“The Aeronauts” traz como grande mérito celebrar a ciência através da busca incansável por mais conhecimento. Pode parecer pouco (e, de fato, é), mas, em uma época de terraplanistas, descrença em dados científicos sólidos relativos a aquecimento global e desmatamento, fora a completa loucura de se temer até vacinas, o filme disponibilizado no streaming da Amazon acaba sendo suficiente e mesmo necessário. 

Baseado em fatos parcialmente reais ocorridos na Inglaterra do século XIX, “The Aeronauts” acompanha a viagem de balão feita pela veterana no setor, Amelia Wren (Felicity Jones – personagem fictícia) e o cientista James Glaisher (Eddie Redmayne – personagem real). Ambos possuem objetivos diferentes: ela deseja quebrar o recorde de maior altura já alcançada e superar o trauma da morte do marido, ocorrida em uma aventura de balão anos antes, enquanto ele busca confirmar teorias científicas relativas ao clima e tempo, além de provar que a meteorologia era uma ciência tanto quanto qualquer outra, sendo possível sistematizá-la e prevê-la. 

Dirigido por Tom Harper (“As Loucuras de Rose”), “The Aeronauts” se alterna entre o que se passa no balão com a dupla em cenas de ação, enfrentando as dificuldades – frio, tempestades, problemas relativos à pressão atmosférica – e flashbacks sobre o passado dos personagens. Quando se concentra em ser uma aventura, o filme até se sai bem com momentos relativamente tensos, nos fazendo temer pelo destino dos personagens. Apesar de uma trilha sonora exagerada, as sequências da tempestade e com Amelia no topo do balão se beneficiam de ótimos efeitos visuais, maquiagem e montagem precisas. 

Por outro lado, o passado dos personagens não empolga pela completa falta de complexidade. James Glaisher, por exemplo, fica restrito ao drama do sujeito menosprezado por todos os colegas cientistas e até pela própria família, buscando uma chance de provar que suas teorias estão certas. Nada que não tenhamos visto nos irritantes filmes de superação. De resto, nada mais. Com um arco com mais potencial, Amelia também sofre pelo roteiro de Jack Thorne (“Extraordinário”) e do próprio Harper alongar excessivamente o trauma da morte do marido até o fim de “The Aeronauts”, perdendo o impacto gradualmente. Torna tudo ainda mais artificial o CGI gritante nos momentos menos acelerado, tirando o peso dramático das cenas.

Talvez a crença de que a química e o carisma da dupla Eddie Redmayne e Felicity Jones, reconhecida e premiada mundialmente por “A Teoria de Tudo”, fosse suficiente para segurar todo o filme, levou “The Aeronauts” a acreditar que dava para seguir viagem com um roteiro tão carente. Até consegue por se tratar de dois talentosos atores, mas, um pouco mais de densidade em James e Amelia teria tornado a experiência ainda mais recompensadora.

A ETERNA BUSCA POR CONHECIMENTO 

Ao longo de toda História, desde a era das cavernas com os primeiros homo sapiens até os dias atuais de hiperconectividade, o homem sempre se mostrou inquieto em uma busca na evolução constante para os obstáculos impostos pela Natureza ou para a solução de problemas que o afligiam. Da agricultura de subsistência passando pelas Grandes Navegações à era do Iluminismo até chegarmos nos avanços alcançados pela medicina nas últimas décadas mostra como a sociedade conseguiu avançar através da ciência e da inquietude por mais conhecimento – e também, claro, poder e dinheiro. 

Mesmo que idealizado como fazem 99,9% das cinebiografias, James Glaisher incorpora esta inquietude histórica da humanidade por mais e mais informações daquilo que o cerca. A perseverança e a crença da importância dos dados nunca antes obtidos chega ao ponto dele se colocar em segundo plano, como um soldado durante uma guerra. Não levar a roupa de frio necessária para não sobrecarregar o balão está entre estas medidas, uma decisão que terá preço caro no momento mais dramático de “The Aeronauts”. 

Para a turma que ainda não acredita em dados científicos e acha tudo uma bobagem sem lógica, ver a metodologia de Glaisher em cada apuração de dados é quase como uma tapa na cara. Durante grande parte do filme, o personagem de Eddie Redmayne permanece sentado anotando, escrevendo etapa por etapa as informações obtidas, o que leva Amelia Wren a se tornar a protagonista das ações para tirá-los das situações mais perigosas. 

Falando em Amelia, aliás, mais do que todo o conflito interno da personagem relacionado à morte do marido, destaca-se mesmo a determinação em quebrar barreiras. A gana por sempre querer ir mais alto cria uma aliança perfeita com a obsessão de Glaisher. Mesmo quando teme que estejam indo além do limite, ela não se intimida e arrisca as últimas cartadas. 

Chega a ser bizarro que, em pleno século XXI, precisemos reforçar que a ciência é peça-chave para a nossa evolução e a eterna busca por mais conhecimento seja inerente ao ser humano. Para tempos sombrios como os atuais, “The Aeronauts” até tem seu valor. 

‘Miss Juneteenth’: a busca pela construção do sonho americano negro

Durante uma conversa, o dono do bar em que Turquoise Jones (Nicole Beharie) trabalha afirma que o sonho americano existe, menos para os negros. Esse é um resumo do que aborda “Miss Juneteenth”, longa de Channing Godfrey Peoples. A diretora, que também assina o...

‘Judas e o Messias Negro’: um decepcionante bom filme

Digam o que quiserem do Judas Iscariotes, mas ele é o personagem mais interessante da Bíblia -  do ponto de vista dramático, claro. Porque drama é conflito, e Judas vivia em conflito, e isso faz dele a figura interessante já dramatizada e analisada várias vezes em...

‘Eu Me Importo’: o melhor trabalho de Rosamund Pike desde ‘Garota Exemplar’

Rosamund Pike é uma atriz interessante. Ela tem o talento, a competência como intérprete e a beleza, o pacote completo para virar mega-estrela. A inglesa fez papel de mocinha, esteve até em alguns filmes de ação, mas nunca chegou a dar aquele grande salto para o...

‘O Amor de Sylvie’: Tessa Thompson brilha em romance clichê

“A maioria das pessoas nunca encontra esse tipo de amor. Nem por um verão” Uma protagonista negra segura de si e disposta a lutar pelos seus interesses. Um amor que ultrapassa os anos e a distância. Por mais que isso soe piegas, tinha esperança que esse não fosse o...

‘Adú’: tramas demais prejudicam foco central de drama espanhol

Adú, produção espanhola da Netflix, é um tipo de obra audiovisual que o cinema sempre lançou, mas que vemos com certa frequência hoje em dia: o filme sobre um tópico social importante da atualidade, bem-produzido e bem fotografado, que visa, além de entreter, educar o...

‘A Escavação’: duas metades desequilibradas atrapalham drama

No drama A Escavação, da Netflix, tudo gira em torno de trazer coisas e emoções à superfície. A trama é baseada em fatos reais e reconstitui uma das mais importantes descobertas arqueológicas já feitas no Reino Unido, o “achado de Sutton Hoo”. Tudo começa quando a...

‘Palmer’: Justin Timberlake emociona em drama de fórmula infalível

Em Palmer, drama da Apple TV+ dirigido pelo ator e diretor Fisher Stevens, a proposta é lançar um olhar sensível sobre questões de gênero e de masculinidade. É a história de um homem endurecido de uma geração anterior confrontado pelo mundo moderno, e aprendendo a...

‘Wolfwalkers’: ótima animação sem medo de abordar a morte

Uma animação em 2D de um pequeno estúdio e com baixo orçamento. Essas não parecem ser as características de um filme premiado ou notório na temporada de premiações, mas ‘Wolfwalkers’ atende a todos esses requisitos com benefício de abordar temáticas mais adultas assim...

‘Malcolm & Marie’: egotrip de um diretor mimado dentro e fora das telas

Sam Levinson se empolgou. Após dois filmes pouco badalados - “Bastidores de um Casamento” (2011) e “País da Violência” (2018) - o filho de Barry Levinson (“Rain Man”) alcançou o sucesso de público e crítica com “Euphoria”, na HBO. Do auge da maturidade de seus 36...

‘Nomadland’: a jornada é mais importante que o destino

É uma terra fria a que vemos em Nomadland. No filme da diretora Chloé Zhao, o interior dos Estados Unidos é um espaço gelado e dilapidado. Ambientado alguns anos após a crise econômica de 2008, no filme acompanhamos a viúva Fern, interpretada por Frances McDormand,...