. Nele, o homem por trás do artista abre a cortina, para expor todas as fraquezas, mágoas, perdas, mas que apesar de tudo, consegue ser engraçado pela sua mensagem otimista. É como se Chaplin discursasse sem a máscara, que entre as perdas e desgostos há sempre alegria e esperança, afinal é na dualidade que se formam as nuances da vida.

O réquiem de Luzes

Apesar de não ser o último filme de Chaplin – ele ainda rodaria outros dois filmes na Europa – Luzes da Ribalta é o que podemos chamar de seu canto de cisne da carreira. É um Chaplin com total consciência da proximidade do fim da sua carreira, mais melancólico do que nunca, quase shakesperano (seu texto é filosófico e existencial), mas sem nunca perder a graciosidade em meio à um clima tênue de vida e morte.

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É nesta intimidade que o diretor alia um belo texto sobre as amarguras da vida; o peso do envelhecer e ser esquecido e o ocaso do artista diante das contradições que a vida lhe proporciona, tudo isso ajuda a compor uma elegante sinfonia melancólica sobre a chegada do crepúsculo. O próprio título do filme não deixa de ser uma simbologia interessantíssima. Se Calvero e Terry foram unidos pelo sentimento de fracasso, a forma que o filme trabalha a inversão dos papéis entre os dois durante o desenvolvimento da trama – inicialmente é Calvero que tira Terry da depressão, para logo em seguida a bailarina trocar de papel com ele e retirá-lo do fundo do poço – indica o olhar de Chaplin sobre o quanto as gerações podem transmitir ensinamentos umas para as outras.

De um lado, é o eterno sentimento de amargura, solidão e abandono de Calvero que lhe dá a maturidade necessária para incentivar Terry a acreditar em si mesma e na força da sua arte. Do outro, a juventude e a gratidão da bailarina para com o palhaço, ajudam a dar suporte emocional para Calvero confrontar seus demônios interiores ao mesmo tempo que o ajuda a ressignificar seu passado e reencontrar o seu poder criativo e a fugaz esperança de que um dia os tempos áureos retornem. Essa troca de bastão, entre gerações dentro da própria arte, ilustra o apagar das luzes para o palhaço e o ascender delas para a bailarina que dança, enquanto as cortinas se fecham, em um desfecho catártico que só um gênio como Chaplin poderia oferecer. 

Saindo do papel e indo para atrás da tela, Chaplin utiliza um jogo de luzes e sombras, que cresce principalmente nas cenas de palco. O caminho ascendente de Terry encontra-se sempre iluminado, enquanto o de Calvero fica envolto na escuridão. O momento em que o palhaço retira a maquiagem após o público deixar a sala, é um dos mais belos e tristes do longa pela sensibilidade com que a câmera de Chaplin, juntamente com sua interpretação, revela a enorme frustração na cara de Calvero. 

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Ela só não supera a cena antológica, que marca o encontro dele com Buster Keaton. É fácil observar nesta sequência os estilos diferentes de comédia dos dois atores: Chaplin tem um jeito mais conquistador por organizar o humor no gestual. Já Keaton utiliza o caos e a impotência para provocar o riso. São comediantes perfeitos porque são os opostos nos seus gestos de humor. Este encontro de dois gênios é o maior presente que o cinema poderia conceber. Vale ressaltar também a ótima sintonia entre Chaplin e Claire Boom, que juntos comovem o espectador pela relação empática de ajuda mútua, dando um significado muito mais espiritual do que físico para o amor entre os dois. Se há um ponto negativo na obra é o pouco aprofundamento dos personagens coadjuvantes, juntamente com a fuga de Calvero para Paris que acaba por esticar ainda mais a trama sem necessidade. 

Pode-se dizer que Luzes da Ribalta é o filme testamento de Chaplin na sua carreira, assim como foi A Fraternidade é Vermelha para Krzysztof Kieslowski; A Noite Americana para François Truffaut, Grilhões do Passado para Orson Welles e Cão Branco para Samuel Fuller, obras que pontuaram através da melancolia, a essência de seus diretores. Além de tocante, Luzes possui um olhar sincero do seu realizador, questionando a relevância de sua imagem para o cinema e expondo sua verdadeira identidade. Por trás da história de amor entre dois fracassados, há o amor pela arte, o amor pela comédia e principalmente o amor pelo altruísmo humano. Quando Calvero fala em um certo momento para um personagem “É o vagabundo em mim” dizer que Chaplin foi gênio aqui é pouco, quase nada. É o legado de um maestro absoluto em todas as fases do cinema que participou.

“Enquanto o lábio trêmulo gargalha, dentro do peito o coração soluça” (Padre Antônio Tomás)

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