Comunidade, sobrevivência e sacrifício. Sobre essas três temáticas orbita a narrativa de “Passageiro Acidental”, novo filme do brasileiro de Joe Penna (“Ártico”) disponível na Netflix. Acompanhamos uma equipe que parte em uma missão de dois anos para Marte; no processo, eles descobrem que, dentro da espaçonave, existe um passageiro a mais. Tal situação desperta dilemas que vão sendo discutidos no decorrer da trama.  

Penna utiliza a relação dos personagens para instaurar o conflito existencial que surge com a presença do integrante clandestino. Na verdade, o roteiro assinado pelo diretor e Ryan Morrison concentra toda a narrativa nas consequências dessa descoberta tardia, perdendo oportunidade de movimentar outros dilemas interessantes que surgem no decorrer de “Passageiro Acidental”.  

O roteiro parece ter a intenção de construir seu drama diante da percepção de cada personagem sobre a situação inesperada. A questão é que, enquanto a trilha sonora atrelada a fotografia claustrofóbica – a qual em determinados momentos remete um pouco a “Alien – O Oitavo Passageiro” – arregimenta o potencial caótico que a circunstância carrega, a narrativa não consegue transpor essa sensibilidade para os personagens. Por conta dessas escolhas narrativas, o filme não sai da superficialidade. 

Explicações Superficiais 

Entendo que Penna preocupou-se em capturar como aquela pequena comunidade lidaria com a questão da sobrevivência envolvendo questões éticas. As escolhas para essa discussão, no entanto, não conseguem ser expandidas, aprisionando-se em resoluções rasas e inverossímeis. A primeira delas – e a mais absurda – é a existência de uma quarta pessoa em uma missão especial que deve ter exigido preparação, além de seguir à risca todos os cuidados e protocolos de segurança. É só observar a cena que abre “Passageiro Acidental”. Mais do que irresponsável, é totalmente irreal. 

Outra situação esquisita é a ausência de comunicação com o comando terrestre. Em certo momento, a líder da tripulação (Toni Collette) aparece com o rosto pesado e comunica sobre a falta de oxigênio – consequência de ter mais um membro na espaçonave. A partir de então, é sempre ela quem serve de porta-voz, mas, em momento, algum vemos esse contato e nem os outros personagens, criando o questionamento se realmente há uma comunicação.  

A ausência de diálogo contribui para o distanciamento dos personagens e a falta de conexão entre eles e o espectador. Não há aprofundamento de suas histórias, não criamos empatia e falta até mesmo fatores motivacionais que não soem egoístas. Por exemplo, o tratamento do personagem de Collette para com o viajante inesperado soa como antipático e desagradável, não como alguém preocupado com o futuro da expedição, mas sim com seu próprio umbigo. Como não sabemos muita coisa sobre a personagem, não há um posicionamento anterior que conteste essa sensação. Essa percepção se torna mais incômoda ainda por ele ser negro.  

Apesar da pouca profundidade de seus conflitos, esteticamente o projeto é um primor. Penna e o diretor de fotografia, Klemens Becker, nos conduzem pelos corredores da pequena espaçonave. Ora nos enclausurando junto aos tripulantes, ora nos oferecendo um olhar mais amplo sobre as figuras de ação da narrativa.   

Sem aprofundar as questões existenciais e morais que desperta ao longo da sua narrativa, “Passageiro Acidental” entra na lista dos filmes da Netflix que serão esquecidos em pouco tempo. O que não abala a carreira internacional que Penna vem construindo.  

‘Adeus Leonora’: a carta de despedida do mestre Paolo Taviani

A morte é a grande protagonista de “Leonora Adeus”, recente filme do lendário diretor italiano Paolo Taviani. Ele mesmo, no alto dos seus 91 anos, constrói uma narrativa tragicômica da morte e como ela permeia o nosso universo ao redor. Com um olhar melancólico,...

‘Meu Álbum de Amores’: a linha tênue entre o amor e o brega

Ah, o amor. As delícias das paixões desenfreadas, cegas e absurdas. O amor latente, pulsante, que corre por entre as veias e explode em adrenalina e desespero. O amor é inexplicável. Há quem diga que só vivemos um grande amor por toda a vida. Há aqueles que vivem...

Festival de Karlovy Vary 2022: ‘Flux Gourmet’, de Peter Strickland

"Flux Gourmet", novo filme de Peter Strickland, é um prato reservado aos curiosos gastronômicos de plantão. O projeto do atual mestre do bizarro inglês foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano após estreia em Berlim e vem recheado das...

‘The Five Devils’: a falácia do mito do “lugar de gente de bem”

"The Five Devils", novo filme da francesa Léa Mysius, é um misto de drama familiar e thriller sobrenatural que leva o espectador por caminhos inesperados. O longa, que estreou na mostra Quinzena dos Realizadores em Cannes e foi exibido no Festival Internacional de...

‘Trem-Bala’: carisma de Brad Pitt faz longa pueril valer a pena

Eis que chega às telonas “Trem-Bala”, mais uma obra que segue o filão do cinema de ação espertinho à la Deadpool. Ou seja: temos aqui uma maçaroca de referências pop e piadas adolescentes que, se por um lado, não radicaliza nada, por outro não consegue bancar o peso...

‘Ela e Eu’: Andréa Beltrão domina melodrama sobre recomeço

Mãe e filha. 20 anos de convivência emocional e de ausência física. Reconfigurando afetos, Gustavo Rosa de Moura traz aos cinemas em “Ela e Eu” uma história forte, importante e comovente sobre novas e velhas formas de amar com Andrea Beltrão fazendo uma personagem do...

‘Tinnitus’: angustiante e ótimo body horror brasileiro

Uma atleta de saltos ornamentais em apuros guia a trama de "Tinnitus", novo filme do paulista Gregorio Graziosi (“Obra”) que teve estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary deste ano. Ancorado na sólida performance da atriz Joana de Verona, o...

‘Aos Nossos Filhos’: Marieta Severo brilha em drama de tom solene

Vera (Marieta Severo) está em um embate terrível com a filha Tânia (Laura Castro). A jovem, lésbica e casada, que quer a aprovação da matriarca para ser mãe, mas não vê forma de superar os próprios traumas e o dissabor da relação com a personagem de Marieta, uma...

‘O Palestrante’: Porchat aposta no seguro em comédia morna

Guilherme (Fábio Porchat) é um contador frustrado que perdeu o tesão na vida. Seu chefe é um babaca, a esposa o humilha e o sujeito simplesmente desliza pelos dias no piloto automático. Isto até ser confundido com um palestrante motivacional e se apaixonar por Denise...

Festival de Karlovy Vary 2022: ‘Close’, de Lukas Dhont

As dores de amadurecimento dão o tom de "Close", novo filme de Lukas Dhont que estreou em Cannes - onde dividiu o Grand Prix com "Both Sides of the Blade", de Claire Denis - e foi exibido no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary. O drama confirma o diretor...