Se propor a assistir um filme de fantasia nem sempre é uma tarefa simples: você precisa estar disposto a mergulhar naquele universo sem ligar para os possíveis absurdos. Esta, definitivamente, é uma atitude a ser seguida para assistir ‘O Mistério do Gato Chinês’ já que a produção apresenta elementos fantasiosos deste seu primeiro minuto até subirem os créditos finais (não, isto não é um exagero). Na mesma proporção da fantasia, o filme também apresenta uma bela imersão visual, porém, nem toda beleza consegue esconder seu roteiro fraco e novelesco, rendendo uma trama bagunçada e com sucessivas tentativas de impressionar, sem sucesso, seu público. 

A história roteirizada pelo também diretor Kaige Chen (‘Adeus Minha Concubina’) e Hui-Ling Wang (‘O Tigre e o Dragão’) é basicamente dividida em duas partes. No primeiro momento acompanhamos o monge Kûkai (Shôta Sometani) e o escritor Bai Letian (Xuan Huang) em uma missão no estilo Sherlock Holmes e Whatson. Ambos buscam entender por que um gato preto está amaldiçoando o imperador e um de seus generais. Esta busca os leva até uma história de gerações anteriores, na dinastia Tang, sobre um antigo imperador e a morte misteriosa de sua concubina. 

Com essa grande divisão da trama percebe-se que o primeiro momento é uma tentativa frustrada de segurar o espectador até apresentar a história pretendida. O início com Kûkai e Bai se alonga entre cenas do suspense fantasioso e a tentativa de um humor entre a dupla, apesar de muitos momentos parecerem aleatórios e nada convincentes, à medida que a narrativa avança eles passam a fazer maior sentido. 

Este início também apresenta a figura do gato que assombra ao imperador e, claramente, os efeitos utilizados para fazer o animal não são os melhores, causando certo desconforto. Porém, na segunda parte do longa, quando é necessário que o animal demonstre sentimentos, a técnica melhora consideravelmente. 

Fora isto, o filme começa a apresentar diversas inconsistências no roteiro e quase vira uma bagunça completa. A dupla de “investigadores” não é carismática o suficiente e acaba direcionando o espectador por diversos momentos contraditórios; alguns destes até rendem belas cenas, porém, pouco adicionam a narrativa. 

Tudo muda na segunda parte (ou não) 

Em contrapartida aos equívocos iniciais, a segunda parte de “O Mistério do Gato Chinês” se volta para os festejos da dinastia Tang e o resultado não poderia ser mais bonito. Toda intenção de um apuro estético já apresentada timidamente antes é trazida com força total. Apesar dos efeitos visuais chegarem a ser excessivos, a utilização é mais consistente e bem-sucedida na criação de um universo cheio de cores e ilusões. 

Como principal benefício do filme, a história contada rende belíssimas cenas, com construções muito inteligentes de mise-en-scène. A direção de fotografia é um elemento que ajuda muito neste sentido, porém, com algumas ressalvas. Muitas vezes, a fotografia consegue ser delicada e contemplativa, com belos ângulos simétricos, mas, em outros, a câmera se movimenta demasiadamente, na tentativa de intuir uma ação para a cena. 

Nos momentos mais belos e contemplativos, “O Mistério do Gato Chinês” é embalado por uma forte trilha sonora, impossível de não ser notada. Entretanto, mesmo com diversos elementos que colaboram com a imersão no longa, seu roteiro continua a tropeçar a cada novo acontecimento. A última meia hora do filme é marcada por inúmeras reviravoltas com personagens secundários recém-apresentados, sendo tão importantes para a trama quanto os protagonistas Kûkai e Bai. 

Mesmo com sucessivas tentativas de prender o público através desses plot twists, apenas um realmente importa por apresentar uma história bonita e igualmente triste sobre a morte da concubina. Pessoalmente, acredito que este acontecimento serve como justificativa para os descuidos com papeis femininos no longa: ou vemos mulheres como gueixas e concubinas sedutoras, ou elas são o símbolo de pureza e bondade e, apesar de muitos personagens também não apresentarem grande complexidade, o gênero feminino é o que mais sofre neste sentido. 

Utilizando a riqueza cultural como seu maior benefício, a impressão dada pelo longa é que muitos acertos e combinações são uma questão de verdadeira sorte. Entretanto, visualmente, o filme consegue apresentar elementos fortes o suficiente que descartam qualquer suspeita de aleatoriedade nestas escolhas. Talvez o maior defeito de ‘O Mistério do Gato Chinês’ seja apenas não ter colocado o mesmo cuidado estético em seu roteiro. 

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