Mar Adentro (2004), do diretor chileno Alejandro Amenábar (Os Outros, Vanilla Sky), é o tipo de filme que a gente não esquece, seja pelos temas polêmicos abordados ou pela atuação magistral e profundamente tocante de Javier Bardem. É uma verdadeira obra-prima do cinema mundial, que nos toca no fundo da alma.

O filme retrata a história de Ramón Sampedro, um ex-marinheiro e escritor de Porto del Son (região da Galícia, Espanha) que desfrutava da vida ao máximo, viajando pelo mundo e conhecendo várias pessoas. Aos 25 anos, um trágico acidente mudou sua vida por completo. Um salto mal calculado de um rochedo para o mar o deixou tetraplégico. Estava distraído e não percebeu a maré baixa. Mergulhou e bateu a cabeça na areia, danificando a coluna cervical permanentemente.

A liberdade era a razão da vida de Ramón. Depois do acidente, essa razão desapareceu. Em suas próprias palavras,“sem liberdade, só há migalhas… não vale a pena viver” . O que se sucedeu foi uma batalha de 28 anos que Ramón travou com a justiça espanhola para que pudesse por fim à vida através do suicídio assitido.

integração plena entre corpo e mente

Um dos pontos fortes de Mar Adentro, é a maneira singular de como Ramón lida com a vida em circunstâncias tão difíceis e como se relaciona com diversas pessoas que cruzam seu caminho. O filme não é sobre a eutanásia em si, são poucos os momentos em que se debate a questão legal do processo. Em momento algum o filme faz apologia ao suicídio assitido e não impõe nenhuma posição em particular sobre o assunto – não há certo ou errado. Mergulhamos adentro no mar e na vida de Ramón, no que ele era e no que se tornou. Criamos uma empatia enorme por ele e pela sua causa depois que, ao decorrer do filme, passamos a entender mais a fundo as razões pelas quais ele não queria mais viver.

Apropriando-nos de um conceito caro para a Psicologia Humanista, mais especificamente a Abordagem Centrada na Pessoa, idealizada pelo norte-americano Carl Rogers, destacamos Ramón Sampedro como um exemplo muito vivo de alguém que seria extremamente congruente. Ser congruente é ser totalmente consciente do que sente, numa integração plena entre corpo e mente. Como consequência, pode-se optar em expressar tais percepções. Como Ramón bem exemplifica, é ser uma pessoa integrada com a sua experiência real, representada de forma precisa em sua consciência; é ser real e genuíno em suas escolhas.

Outro ponto forte e crucial da obra é que ela mostra exclusivamente a situação individual de Ramón Sampedro e não de outros tetraplégicos de uma maneira geral. Ramón se refere sempre à sua situação em particular: o que ele sente, como se sente, o que deseja. Em nenhum momento, “Mar Adentro” e seu protagonista defendem a eutanásia como uma solução desejável (ou aceitável) para as vítimas de doenças degenerativas ou de paraplegia. Nas palavras do próprio Ramón: “Quem está falando de tetraplégicos? Estou falando de mim!”. Aqui temos um dos debates propostos pelo filme: outras pessoas, nessas mesmas condições, conseguem – e querem – viver uma vida feliz e prazerosa. Um padre, também tetraplégico, tenta convencer Ramón de que vale a pena viver. Quem não se lembra de Christopher Reeve, o eterno Super-Homem? E Laís Souza, ex-ginasta brasileira? Ambos adotaram uma postura positiva diante dos acidentes que sofreram e os exemplos deles trouxeram (e trazem) esperança a tantas outras pessoas que se encontram na mesma situação. Por que Ramón não conseguiu ser da mesma maneira? Era um homem extremamente inteligente, que conquistava todos que conhecia, que escrevia poemas, que mostrava às pessoas as inúmeras possibilidades que a vida poderia oferecer… Tinha a família que o cuidava com tanto amor e carinho, colocando o bem-estar dele acima de tudo. Então, por que morrer? Vamos saber por ele mesmo:

“Bom, eu quero morrer porque sinto que a vida para mim, neste estado, não é digna. Entendo que outros tetraplégicos possam se ofender por eu dizer que não há dignidade nisso, mas eu não estou julgando ninguém. Quem sou eu para julgar aqueles que querem viver? Então não me julguem ou ninguém que queira me ajudar a morrer (…) Uma vida sem liberdade não é uma vida (…) viver é um direito, não uma obrigação”. (Mar Adentro)

Infelizmente para Ramón, viver daquela maneira simplesmente não valia a pena.

RESPEITO PELOS OUTROS E SUAS ESCOLHAS

A interpretação de Javier Bardem é de um brilhantismo e naturalidade tão espetaculares que, em nenhum momento, duvidamos que ele não é ninguém mais do que o homem paralisado na cama. Bardem só pôde usar o rosto para transmitir as mais profundas emoções e o fez de uma forma extraordinária. Conseguimos sentir tudo que ele sente durantes as duas horas de duração do filme. A transformação do ator foi total e contou em parte com a ajuda da família Sampedro, principalmente da cunhada de Ramón, Manuela. O resultado final foi tão impressionante que a própria Manuela afirmou que estava vendo Ramón na tela.

Toda a sensibilidade do filme é resultado das fantásticas atuações de todos os atores, do design de produção, da belíssima cinematografia de Javier Aguirresarobe (Vicky Cristina Barcelona) e claro, da direção impecável de Alejandro Amenábar. O diretor foi bem cauteloso em alternar cenas externas e internas, mostrando histórias paralelas às de Ramón, causando um equilíbrio harmonioso. Assim, evitaram-se possíveis sensações de monotonia e até mesmo de claustrofobia por parte dos espectadores caso tivéssemos que acompanhar toda a história da obra somente dentro do quarto do protagonista. Para nós, mesmo com um tema considerado polêmico e pesado, o filme torna-se leve por utilizar de um humor sutil muito bem empregado e que faz os espectadores vez ou outra darem boas risadas.

Para terminar, façamos nosso registro daquela que parece ser, na nossa opinião, uma das mais belas cenas já vistas no cinema: o vôo imaginário de Ramón, que através de uma câmera que acompanha seus olhos, viaja por montanhas e vales até se chegar ao encontro do amor, representado na figura de Julia.

Mar Adentro é um grito do fundo do coração pela vida e pelo amor, e que tenta alcançar a compaixão humana e a compreensão das emoções. Se pudéssemos escolher uma palavra-chave para a obra, seria respeito. Respeito que deve-se ter pelo outro e por suas escolhas O filme de Amenábar traz vários debates – alguns polêmicos outros nem tanto – e reflexões sobre o significado da vida. É um filme profundamente humano e sensível, impossível não se envolver e se comover.

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