Meu Passado me Condena 1 e 2”, “Ponte Aérea” e “Uma Namorado para a Minha Mulher”.

Todos os estes filmes são sucessos recentes da comédia romântica brasileira dirigidas pela Júlia Rezende. E ela está chegando nos cinemas com “Depois a Louca Sou Eu” com a Débora Falabella.    

Baseado no livro homônimo escrito por Tati Bernardi, a produção traz a história de Dani (Falabella) que, desde a infância, lida com todo tipo de crise de ansiedade. Já adulta, ela recorre a terapias e medicações para conviver não só com Sílvia (Yara de Novaes), sua mãe superprotetora, mas todos os demais que a cercam.    

Em entrevista para o Cine Set, Júlia fala sobre o processo de adaptação para o filme, o trabalho com Débora e o espaço das mulheres na direção de cinema no Brasil.   

Cine Set – “Depois a Louca Sou Eu” é uma produção que trata sobre o processo de ansiedade, mas, há uma dosagem entre comédia e drama e é interessante como isso flui. Como foi chegar a isso tanto na narrativa quanto visual?    

Júlia Rezende – Esse tom está presente no livro da Tati Bernardi. Ela é uma autora que tem muita propriedade para falar de ansiedade por passar por isso, mas, sempre rindo de si mesma. A Tati faz com que entremos neste assunto, que pode ser muito delicado e espinhoso, rindo.   

Para o filme, tentei justamente manter este humor do livro sem nunca perder o respeito pelo tema das crises de ansiedade e de pânico. Isso porque acredito que o humor pode ser uma ponte que facilita a comunicação. Quando um assunto é tabu, às vezes, falar dele de uma forma bem-humorada torna possível quebrar as barreiras e as resistências que se pode ter em um primeiro momento. Em “Depois a Louca Sou Eu” buscamos fazer isso através da estética, roteiro, atuações.   

Um aspecto interessante que usamos foi quando toda vez que a protagonista estivesse tendo um ataque ou uma crise, ela viveria aquilo de forma dramática, porém, a narradora já tem distanciamento suficiente para contar a história rindo. Representa bem este mix de drama e humor.  

Cine Set – Queria que você falasse sobre dois pontos: primeiro, a Débora Falabella. Como você chegou ao nome e a viu como a atriz ideal para interpretar a Dani? E a segunda é sobre a Tati Bernardi, autora do livro. Você chegou a conversar com ela e de que modo este bate-papo contribuiu para fazer o filme?   

Júlia Rezende – A Tati é uma parceira antiga, fizemos “Meu Passado me Condena 1 e 2” juntas em que ela foi a roteirista. Somos amigas e temos uma relação de trabalho muito bacana. Quando ela me contou que estava escrevendo o livro, fiquei muito curiosa e pedi que me mandasse para ler. Ela enviou antes da publicação. Virei uma madrugada lendo. Liguei horas depois já sugerindo fazer um filme. Disse para ela que essa é uma história que retrata a nossa geração muito bem.  

Começamos a formular o roteiro até que certo dia ela me contou que a Débora havia lido o livro e adorado, se identificado com a personagem. Foi quando disse: ‘tem que ser a Débora’. Eu já era uma grande fã e tenho enorme admiração pela carreira dela, especialmente, no teatro. Liguei antes mesmo de ter o roteiro fechado e ela topou só com o projeto em mãos. Fiquei honrada por ser uma atriz gigante e muito maravilhosa de trabalhar junto. Dividir o set com ela todo dia foi uma alegria.   

Cine Set – Por um triste acaso do destino, o filme será lançado em um mundo completamente diferente em que estes problemas estão aflorados pela pandemia. Como você acha que o filme chega dentro deste contexto e o que pode transmitir para as pessoas? 

Júlia Rezende – Esse ano tem sido muito duro, angustiante para todos. Não conheço ninguém que não passou 2020 sem ansiedade. Logo, falar de saúde mental se tornou ainda mais relevante neste momento. Acredito que “Depois a Louca Sou Eu” ajuda muito a desmistificar este tabu de preconceitos com terapia, de ir ao psiquiatra ou tomar uma medicação quando for preciso. O filme pode criar um diálogo entre quem passa por isso se permitir comunicar melhor e quem está ao redor para que consiga compreender o que está acontecendo.  

Cine Set – Júlia, nos EUA, é uma dificuldade vermos mulheres na direção das produções que se esperam ser campeãs de bilheteria. No Brasil, a gente tem a tua carreira e a Susana Garcia que recentemente fez “Minha Mãe é uma Peça 3”. Gostaria que você falasse sobre essa diferença e o espaço da mulher como diretora de cinema no Brasil. 

Júlia Rezende – Outro dia saiu uma matéria dizendo que 16% dos filmes de maiores bilheterias do cinema americano no último ano foram dirigidos por mulheres. Isso era visto como uma celebração. Porém, considero 16% risível, afinal, o que são 16% contra os outros 84%? 

‘Ah, antigamente, o índice era de 12%, ou seja, estamos evoluindo’, dirão algumas pessoas. Verdade, mas, ainda muito devagar. Já passou da hora de pararmos de comemorar estes números muito pequenos.  

Porém, ao mesmo tempo, acho complicado ficar pensando em um cinema de mulher ou de homem. Não se trata do gênero; temos tanta capacidade quanto qualquer pessoa. O ideal é conquistar o espaço a tal ponto para que possamos parar de falar sobre isso.  

Fico muito orgulhosa de que os meus filmes tenham alcançado um bom resultado de bilheteria e, sobretudo, que eu esteja conseguindo filmar ao longo destes anos. Também me sinto muito comprometida em trazer outras mulheres para a direção, roteiro e as diversas áreas técnicas. Cada vez que uma de nós está fazendo um projeto, consequentemente, acabamos puxando outras junto. 

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