O maior mérito de O Homem que Vendeu Sua Pele, da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania, é o ato de malabarismo que ele realiza ao longo da sua duração: O filme consegue, ao mesmo tempo, ser uma sátira ao mundo da arte, lançar um olhar tocante sobre o problema dos refugiados sírios na Europa e também mostrar uma história de amor. E o faz de maneira simples e acessível: não à toa conquistou a Academia de Hollywood e acabou entre os finalistas indicados na categoria Melhor Filme Internacional.

A história concebida por Ben Hania – ela é também a roteirista – parece exagerada, e é, mas é levemente inspirada no caso real do artista Tim Steiner, que tatuou uma obra de arte nas costas e depois a “vendeu” – leia mais aqui. No filme, Sam é um rapaz sírio que enquanto viaja com sua amada no ônibus num belo dia, professa seu amor por ela em voz alta e diz que “quer liberdade”. É o que basta para ele ser preso e depois fugir do país, para o Líbano, até chegar à Europa. É 2011, e a guerra na Síria, que faria com que ondas de refugiados tentassem sair do país nos anos seguintes, eclode. Algum tempo depois, ele é notado por artista renomado e deixa esse sujeito tatuar uma pintura nas suas costas, a pintura de um visto, do tipo que é necessário para refugiados conseguirem ingressar na Europa. Sam então se torna ele mesmo uma obra de arte, passa a se exibir num museu e a atrair as mais diversas controvérsias.

O elenco ajuda bastante na experiência do filme. Yahya Mahayni é simpático e faz do Sam uma figura que instantaneamente ganha a simpatia do espectador. Acompanhamos o personagem – e o ator – mesmo quando a trama começa a dar umas viradas meio questionáveis perto do desfecho do filme. Dea Liane como Abeer, o amor do protagonista, também tem uma presença muito humana em tela e torcemos para que o casal resolva seus problemas e fique junto. E a estrela Monica Belucci faz o papel de uma calculista negociante de arte que explora sua “obra” valiosa. Sua loiríssima participação é importante para a história e a atriz evita que sua personagem se torne muito unidimensional.

Esses elementos ajudam o filme, porque na direção o toque de Ben Hania é meio frouxo, leve demais. O retrato que a diretora-roteirista pinta do mundo da arte moderna não é lisonjeiro, claro, mas também parece meio raso. Até sua metade, o filme propõe questões interessantes: como nos relacionamos mesmo com uma obra de arte? E como essa relação mudaria se essa obra de arte fosse uma pessoa viva, em condição de óbvia exploração? Em nome do fazer artístico, tal coisa seria válida? Sam vive uma vida confortável, longe da guerra, mas a que preço?

SAÍDAS FÁCEIS

No entanto, a partir de dado momento o filme para com essas proposições interessantes e começa a se desenrolar com desdobramentos que parecem, no fim das contas, inverossímeis, e com saltos no tempo que sugerem uma narrativa apressada. Claro que os últimos anos no planeta Terra atualizaram as definições de absurdo, mas ainda assim O Homem que Vendeu Sua Pele pesa um pouco na mão quanto mais se encaminha para seu trecho final. O elenco, especialmente Mahayni, segura a barra e evita que o espectador saia totalmente da história. Ainda assim, é dureza ter que aguentar uma tentativa de plot twist perto do final, uma que não engana o espectador em momento algum e ainda parece amarrar as pontas soltas de uma maneira certinha demais.

No fim das contas, há alguns belos momentos em O Homem que Vendeu Sua Pele – nenhum mais belo que a cena do ônibus logo no início – e algumas ideias interessantes espalhadas durante a projeção. Devido à maneira como o diretor a conta, acaba não sendo uma história com muita profundidade ou mesmo sutilezas – o roteiro faz o personagem do artista, interpretado por Koen De Bouw, se apresentar como Mefistófeles para Sam (!).

O real problema do longa é o fato dele ser meio leve demais, sua sátira poderia ser mais incisiva. Mas, paradoxalmente, sua leveza faz dele um filme a que se assiste com facilidade, o tipo de obra que parece querer contar três histórias ao mesmo tempo e até consegue. É um filme leve sobre assuntos complexos: alguns espectadores gostam disso, é verdade. Para muitos, essa leveza pode não ser um problema. Porém, mesmo eles devem concordar que é uma obra que fica mesmo na superfície, na “pele”.

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