Como apontei no podcast sobre ‘Opiniões Impopulares do Cinema’, do Cine Set, posso ter exagerado em declarar a adaptação do Hulk de 2003 como uma pequena obra-prima – não me culpo por ser passional ao defender as coisas que gosto. Porém, não abro mão de declará-lo uma pérola, ou melhor, dizendo esmeralda, que merece reconhecimento e que Martin Scorcese não acusaria o filme pela alcunha de atração de parque temático (e a ironia é que o personagem é).

Dirigido pelo Ang Lee (sim, ele deu uma escorregada feia no último ano com “Projeto Gemini”), o taiwanês, na época, já era respeitado e colhia bons frutos com adaptações como “Razão e Sensibilidade” e “O Tigre e o Dragão”, ambos indicados a Melhor Filme.

Criada por Stan Lee e Jack Kirby, a adaptação era bastante aguardada em 2003, afinal, o Gigante Esmeralda já era conhecido pelo público não apenas por conta do gibi, mas também da antiga série de tv (possuía uma das trilhas mais tristes de todos os tempos). Com um mundo redescobrindo as adaptações de gibis para as telas após a tragédia “Batman e Robin” e os sucessos dos filmes de Homem Aranha, Hollywood ainda estava tateando essa nova safra e ainda era possível encontrar propostas arriscadas. Hulk foi, definitivamente, uma delas.

No filme, acompanhamos Bruce Banner (Eric Bana), um talentoso cientista que, apesar de um futuro promissor e de ter uma companheira (Jennifer Connelly) que o apoia, vive tendo sonhos relacionados ao seu passado misterioso que o tiram do foco. Ocorre, então, a história que todos já conhecem: acidente em laboratório, exposição à radiação e criatura surgindo em momentos de grande irritação. Neste momento, entram em cena o sogro, o militar General Ross (Sam Elliott), e o rival Talbot (Josh Lucas). A dupla decide capturar a criatura para aplicação militar. No meio de tudo isso, Bruce ainda reencontra o pai (Nick Nolte), um homem com atitudes suspeitas. O fruto desses acontecimentos libera em Bruce sentimentos e memórias antes reprimidas.

ESPÍRITO DE QUADRINHOS NA VEIA

Essas pequenas subtramas fazem a diferença e elevam a ambição e densidade dramática da obra. Ao transformar seu Hulk em um estudo de personagem, Ang Lee, mais uma vez, mostra sua excelente habilidade com dramas. Temos um filme que fala de sentimentos reprimidos, abandono parental, abuso, violência doméstica e tudo em um pano de fundo, vejam só, de fantasia.

Mesmo assim, “Hulk” não esquece suas origens: com uma edição ágil e toques bastante criativos, Lee e sua equipe fazem questão de lembrar que estamos falando de uma adaptação de gibi. E isso fica claro nas cores e escolhas visuais: o filme chega ao ponto de em cena simular uma troca de página. dividir tela como se estivéssemos lendo uma HQ de origem, além de fontes, cores e outras características. Fora a trilha sonora de Danny Elfman que evoca um clima de tensão e ficção científica B.

Outro elemento bastante homenageado no longa é a inspiração que a Universal traz ao projeto. Com os seus famosos e clássicos filmes de monstros, “Hulk” entraria facilmente em um panteão com figuras como o Monstro da Lagoa Negra e o monstro de Frankstein. Andando em uma linha tênue e escapando por pouco do ridículo em alguns momentos, “Hulk” não tem medo de arriscar: a polêmica cena dos cachorros é um desses momentos, sendo o Poodle Hulk merecendo reconhecimento e não escárnio, fora claro seus grandes saltos, aqui soando absurdos e cartunescos.

Com um elenco comprometido, a produção consegue ter atuações acima da média de muitos filmes do gênero. O roteiro ajuda ao estabelecer como principal conflito as relações paternais. Tanto Bruce como Betty sofrem em relação aos seus pais e são vítimas dos mesmos, incluindo, os atores. Eric Bana é um bom Bruce Banner, mas apagado em cena quando confrontado por Sam Elliott (Ross) ou Nick Nolte (seu pai).

TRISTE LEGADO

O grande problema de “Hulk”, enfim, fica talvez por conta da quebra de expectativa do público. Por se tratar de um filme de uma criatura que gosta de destruir e esmagar as coisas saindo no quebra a quebra com algum grande vilão, o público provavelmente pode ter se decepcionado por ter um filme preocupado em desenvolver e discutir a natureza trágica de seus personagens.

Mesmo que “Hulk” tenha bons momentos de ação como, por exemplo, a perseguição do deserto e a fuga do laboratório, o confronto final pecou. O vilão Homem-Absorvente aqui teve uma origem diferente e a identidade trocada, mas, a aplicação de suas habilidades fica equivocada.

Isso sem contar o Hulk digital que não agradou parte do público. É preciso reconhecer que o visual do personagem melhora no decorrer do filme, mas é natural a estranheza que ele causa em sua primeira aparição.  Mas, não deixa de ser interessante Ang Lee economizando nas explosões e dando destaque mais na brutalidade e ferocidade da criatura. Fico imaginando o que alguém sem cérebro e tato (oi Sr.Bay) faria, ainda mais contando com o exército a disposição.

A entrega de um projeto desse tamanho para um diretor tão autoral quanto Ang Lee influenciou as decisões da Marvel para o futuro. Minha teoria é que antes da criação do próprio estúdio, a Casa de Ideias usou a experiência com o filme do Vingador mais forte para determinar como seriam suas relações com seus diretores. Não é de hoje que muita gente se queixa da falta de ousadia da produtora em muitos projetos e o resultado da bilheteria do Hulk foi uma delas. O filme não foi um fracasso de bilheteria, mas ficou bem abaixo do esperado se comparado ao Homem Aranha da Sony no ano anterior. Hulk de Ang Lee é um filme que merecia mais consideração. Lúdico, divertido, destruidor e ironicamente com cérebro.

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