Falar de “A Metamorfose dos Pássaros” é abordar questões particulares que, ao mesmo tempo, são universais. Primeiro longa da carreira de Carolina Vasconcelos, este filme-ensaio, entre a ficção, o documentário e o experimental, conta uma história de amor por meio de imagens e da linguagem que é própria ao cinema. A diretora se apropria da arte para transformar questões pessoais em situações inerentes a todos os seres humanos como a brevidade da existência, a imensidão de nossos sentimentos e a própria vida. 

Por isso, é difícil definir “A Metamorfose dos Pássaros”: o que temos é uma verdadeira obra de arte, utilizando composições sensoriais e etéreas para dialogar conosco. Não é a toa que a obra conquistou o prêmio da Federação Internacional de Críticos (Fipresci), na edição de 2020 do Festival de Berlim. 

Vasconcelos conta a história de sua família em três momentos distintos. Na primeira fase, acompanhamos o casal Henrique e Beatriz, carinhosamente chamada de Triz. Vemos sua história de amor alicerçada em concessões e apoio incondicional que termina resultando no distanciamento corpóreo e emocional do casal. Tal aspecto é importante para compreendermos a relação de Jacinto, filho do casal, com o mundo e com a mãe. Para finalmente, chegarmos ao último momento do longa-metragem: a ligação de Vasconcelos com sua família. 

Em todos esses instantes, a diretora destaca as angústias, preocupações e realizações dos habitantes de seu clã. A narrativa em off utilizada durante toda a produção auxilia para que sintamos o que o narrador-personagem perpassa. E como se fossemos co-participantes de suas memórias, especialmente, se notarmos que as imagens estão dispostas como um álbum de família: imagens estáticas com filtros que remetem à fotografia analógica e atenta a detalhes que facilmente seriam editados ou ignorados na era das fotos digitalizadas captadas da câmera de um smartphone. 

Além disso, as imagens são potencializadas por amparar, proteger e perpetuar a memória contra a força implacável do tempo. Vasconcelos conta a sua história e nos leva a pensar em nossa própria ancestralidade, naquilo que levamos e guardamos de nossos parentes mais próximos e isso se manifesta na narração. As palavras discorridas possuem a ânsia de encontrar um interlocutor que as compreenda, as absorva. 

RETRATO ÍNTIMO E UNIVERSAL

Deve ser por isso que ao casá-las com as imagens, a sensação que fica é vívida, pulsante, libertadora e dolorosa. Porque entendemos que, na vida real, amar pode doer e deixar feridas que nos acompanham por toda a existência. De um lado, por exemplo, temos o amor de um casal que é sôfrego pela individualidade imposta. Por outro lado, temos dois filhos que precisam lidar com o luto, e, em todas essas facetas, o roteiro é perspicaz em conduzir a reflexões e o peso de amar.

A narrativa não linear e a cadência com que os fatos são apresentados contribuem para que percebamos até mesmo o que não é dito. O avançar, desacelerar e estado de suspensão de alguns momentos são equiparados com maestria a nossa memória, por isso simbologias que poderiam ser óbvias – como a tentativa de levantar uma árvore caída – ganham novos significados e criam uma aura mágica laureada com cuidado e a técnica precisa para construir uma trajetória cinematográfica.

Toda essa complexidade narrativa reveste-se de questões simples do cotidiano e da própria existência humana. Vasconcelos traz um relato íntimo, mas com alto poder de identificação e de empatia que tornam a obra universal, enfim, uma verdadeira poesia imagética. Uma carta de amor e libertação de seus ancestrais.

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