Fragmentado e dinâmico são as características que predominam em “O Homem que Copiava” (2003), longa-metragem escrito e dirigido pelo cineasta gaúcho Jorge Furtado. O filme conta a história de André (Lázaro Ramos), jovem porto-alegrense que, após largar a escola na adolescência, passou a trabalhar como operador de fotocopiadora em uma papelaria de pequeno porte na capital gaúcha.

Nos primeiros trinta minutos do filme, o diretor apresenta e contextualiza o protagonista e suas breves aspirações que servirão como motor para o desenrolar do enredo, de forma dinâmica e pontuada por uma narração em primeira-pessoa. Essa técnica consegue cativar e prender a atenção do espectador logo de cara. É interessante destacar que esse recurso também está presente no documentário em curta-metragem “Ilha das Flores”, outro premiado trabalho de Jorge Furtado.

EM BUSCA DA ASCENSÃO SOCIAL

Durante a narração inicial de André é possível compreender o principal elemento que vai nortear basicamente toda trajetória do protagonista: o dinheiro (ou a falta dele). Seu objetivo se limita a ganhar dinheiro e ter poder aquisitivo suficiente para “conquistar” uma mulher, casar-se, ter filhos e, consequentemente, atingir um “prestígio social”:

“Gurias são muito espertas. Gurias não sonham em passar a vida ao lado de um operador de fotocopiadora; viajar com um operador de fotocopiadora; ter filhos com um operador de fotocopiadora. Eu, pelo menos até agora, não encontrei nenhuma guria que sonhasse isso”.

Em seguida, o espectador conhece Silvia (Leandra Leal): moradora do apartamento vizinho de André, ela é uma jovem balconista por quem André desenvolve obsessão após observá-la todas as noites. Decidido a conhecê-la, ele a segue até o trabalho e, para se dirigir a ela, inventa a desculpa de comprar um presente de aniversário para a mãe. A jovem mostra um chambre de R$ 38, cujo valor extrapola o orçamento de André. Envergonhado por não ter o poder aquisitivo para comprar a mercadoria, André acaba se envolvendo em uma série de eventos que o tornam um falsificador de dinheiro, cujo objetivo principal é impressionar a amada.

Um bom exemplo que ilustra a relevância do dinheiro para André é a cena em que ele apresenta para o espectador as limitações que a falta do dinheiro causa em sua vida e seu lugar na sociedade.

“Eu ganho dois salários-mínimos. São R$ 302 por mês, com os descontos fica R$ 290. O preço de um tênis. Não gasto com transporte. Vou a pé para loja. Não saio nunca. Minha mãe paga o ‘super’ com a pensão dela. Eu pago a metade do aluguel. Dois quartos com a dependência da empregada. Isso se a gente tivesse empregada e ela conseguisse dormir de pé. Sala, banheiro cozinha. Tudo isso por R$ 302, incluindo condomínio”.

FRAGMENTAÇÕES DE INFORMAÇÕES E GÊNEROS CINEMATOGRÁFICOS

O roteiro é intuitivo e natural, a montagem criativa e a narração pontual do protagonista fazem com que o espectador se aproxime do personagem e compreenda a realidade carregada de desigualdade social e dificuldades econômicas em que André vive. Após seus créditos iniciais, “O Homem que Copiava” apresenta uma narrativa fragmentada que segue o fluxo de consciência do protagonista: seu pensamento se apresenta de maneira não linear, construindo uma teia complexa por meio de associação de ideias sem que, com isso, se perca a linha de raciocínio. A partir desse exercício reflexivo, o personagem apresenta seu universo particular de forma crítica e dinâmica.

Mesmo que de forma não proposital, a apresentação fragmentada de “O Homem que Copiava” em flashes acaba servindo de metáfora ao título do longa. Tudo o que é apresentado parte do ponto de vista de André e, sobretudo, como ele reúne todos estes elementos.

A “colagem” de gravações com atores reais, animações e fotocópias realizadas pelo próprio protagonista se mostra uma escolha narrativa adotada pela produção e indica ainda uma ambiguidade no próprio título: faz referência ao ato de copiar com ajuda de um tipo específico de tecnologia tanto quanto a forma subjetiva em como André adquire conhecimento ao “aprender” um pouco de tudo, assimilando fragmentos de informações ao realizar as fotocópias. A transição das cenas também remete aos movimentos que uma fotocopiadora faz.

A fragmentação não se limita à montagem do filme, mas também ao gênero apresentado ao espectador. “O Homem que Copiava” transita entre um romance cuja finalidade é levantar uma crítica social a uma comédia com personagens caricatos e até um leve clima de suspense. Vale ressaltar que é possível perceber uma rápida referência a “Janela Indiscreta” (1954) de Alfred Hitchcock: os protagonistas de ambos os filmes observam e aprendem sobre o mundo a partir do ponto de vista de sua janela. Ou até pequenos elementos da adaptação de “Clube da Luta” (1999), dirigida por David Fincher, onde o filme apresenta de forma fragmentada personagens fluídos em ambientes transitórios de uma sociedade regida pelo consumo.

O filme também traz os personagens secundários Marinês (Luana Piovani) e Cardoso (Pedro Cardoso) que podem ser lidos como arquétipos dessa “sociedade de consumo”. A primeira é colega de trabalho de André e optou por preservar sua castidade até conhecer um homem bonito e/ou rico capaz de dar uma vida de luxo. Já Cardoso, amigo de André, é um vendedor de antiguidades cujo objetivo de vida é ser rico para poder realizar suas fantasias que não podem ser feitas com baixo poder aquisitivo.

LEVEZA NA REFLEXÃO

“O Homem que Copiava” incita a reflexão de como a felicidade e o dinheiro estão intrinsecamente ligados na vida de André, Silvia, Marinês, Cardoso e os demais personagens do filme. Essa premissa pode ser compreendida como a falta de perspectiva que muitos jovens apresentavam – e ainda apresentam – após a virada do século: para preencher o vazio, buscavam satisfazer-se com a aquisição de mercadorias no intuito de aparentar ter uma vida “feliz”.

Essa ideia de “espetacularização” condiz com o que o escritor francês Guy Debord define como “sociedade do espetáculo”, estudo no qual criticou o fetichismo que a sociedade contemporânea cria em cima de mercadorias, o que é reconhecível a partir dos personagens apresentados no filme. André é fruto dessa realidade onde a mercadoria é vista como a única forma possível de conectar e unir as pessoas, visão de mundo que é construída graças as partes de textos fotocopiados por ele e imagens da televisão retidas em sua memória.

Jorge Furtado consegue entregar um trabalho cômico mesmo sem provocar grandes risadas, mas com o apelo a uma reflexão social de forma leve. Ainda que “O Homem que Copiava” não apresente elementos inéditos trabalhados em outras obras do cinema, Furtado consegue reunir tudo isso, atrelado a uma montagem dinâmica e demonstrar que a produção não é uma mera “cópia” de um outro filme.

‘Caros Camaradas’: a desintegração do comunismo soviético

A primeira coisa que você deve saber acerca de “Caros Camaradas” é que estamos diante de um filme forte, necessário e que ainda se apropria de causas hoje presentes estruturados em uma sociedade desigual. Dito isso, vamos ao filme. “Caros Camaradas” narra um momento...

Trilogia ‘Rua do Medo’: diversão rasa, nostálgica e descartável

Séries de TV têm sido um dos pilares fundamentais na consolidação global da Netflix como o maior serviço de streaming do mundo. Boas, ótimas ou ruins, vindas de diversas partes do mundo, não importa: sempre podemos contar com a produção serializada de TV como parte...

‘Viúva Negra’: o pior filme da Marvel em muitos anos

Durante muito tempo, os fãs das produções da Marvel Studios pediam por um filme solo da heroína Viúva Negra. A estrela Scarlett Johansson também queria fazer. Para quem deseja entender um pouco dos meandros de Hollywood e esclarecer porque o filme da Viúva não saiu,...

‘Nem Um Passo em Falso’: Soderbergh perdido no próprio estilo

Steven Soderbergh é um cineasta, no mínimo, curioso. Seu primeiro filme, Sexo, Mentiras e Videotape (1989) mudou os rumos do cinema independente norte-americano quando saiu – e é, de fato, um grande filme. Ao longo dos anos, ele ganhou Oscar de direção por Traffic...

‘Um Lugar Silencioso 2’: ponte com dias atuais mirando futuro da franquia

“Um Lugar Silencioso” foi um dos meus filmes favoritos de 2018. A ambientação, o uso de recursos sonoros e a narrativa capaz de gerar tantas leituras e interpretações foram aspectos determinantes para a catarse causada e suscitar indagações quanto a necessidade de uma...

‘A Guerra do Amanhã’: estupidez eleva à potência máxima

A certa altura de A Guerra do Amanhã, o herói do filme se vê segurando pela mão outra personagem que está prestes a cair num abismo em chamas. Ela cai, ele grita “Nãããoo!” em câmera lenta, e aí eu dei risada e joguei minhas mãos para o ar. Tem certas coisas que não...

‘Four Good Days’: Glenn Close em novelão sobre recomeços

Glenn Close é uma das maiores atrizes de todos os tempos. Um fato indiscutível. Mas também é uma das mais injustiçadas se pensarmos em premiações. E o Oscar é o maior deles. Bem verdade que, ao longo dos anos, a Academia perdeu grande parte de sua relevância, mas...

‘Shiva Baby’: crônica do amadurecimento na era do excesso de informações

“Shiva Baby” é o trabalho de estreia da diretora canadense Emma Seligman e retrata um dia na vida de Danielle (Rachel Sennott), jovem universitária que encontra seu sugar daddy (pessoa mais velha que banca financeiramente alguém, em troca de companhia ou de favores...

‘Em um Bairro de Nova York’: sobre ‘suañitos’ e fazer a diferença

É preciso dizer que Jon M. Chu e Lin-Manuel Miranda são os artistas atuais mais populares no quesito representatividade em Hollywood. Chu é responsável por trazer o primeiro filme norte-americano em 25 anos com um elenco totalmente asiático e asiático-americano –...

‘Noites de Alface’: riqueza da rotina duela contra mistérios vazios

Apesar de “Noites de Alface” estar envolto em situações misteriosas, elas não têm tanta importância quando o mais interessante são as reflexões sobre envelhecer e das trivialidades da rotina cotidiana.  O grande trunfo do filme é ouvir os protagonistas dessa trama...