Dentre os muitos lançamentos da temporada de premiações, sempre temos uma ‘queda’ e um interesse maior pelos filmes de língua não inglesa. Esse interesse já existe há muito tempo e se intensifica cada vez mais com o passar dos anos, devido principalmente ao realismo e sensibilidade de como situações do dia-a-dia são mostradas de maneira direta, simples e, muitas vezes, intensa. Bullying, relações extraconjugais, divórcio, consequências e marcas da guerra, pobreza e relacionamentos familiares são alguns de muitos temas retratados com brilhantismo e humanidade profunda em obras como Corações Livres (2002), Hope (2019), Dias Melhores (2019) e Quo Vadis, Aida? (2020).

O Agente Duplo (Chile, 2020), de Maite Alberdi, segue essa linha destas obras-primas mostrando a empatia em seu grau máximo, se assim podemos dizer. Quando pensamos na palavra empatia em si, seu significado mais comum nos vem à cabeça: colocar-se no lugar do outro, tentar ver uma determinada situação pelos olhos do outro. O conceito, porém, é mais abrangente e se estende também em escutar, de maneira sincera e verdadeira, o que o outro nos tem a dizer.

A EMPATIA DE OUVIR

Aqui abrimos espaço para uma rápida reflexão sobre tal tema. Percebemos desde o ano passado, principalmente em virtude da pandemia e das mudanças evidentes no comportamento humano, que a empatia caiu na fala popular de uma maneira muito banalizada e corriqueira, destituída de seu sentido mais puro e também mais complexo. Se considerarmos a empatia como uma dor que não é minha, mas que me dói, com a clareza de que entro no mundo do outro como se fosse ele, mas sem sair do meu, poderemos apenas aproximar do que de fato alguém que não sou eu, sente.

O filme de Alberdi é um documentário diferente do padrão em que estamos acostumados. Geralmente vemos entrevistas, bastidores de algum evento ou a voz de um narrador nos contando os acontecimentos e seus desdobramentos. Em “O Agente Duplo”, o octagenário Sergio Chamy surge pesquisando anúncios de emprego em um jornal local, o que já é incomum pela idade do protagonista, um viúvo muito simpático e que não tem muito conhecimento tecnológico. Sergio é contratado por Rómulo Aitken, dono de uma agência de detetives particulares. A missão é até simples: entrar em um asilo e observar se uma de suas residentes está sendo mal tratada, enviando relatórios diários a Rómulo. Para que isso seja feito, Sergio precisa aprender como usar a câmera do celular, gravar e enviar mensagens através do WhatsApp, além de usar óculos especiais para registrar imagens. Esse aprendizado faz parte do momento cômico do filme, juntamente com as cenas em que Sergio, à la James Bond, grava conversas e imagens à distância do que se passa dentro do asilo.

Através dessas conversas com os moradores, em sua maioria mulheres, podemos perceber a essência de “O Agente Duplo”. Sergio chega e já chama a atenção logo de cara pelo seu cavalheirismo, simpatia e educação. O que se inicia como uma “missão” vai se tornando, aos poucos, uma experiência única tanto para Sergio como para as senhoras que passam a interagir com ele. Sergio começa a se apegar com os outros idosos pois vivia sozinho e fazia as mesmas coisas todos os dias; no asilo ele se diverte, conversa e se distrai. O senhor cativante e gentil dá uma nova vida ao lugar, trazendo alegria e compreensão a pessoas que há muito tempo as haviam perdido.

O contato com as moradoras vai se tornando mais profundo e elas vão se abrindo com Sergio, que se torna um tipo de confidente. Sergio é extremamente paciente e mostra uma empatia fora do normal, uma coisa muito bonita de se ver e que nos chamou bastante a atenção. O carinho que todos na casa tem por ele é o reflexo direto de como ele trata os mesmos. Se preocupa verdadeiramente com o bem-estar e a saúde mental de suas novas amigas e chega a pedir ao chefe Rómulo que envie fotos da família da senhora Rubira (com Alzheimer’s), que anda triste e perdida por não se lembrar das coisas. O conforto que Sergio dá a ela, falando “pode chorar. Não se preocupe. Vai te tranquilizar” é de encher o coracão. A emoção de Rubira ao reconhecer a família nas fotos é uma das cenas mais emocionantes do filme. Além disso, Sergio adquire – o que era de se esperar – o título de galã do asilo pelo carisma, simplicidade e disponibilidade genuína para o outro.

ENCONTRO DE DOIS

A empatia, mesmo que possa ser aperfeiçoada com prática, exercícios, tem também algo de mais natural em algumas pessoas. Para essas, se colocar no lugar do outro e experimentar tal mundo como se fosse seu, parece um dom. Percebemos como citado acima essa virtude claramente desenvolvida em Sergio. A frase transcrita a seguir, de Jacob Levy Moreno, um dos representantes do psicodrama – uma abordagem psicológica –, nos parece adequada para ilustrar o que Sergio faz com as pessoas que encontra: “Um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus; E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; Então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus”.

As conclusões finais de Sergio, antes de deixar o asilo, são tão sinceras e resumem tão adequadamente o propósito do filme que achamos pertinente transcrevê-las aqui:

“Rómulo, sei que pediu fatos objetivos e não opiniões, mas vou dar a minha mesmo assim; não vou ficar calado. Os residentes se sentem solitários. Ninguém recebe visitas e alguns foram abandonados. A solidão é a pior coisa desse lugar. Não há nenhum crime para a cliente denunciar. A mãe dela está definitivamente em boas mãos. O ‘alvo’ precisa de cuidados especiais, que não sabemos se a cliente pode dar. Não entendo qual é o sentido dessa investigação. A cliente deveria ela mesma cuidar da mãe (…).Por último: quando é que vou embora? Me diga logo. Quero voltar para casa. Sergio”.

O pretexto em assegurar se uma idosa estava sendo mal tratada foi só uma maneira em que Maite Alberdi encontrou para mostrar a triste realidade de um asilo. Através dos olhos e da empatia de Sergio, o documentário retrata as vidas de pessoas que a sociedade “dispensa” e ignora; que são mantidas isoladas por serem muito dependentes e por “dar muito trabalho”. Há ainda um viés psicológico muito curioso sobre a conclusão de Sergio: o pedido de investigação da filha tratava-se, na verdade, de uma projeção da culpa que sentia por ter deixado a mãe sozinha, sem sequer tê-la visitado durante o período em que Sergio esteve lá.

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