A busca pela realização de um sonho é um tema bastante recorrente no cinema, especialmente em Hollywood. Ao adotar um tom mais realista, fugindo dos clichês e invertendo as expectativas do público, o filme britânico “As Loucuras de Rose” (“Wild Rose”, no original em inglês) torna-se um ponto fora da curva. E é justamente por isso que o longa independente vem colecionando elogios da crítica desde sua estreia no Festival de Toronto de 2018.

Com uma direção sensível de Tom Harper, o enredo conta a história da jovem Rose-Lynn Harlan (Jessie Buckley), recém-saída da prisão após ter cumprido pena de um ano por porte de narcóticos. Aos 23 anos de idade e com dois filhos para criar, seu sonho é sair da cidade escocesa de Glasgow e se tornar uma famosa cantora de country em Nashville, Tenessee (EUA).

Porém, Rose-Lynn é forçada por sua mãe, Marion (a duas vezes indicada ao Oscar, Julie Walters) a encarar responsabilidades mais urgentes e arruma um emprego como diarista em uma mansão. O que a moça não esperava é que iria surgir em seu caminho alguém disposto a investir em seu sonho, o que faz com que ela tenha de escolher entre a família e o estrelato.

“SE VOCÊ TEM VOZ, TEM ALGO A DIZER”

O roteiro escrito por Nicole Taylor guarda algumas semelhanças com o sucesso hollywoodiano “Nasce Uma Estrela”, no qual a protagonista Ally (Lady Gaga) batalha pelos mesmos objetivos. A diferença é que, em “As Loucuras de Rose”, a aspirante a cantora não encontra um par romântico e nem o seu sucesso chega de forma tão grande e meteórica.

A roteirista acerta em dar todo o protagonismo para a figura feminina. Os homens não tem muita importância na história e nenhuma mulher depende deles para nada. Rose os enfrenta de igual para igual e não leva desaforo para casa; sua mãe é uma viúva que segura sozinha a barra de trabalhar fora e ainda cuidar dos netos enquanto a filha está presa; e sua patroa é retratada como uma mulher negra e bem-sucedida, algo não muito comum no cinema.

É válido mencionar a conturbada relação de Rose e Marion, que culmina em um emocionante momento de reconciliação entre mãe e filha no ato final. Ponto para o desempenho brilhante de Julie Walters, que consegue deixar sua marca nas poucas cenas em que aparece.

Por outro lado, a história peca em retratar a maternidade de Rose como um grande empecilho para sua realização profissional, algo discutível. Também chega a soar inverossímil a generosidade de Susannah (Sophie Okonedo), patroa da protagonista. A narrativa ganha contornos de contos de fadas às avessas quando a patroa acredita tão rapidamente no potencial de sua empregada que se empenha em ajudá-la a realizar o seu sonho.

UMA FORÇA CHAMADA JESSIE BUCKLEY

Revelada em um show de talentos britânico e destaque da série “Chernobyl” (HBO, 2019), a cantora e atriz irlandesa Jessie Buckley defende sua anti-heroína com uma força avassaladora. Repleta de nuances, Rose é determinada e, em outros momentos, totalmente perdida. Muitas vezes direta e grosseira, mas, igualmente, tímida e sensível. Sua devoção pelo country está estampada na pele: ela carrega tatuada no braço a frase “três acordes e a verdade”, definição do célebre compositor Harlan Howard para o gênero country.

Pelo papel, Jessie Buckley recebeu uma indicação ao BAFTA, venceu prêmios nos festivais de Dublin e Newport, e já é uma das possíveis candidatas ao Oscar 2020. Ao cantar ao vivo praticamente todas as faixas da trilha sonora, que mescla repertórios de artistas consagrados e canções originais como a belíssima “Glasgow (No Place Like Home)”, Jessie se aproxima do estilo de ícones como Dolly Parton, Patsy Cline e Loretta Lynn.

Inclusive, é impossível assistir “As Loucuras de Rose” sem notar referências à cinebiografia de Loretta, “O Destino Mudou a Sua Vida (Coal Miner’s Daughter)”, que rendeu o Oscar para a performance antológica de Sissy Spacek em 1981.

Merece destaque a fotografia de George Steel, que trabalha com cores vibrantes que envolvem o espectador, principalmente nas cenas em que a protagonista solta a voz nos palcos. Os planos fechados ajudam a aumentar a intimidade com os personagens e seus dramas.

No Brasil, o filme está em cartaz nos cinemas desde o dia 3 de outubro pela distribuidora Diamond Films. Como é comum por aqui, o título original “Wild Rose” (rosa selvagem, em tradução literal) foi pessimamente traduzido. Primeiro, porque “As Loucuras de Rose” remete à comédia, coisa que o filme está longe de ser. E também por não combinar com a personagem, já que de louca ela não tem nada, apenas insiste em se rebelar contra os padrões que tentam lhe impor.

A despeito disso, “As Loucuras de Rose” é um pequeno e poderoso drama musical sobre sonhos e renúncias, que deixa um recado àqueles que almejam chegar a um lugar que, em princípio, parece impossível: “quando você enfia algo na cabeça, pode fazer qualquer coisa.”

‘Subsolo’: deliciosa ironia sobre o universo das academias

Lembra quando o presidente Jair Bolsonaro, no meio da pandemia da COVID-19 com mortes superiores a 1000 por dia, resolveu decretar que academias eram atividades essenciais? A surreal decisão parece saída do roteiro de “Subsolo”, animação satírica da dupla Erica...

‘Inabitável’: vamos fugir deste lugar?

‘Brasil 2020, Pouco Antes da Pandemia’.  Não é à toa este letreiro ser a primeira informação a surgir na tela no início de “Inabitável”: durante seus 20 minutos, o curta pernambucano apresenta o retrato de um país marcado pela violência e intolerância religiosa...

‘Por que Você não Chora?’: boa intenção não salva filme péssimo

Sabe aquele ditado popular: ‘de boas intenções, o inferno está cheio’? Pode ser cruel, eu sei, mas, cabe à perfeição para definir o fraquíssimo “Por que Você Não Chora?”. Escolhido como o filme de abertura da mostra competitiva de longas-metragens nacionais do...

‘Receita de Caranguejo’: metáforas sobre o luto

Baseado em memórias de infância da diretora e roteirista Issis Valenzuela, “Receita de Caranguejo”, selecionado para a mostra competitiva de curtas-metragens nacionais do Festival de Gramado 2020, aposta em simbolismos e metáforas com a vida marinha para abordar o...

‘4 Bilhões de Infinitos’: homenagem ao cinema e a esperança de dias melhores

Cordisburgo ficou conhecida nacionalmente por ser a terra natal do escritor Guimarães Rosa. Recentemente, a cidade mineira, distante 96,9km em linha reta de Belo Horizonte, virou cenário de uma pentalogia de outra cria da terra, o diretor Marco Antônio Pereira. Com...

‘Queen & Slim’: Black Lives Matter em estética arrebatadora

Vencedora de dois Grammys pela direção do clipe “We Found Love”, de Rihanna, e o álbum visual “Formation”, de Beyoncé, Melina Matsoukas constrói um road movie pautado em violência, intolerância e reencontros em sua estreia na direção cinematográfica. “Queen &...

‘Memories of My Body’: ode à existência de um corpo em plenitude

Pode soar como uma frase tirada diretamente de um livro de mindfulness (técnica de atenção plena), mas de uma forma ou de outra, a maioria das experiências de uma pessoa é mediada pelo corpo. Conduzido desta forma de maneira poética, “Memories of My Body”,...

‘Invasão Zumbi 2: Península’: terror caça-níquel made in Coreia

Em nenhum outro gênero do cinema se produzem tantas continuações como o terror. Elas são feitas porque é um bom negócio: filmes de terror geralmente são baratos, e há o reconhecimento da marca. Quando é lançado e causa impressão junto ao público, ele vira uma marca, e...

‘Estou Pensando em Acabar Com Tudo’: estilo de Kaufman ao ponto da exaustão

Tem uma expressão que meu colega crítico Ivanildo Pereira cita em seus textos e encaixa perfeitamente para descrever Charlie Kaufman: “verborrágico”. O premiado roteirista e diretor é um artista repleto de personalidade e que apresenta temas recorrentes em suas obras...

‘Narciso em Férias’: a violência brasileira em resposta à poesia

Os 54 dias das prisões de Caetano Veloso e Gilberto Gil, entre dezembro de 1968 a fevereiro de 1969, não apenas simbolizaram o mais claro sinal do endurecimento contra a classe artística e intelectual promovido pela ditadura militar no Brasil após o Ato Institucional...