A Netflix é muito boa em fazer propaganda enganosa… Quem for assistir ao trailer da sua produção “Vozes e Vultos” imagina, logo antes de apertar “play” no filme, que vai ver um terror ou, ao menos, um suspense, algo intenso. Nada mais longe da verdade: o longa estrelado por Amanda Seyfried, no seu primeiro e decepcionante papel de protagonista após a aclamação merecida e a indicação ao Oscar por Mank (2020), é um filme de terror sem terror, um suspense sem empolgação. É um filme simplesmente chato, cujas duas horas se arrastam e que tenta fugir dos clichês do gênero terror apenas para cair em outros, de vários dramas domésticos e de filmes com enfoque espiritualista.

Na trama, ambientada no começo da década de 1980, Seyfried vive Catherine, artista, mãe e casada com o professor George (James Norton). Eles se mudam de Manhattan para o interior, onde George assume uma boa colocação. Ao se ver na posição de dona de casa, Catherine demora a se adaptar à sua nova casa e sua nova vida, e ainda por cima sofre com um distúrbio alimentar. Para piorar tudo, ela e sua filhinha começam a ter visões e a sentir cheiro de fumaça na casa, à noite. Com o tempo, ela descobre a história dos antigos moradores do lugar e também alguns fatos sobre o seu marido.

Na direção de Vozes e Vultos está o casal Shari Springer Berman e Robert Pulcini. Num passado já um pouco remoto, eles realizaram uma pequena joia, um filme realmente muito especial: Anti-Herói Americano (2003), com Paul Giamatti. É triste vê-los agora, depois daquela pequena obra-prima, sofrendo com o roteiro ruim adaptado por eles mesmos do best-seller “All Things Cease to Appear” de Elizabeth Brundage. Percebe-se que o texto de Vozes e Vultos tenta trabalhar várias temáticas dentro da história: diferentes crenças sobre a possibilidade de vida após a morte, problemas psicológicos, relacionamento abusivo, violência contra mulheres… Mas o resultado acaba sendo um filme que atira para todos os lados, sem acertar nenhum alvo em particular.

A narrativa parece que não avança durante um bom período da duração do filme. Berman e Pulcini fazem um longa preguiçoso que demora uma eternidade para começar – sério, praticamente a primeira hora é só ambientação e apresentação de personagens – e que não se compromete, ou seja, não abraça de verdade nem o terror nem o drama. A parte de terror não desperta medo nem curiosidade: Só vemos as mesmas coisas de sempre, rostos no escuro e móveis batendo, além de uma constrangedora cena de sessão espírita. E a parte dramática também é um amontoado de clichês: marido infiel, revelações em momentos-chave, discussões… Para piorar, o roteiro faz da protagonista Catherine uma figura muito passiva, que sente ou vê as coisas acontecendo ao seu redor e leva muito, muito tempo para agir. Se a própria protagonista do filme não se importa com seus problemas, fica difícil para nós, espectadores, nos importarmos.

ANTI-FILME

É um filme também quase “radiofônico”, no sentido de que os diretores se limitam a enquadrar pessoas falando. Parece que estamos vendo uma produção do canal Lifetime: é praticamente um anti-filme. Não há criatividade com a câmera, não há uma direção de arte interessante, nada se destaca. Quando já depois da metade chega uma cena em que se vê um movimento de câmera revelando um personagem num balcão de restaurante que não tínhamos visto anteriormente, quase dá vontade de aplaudir esse momento, pelo simples fato dele demonstrar que os diretores estavam acordados quando essa cena foi gravada…

Os poucos momentos de vida dentro do filme se devem aos atores – todos muito acima do material – e o elenco reunido aqui é muito bom: Natalia Dyer, F. Murray Abraham, Rhea Seehorn e até Karen Allen – como é bom revê-la… Mas mesmo eles são, no fim das contas, desperdiçados. Dyer aparece por algumas cenas e depois volta no fim para reagir por dois segundos a um evento. Abraham está no filme para fornecer exposição sobre a temática espiritual do longa – ele é tão bom que faz isso com classe… E é triste ver Seehorn interpretando mais um dispositivo de trama do que uma personagem: ela está na narrativa só para fechar pontas soltas. Seyfried e Norton estão ok, mas seus personagens são muito estereotipados para funcionar – a transição de “marido canalha” a “maníaco homicida” do George é algo que nenhum ator poderia retratar a contento e a partir da metade do filme se torna até engraçada…

Quando começamos a ver enquadramentos cafonas com espíritos vestindo branco e de mãos dadas, percebemos que o longa foi de vez para o buraco. E o buraco é mais fundo, pois pouco depois Vozes e Vultos se conclui com de modo abrupto e risível, com uma cena parecendo saída de uma novela da Record. Com esse desfecho brega, Vozes e Vultos se configura como outra arapuca banal e anti-cinematográfica da Netflix, um filme que até tem boas intenções, mas a estrada que leva ao purgatório do telespectador está cheia delas.

Ao menos, o trailer é legal.

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