Na abertura de Sergio, vemos o diplomata da ONU Sérgio Vieira de Mello gravando um vídeo de recrutamento para a organização, e neste vídeo ele diz que é difícil resumir “34 anos de carreira em 3 minutos”. Sergio, o filme do diretor Greg Barker e lançado pela Netflix, tem quase duas horas para fazer esse mesmo relato e ainda assim sofre com essa dificuldade. Barker já realizou, há alguns anos, um documentário sobre o diplomata brasileiro, uma das figuras mais importantes da história recente da ONU – o qual, confesso, não assisti. Mas é seguro dizer que o documentário provavelmente deve ser mais interessante que esta biopic bem tradicional. Sergio não chega a ser um filme ruim, mas é um que segue a cartilha do filme biográfico à qual já nos acostumamos. E seguir cartilha é, muitas vezes, a morte da arte.

O roteiro do longa até faz uso de uma moldura dramática interessante: o filme se inicia pelo fim – aviso de SPOILER de um fato real bem conhecido e que teve ampla repercussão mundial – em 19 de agosto de 2003, quando a sede da ONU em Bagdá, na qual Sérgio trabalhava, foi alvo de um atentado à bomba. Preso debaixo dos escombros, o protagonista relembra sua vida enquanto aguarda o resgate: Não dizem que a vida de alguém passa diante de seus olhos nessas horas? Ele relembra sua atuação no Timor Leste; seu envolvimento no Iraque logo após a invasão norte-americana que tirou Saddam Hussein do poder; e quando conheceu Carolina, uma economista argentina que virou seu grande amor.

O grande trunfo do filme de Barker é ter nos papeis principais de Sérgio e Carolina simplesmente Wagner Moura (“Tropa de Elite“) e Ana de Armas (“Entre Facas e Segredos“). Eles carregam o filme nas costas e quase, quase conseguem suplantar as limitações do roteiro e da montagem. Afinal, a estruturação em flashbacks ao longo do filme mais atrapalha do que ajuda o drama: A sensação às vezes é de pularmos de uma vinheta para outra de maneira meio aleatória, sem uma justificativa clara dentro da narrativa.

SINCERIDADE X PREGUIÇA

“Sérgio” é pouco profundo também. Uma cena no meio dele, com Sérgio no Brasil tentando passar um tempo com seus filhos e comendo moqueca, parece meio jogada na narrativa, apenas para fornecer um pouco de conflito e não deixar o protagonista “perfeito” demais. Aliás, o retrato dele no filme parece idealizado: o Sérgio que vemos nele é heroico, estratégico, luta pelo que é certo, sacrifica a própria felicidade para ajudar a resolver conflitos pelo mundo, e ainda é um cara romântico; e tudo isso torna Sergio, o filme, algo quase como uma hagiografia. E nunca chegamos realmente a compreendê-lo ou o que o movia, além desse retrato de “um sujeito muito legal”.

São os dois astros, com suas composições, que elevam o filme em alguns momentos. Wagner Moura aproveita as oportunidades que o roteiro lhe dá e domina todas as cenas, e em várias delas conquista o espectador, mesmo debaixo de entulho. E Ana de Armas está bem cativante, prosseguindo na sua boa fase. Ela tem uma boa química com Moura e traz doses de sagacidade ao papel, levantando-o, já que em essência ele não foge muito do clichê do interesse romântico do filme biográfico. Em dado momento, um dos melhores do filme, a vemos pelo ponto de vista de Sérgio, e a atriz hipnotiza a câmera.

É graças a eles que Sergio é um filme… bom. É bem produzido, e se você quiser conhecer a história dessa figura tão importante para diplomacia mundial das ultimas décadas, ele se presta a este objetivo. Só se lamenta a falta de profundidade da empreitada como um todo, ou a sensação de preguiça que domina a narrativa. Desde que o filme começa, já sabemos tudo o que vai acontecer nele, e esse fato não necessariamente decorre da história ser baseada em fatos reais. O problema é realmente o clichê, a cartilha, o formato que busca emocionar o espectador acima de tudo, em detrimento de profundidade ou ao menos um pouquinho de inovação. É um filme sincero, assim como os desempenhos dos seus astros, mas só essa sinceridade não consegue vencer a preguiça…

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