O Amazonas fechou a mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros do Festival de Gramado 2020 com “O Barco e o Rio”. Quarto filme da carreira de Bernardo Ale Abinader, o projeto se mostra um salto evolutivo enorme dentro da filmografia do diretor/roteirista, aparando pontas soltas que prejudicaram seus trabalhos anteriores, e coloca Isabela Catão em evidência nacional mais do que merecida por um desempenho arrasador. 

“O Barco e o Rio” apresenta a história de duas irmãs: Vera (Isabela Catão), uma mulher religiosa, introspectiva e metódica, enquanto Josi (Carolinne Nunes) tem uma vida mais livre. O barco da família vira o motivo de discórdia entre elas com Vera querendo mantê-lo e Josi desejando vendê-lo, enquanto lida com uma gravidez inesperada. 

Abinader volta a trabalhar as angústias internas femininas em que os desejos são sufocados por conta das estruturas sociais. Se em “A Goteira”, a ‘prisão’ se dava por conta de um casamento infeliz e da expectativa da sociedade em relação a um suposto papel ideal da mulher na sociedade, em “O Barco e o Rio”, as travas são impostas pela religião. Na melhor cena do curta, Vera lida com um confronto entre o corpo e a mente, o desejo e a repressão, mantida refém por um pensamento retrógrado, conservador em que o desejo sexual e de independência da mulher precisa ser reprimido como forma de domínio.  

Este duelo, aliás, se faz presente desde o início de “O Barco e o Rio” ao já estabelecer nos primeiros minutos a tensão entre as duas irmãs seja no figurino e penteado e também na forma de se expressar de cada uma – Josi não hesita em falar palavrões e ser mais ríspida, enquanto Vera fala de maneira mais pausada e firme. Desta maneira, Abinader consegue definir bem o foco do conflito e desenvolvê-lo a partir de caminhos bastante definidos sem perder a complexidade do que busca tratar, algo que, nos curtas anteriores, se misturavam a um ponto de perder toda a potência que poderia ter. 

AS DESCONSTRUÇÕES DE CATÃO

A opção de concentrar toda história dentro do barco permite à direção de arte de Francisco Ricardo criar um cenário capaz de transmitir essa sensação de aprisionamento, especialmente, pelas frases religiosas nas paredes permeando a personagem de Isabela Catão. Há também de se exaltar a fotografia de Valentina Ricardo (mais um grande trabalho após ter sido excelente em “A Goteira”), rendendo momentos belíssimos, especialmente, a cena final. 

O destaque maior em “O Barco e o Rio”, acima de tudo, é de Isabela Catão. Depois de brilhar em “A Goteira”, a atriz amazonense constrói e desconstrói Vera de diversas maneiras, colocando sempre novos pequenos detalhes na personagem. A imagem de durona, de rigidez nos gestos e nas falas gradualmente vira um poço de conflitos internos entre o bem e o mal até se despedaçar na mais pura angústia carregada de lamentos pelos caminhos da vida. Tudo isso, senhoras e senhores, em 17 minutos. Repito: 17 MINUTOS! 

Ainda que o duelo entre as irmãs pudesse ter tido mais tempo de cena e a personagem de Carolinne Nunes maior destaque na trama, Bernardo Abinader demonstra um controle narrativo mais definido sobre o que busca e realiza, de longe, o seu melhor trabalho em “O Barco e o Rio”. Fora a consciência de que tem uma parceria preciosa com Isabela Catão, uma atriz capaz de extrair tudo e mais um pouco de suas personagens. 

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