Livremente inspirado em tarô e mitologia, “Moon, 66 Questions” explora as falhas de comunicação e os conflitos geracionais de uma família através dos olhos de uma adolescente. O drama grego, exibido na mostra Encontros do Festival de Berlim deste ano, é carregado de simbolismo. Com seu ritmo pausado, as salas de cinema do circuito de arte – se um dia existirem após a pandemia da COVID-19 – deverão ser seu habitat natural.

No filme, Artemis (Sofia Kokkali) volta para a Grécia depois de alguns anos para cuidar do pai doente Paris (Lazaros Georgakopoulos). Sua enfermidade o deixa com a mobilidade extremamente comprometida e, enquanto uma ajuda profissional não é contratada, sua filha tem que se encarregar dele integralmente.

De um lado, a jovem tem que lidar com a apatia da mãe, já divorciada de Paris, diante da situação e do descaso da família dele, que não se interessa pelo seu tratamento e empurra com a barriga a contratação de uma enfermeira.

De outro, ela também precisa aturar a hostilidade do paciente sob seus cuidados – um homem duro na queda, com quem ela já não tinha a melhor das relações, e um doente pouquíssimo cooperativo. Sozinha neste fogo cruzado, Artemis se lança à missão de se aproximar do próprio pai. 

 ESTRUTURA ELÍPTICA ENVOLVENTE


A cineasta Jacqueline Lentzou, estreando aqui na direção de longas-metragens depois de vários curtas celebrados, aposta em uma abordagem que privilegia ícones e símbolos ao invés de uma narrativa tradicional.

O roteiro, assinado por ela, desafia convenções dramáticas ao optar por representar uma família em crise sem discussões acaloradas ou uma grande cena de conflito. Paris, por exemplo, apesar de ser um dos personagens principais do longa e o ponto de tensão da trama, só fala depois de uma hora de projeção. O talento de Georgakopoulos em comunicar as diversas formas em que seu personagem é emocionalmente debilitado somente com gestos é digno de nota.

A despeito da narrativa, o coração de “Moon, 66 Questions” está em sua estrutura elíptica. Lentzou, juntamente com o editor Smaro Papaevangelou, alterna antigas fitas VHS gravadas por Paris, os diários de Artemis e imagens da natureza recriando a forma como a memória é processada. Reforçando essa associação, o diretor de fotografia Konstantinos Koukoulios enche as tomadas de uma luz desbotada que remete a lembranças.

Ao tentar conhecer de verdade seu pai, Artemis é obrigada a lembrar dos traumas causados por ele em sua infância e do tempo do casamento desgastado de seus pais. A maneira como ela supera essas disrupções é o que move a produção, ainda que pareça evitar um grande senso de catarse. Um filme mais direto e pujante talvez fosse mais satisfatório de um ponto de vista emocional, mas isso é uma questão de gosto. “Moon, 66 Questions” é destemido e ousado – mas requer uma audiência que seja assim também. 

 

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