O diretor chileno, Felipe Ríos Fuentes, lançou seu primeiro longa da carreira, “El Hombre del Futuro”, na mostra competitiva do Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary 2019. A produção recebeu uma menção especial do júri por conta do emocionante desempenho da atriz Antonia Giesen – intérprete de uma filha com pouco contato com o pai no gelado inverno do deserto chileno.  

Nesta entrevista, Ríos fala da natureza pessoal do projeto e o processo de realização em meio ao turbulento clima político na América Latina. 

Cine Set – Você vem da publicidade e das artes visuais. Como foi o seu processo criativo para a estreia na ficção? 

Felipe Ríos Fuentes – Sou muito ligado ao mundo das artes visuais. Apesar do fato de ter feito uma faculdade de cinema, encontrei muita inspiração para “The Man of the Future” junto aos importantes artistas chilenos com quem trabalhei. Eu acredito que há uma liberdade enorme que me inspira muito a trabalhar em qualquer forma do audiovisual.  

Fazer um filme de estreia na América Latina sempre tem a dificuldade relativa a financiamento. Ela possivelmente deve ocorrer também em outras regiões do planeta, então, não uso isso como desculpa, mas, ao todo o processo do filme levou quatro anos.

Então, assim que o ciclo do filme se encerrar, vou pensar bem antes de realizar o segundo. Fazer ficção toma tanto tempo, recursos e energia que o tema e a história precisem ser bastante sinceros e ter um apelo social urgente para que eu volte a me aventurar nesta área. Tenho muitas ideias para ficção, mas, neste momento, prefiro esperar. 

Agora, estou rodando um documentário sobre um grupo de artistas chilenos. Acho que os documentários oferecem um caminho mais livre, em que se pode filmar de maneira mais relaxada, contar com uma equipe menor e continuar sendo capaz de encontrar histórias para o próximo longa de ficção.


Cine Set: No Brasil, o cinema nacional enfrenta problemas de financiamento e distribuição. Dentro da perspectiva latino-americana, como você compara a situação do Chile? 

Felipe Ríos Fuentes – Como meu filme foi uma co-produção Argentina-Chile, conheço as plataformas de financiamento público dos dois países e acredito que fui capaz de conseguir o apoio delas antes de tudo começar a ruir. Argentina, Chile e Brasil estão em um momento de profunda crise, não apenas no cinema, mas, da cultura de modo geral. Os governos de direita de Maurício Macri, Jair Bolsonaro e Sebastián Piñera estão criando um discurso de que investir em cultura é perda de dinheiro e uma forma de ociosidade. Ele está relacionado a uma tentativa de destruição da identidade dos países da América Latina. 

Essa estratégia vem sendo utilizada ao longo da história. Por exemplo, quando há golpes de Estado, a primeira preocupação do novo governo é destruir toda a cultura e apagar a história em prol de um suposto novo começo, teoricamente melhor. Acredito que isso está ocorrendo agora nestes três países. Apesar de não saber tanto da situação brasileira, sei que ela é grave.

Cine Set – Você mencionou que a urgência social é importante quando está desenvolvendo uma história. Qual a urgência de “El Hombre del Futuro”? 

Felipe Ríos Fuentes – Não acho que este filme esteja tão guiado por essa urgência social. Pelo contrário, vem de um lugar bem íntimo. Sempre pensei que meu primeiro filme deveria ser sobre conhecer a mim mesmo e as minhas emoções. 

Consigo sim ver assuntos sociais urgentes na América Latina hoje, principalmente, os relativo às questões de gênero, aos indígenas, e à influência de nações estrangeiras no nosso continente, e acredito que o cinema deva discutir estas temáticas. 

O documentário que estou gravando é sobre um coletivo artístico da década de 1980 durante a ditadura chilena. Apesar dessa história ter ocorrido há 40 anos, eu queria perguntar a estes personagens, que eram guerrilheiros, como era o Chile naquela época e o motivo deles pelo qual eles decidiram lutar. Quando o fiz, percebi que o Chile atual parece estar apagando sua própria história e que começamos novamente a nos sentir muito oprimidos. É nisso que estou trabalhando. 


Cine Set – Qual foi a descoberta que você fez sobre si próprio ao fazer “El Hombre del Futuro”? 

Felipe Ríos Fuentes – Descobri muitas coisas sobre a relação com meu pai. Conhecer o nosso próprio passado é muito importante e isso se aplica ao nosso país e à nossa história. Uma filha que não tem pai, que não se conecta com o seu pai, também serve de exemplo de como a sociedade funciona. 

No caso do Chile, muitas pessoas se recusam a acreditar que a ditadura matou muita gente. Os livros usados nas escolas a chamam de ‘governo militar’, não de ‘golpe de Estado’. Isso mostra como há um conflito entre gerações e, até que consigamos resolvê-lo, será muito difícil seguir em frente e crescer.

*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.

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