2021 ainda é um ano cheio de mistérios para os eventos cinematográficos, muitos dos quais foram cancelados, reduzidos ou virtualizados este ano por conta da pandemia do coronavírus. O Festival de Locarno, um dos maiores do mundo, vai encarar esse desafio sob nova direção: o crítico de cinema suíço Giona A. Nazzaro foi apontado como novo diretor artístico do evento. Ele sucede a produtora francesa Lili Hinstin, que ficou dois anos no cargo.

Nazzaro tem um histórico de colaboração com Locarno e vem de uma aclamada passagem à frente da Semana Internacional da Crítica – mostra paralela do Festival de Veneza. Ele também já esteve no comitê de seleção de outros festivais italianos, como Roma e Turim. Neste último, chegou a organizar uma retrospectiva da obra do brasileiro Júlio Bressane.

Grande fã do nosso cinema – em especial, do Cinema Marginal – Nazzaro bateu um papo com o Cine Set, falando sobre as expectativas para o Festival de Locarno no ano que vem, dando conselhos sobre como Manaus pode voltar a ter seu evento cinematográfico e foi enfático ao oferecer ajuda à ameaçada Cinemateca Brasileira. Você pode conferi-lo abaixo.

[Nota: a entrevista a seguir foi condensada e editada para fins de clareza] 

Giona Nazzaro era desde 2016 o responsável pela Semana Internacional da Crítica Cinematográfica no Festival de Veneza.

Cine Set – Você sucede uma diretora artística que aumentou bastante o número de filmes dirigidos por mulheres apresentados no Festival de Locarno e, em uma entrevista recente, você afirmou não acreditar em um cinema branco e heterossexual. Considerando esses dois fatos, o que podemos esperar para Locarno em 2021 em termos de representatividade?

Giona A. Nazzaro – Se você acompanhou os últimos cinco anos da Semana da Crítica em Veneza, você deve ter notado a presença de cineastas mulheres e eu sinto muito por dizer isso dessa maneira, pois, parece mainsplaining. Isso [a presença delas] não se deu porque precisava ser feito – simplesmente aconteceu. Os filmes nos quais eu estava interessado foram dirigidos por mulheres.  

De novo, soa terrivelmente estranho quando eu digo que o primeiro filme sudanês apresentado em Veneza fez parte da Semana da Crítica quando eu a dirigia. Parece incrivelmente colonialista quando eu digo que o primeiro Leão de Ouro dado a um cineasta da Tunísia foi na Semana da Crítica no mesmo período.  

Em resumo, se você checar a programação dos últimos cinco anos na Semana da Crítica, você terá uma ideia clara [do que esperar]. Agora, obviamente, Locarno é um evento muito maior [do que uma mostra paralela em Veneza] e a competição fica naturalmente mais acirrada.

Cine Set – Você também pretende levar à frente a sua ideia de fazer um festival presencial?

Giona A. Nazzaro – As incertezas de grandes festivais de cinema sendo adiantados ou adiados em 2021 são grandes pontos de interrogação, mas a ideia é sim termos um festival presencial. Nós podemos fazer isso. Até agora, não houve uma grande concentração de infecções em cinemas e eu não acho que ir a eles é mais perigoso do que comer fora ou usar um metrô lotado, então, eu não entendo exatamente porquê eles deveriam pagar o preço pela pandemia do coronavírus.

Cine Set – Em 2019, o cinema brasileiro teve quatro filmes em Locarno, saindo premiado com o ator amazonense indígena Regis Mypuru, de “A Febre”. No mesmo ano, o Antoine Thirion, membro da equipe do festival, esteve no Brasil para falar sobre o evento. Como Locarno observa o potencial do cinema brasileiro e o que você destaca de interessante na nossa produção?

Giona A. Nazzaro – Essa é uma pergunta enorme, meu amigo [risos]! Onde eu poderia começar? Eu poderia dizer que “Limite” é um dos meus filmes favoritos de todos os tempos. “O Bandido da Luz Vermelha” é, para mim, tão importante quanto “Cidadão Kane” ou “Acossado”. Eu amo Júlio Bressane e Helena Ignez, que é uma amiga. Eu adorei a sequência de “O Bandido” que ela fez [“Luz nas Trevas”]. Eu sou muito fã do Cinema Marginal. Houve uma enorme mostra uns anos atrás, onde eu conheci pessoalmente o Andrea Tonacci. Depois, cheguei a exibir seu último filme em Roma. Sou também um enorme fã de Ivan Cardoso, então não sou exatamente um novato quando se trata de cinema brasileiro e sempre estou de olhos abertos para ele.  

Uma das minhas melhores lembranças foi encontrar Júlio Bressane na retrospectiva de seu trabalho em Turim. Foi ótimo passar um tempo com ele, que citava Schopenhauer e o relacionava com “Rastros de Ódio”. Eu tenho uma forte relação emocional com cinema brasileiro. […] Recentemente, o filme brasileiro que mais me tocou foi “O Processo“, de Maria Augusta Ramos. 

Crise da Cinemateca Brasileira se acentuou em 2020 com retomada da gestão do local pelo governo Bolsonaro


Cine Set – O maior acervo de audiovisual da América Latina, a Cinemateca Brasileira encontra-se em meio a uma grave crise e fechada desde a retomada do comando para o Governo Federal. Nomes como Martin Scorsese, Quentin Tarantino e Thierry Frémaux, além de grandes cineastas brasileiros como Cacá Diegues e Kleber Mendonça Filho, já demonstraram grande preocupação com os riscos em relação à Cinemateca. Como Locarno observa essa situação?

Giona A. Nazzaro – Nós, do Festival de Locarno, vamos usar de todos os meios possíveis para fazer a equipe da Cinemateca Brasileira ser ouvida. Qualquer coisa que a instituição precise que possamos fazer para ajudar, só nos informem. Isto deve ficar claro.  

Se eles precisarem do apoio do Festival de Locarno para lutar contra a censura e contra seu fechamento, que entrem em contato conosco. Faremos tudo o que pudermos para ajudar. Isto é sério – não é autopromoção.  

Isto é uma promessa, um compromisso.

Cine Set – Você mencionou numa entrevista recente que uma das coisas que sempre o atraiu a Locarno era a capacidade que o festival tinha de “transformar uma cidade em uma cidade cinematográfica”. Manaus, minha cidade natal e base do Cine Set, já sediou um festival de cinema, Amazonas Film Festival, que tinha um efeito similar mas deixou de ser realizado. Tendo em vista isso, a que você atribui o sucesso de Locarno em produzir esse efeito? E que conselhos você daria a Manaus – ou qualquer outra cidade – que tenha a mesma intenção?

Giona A. Nazzaro – Não é uma questão fácil de responder, porque obviamente depende de com que tipo de rede de contatos a cidade em questão pode contar, de como você pode convencer os distribuidores, agentes de vendas ou detentores de direitos a permitir que você use o trabalho deles para organizar um festival de cinema e de como você consegue interagir com as autoridades daquela cidade. Não há uma solução única para isso.  

Locarno se tornou o que é porque conseguiu, no decorrer de muitos anos, criar um tipo de diálogo com as autoridades locais e com toda a indústria. Cada caso é muito diferente e não há uma receita exata de como fazer isso. Se você fizer isso a partir da base, seria a escolha mais sábia para permanecer em contato com a comunidade local de realizadores e com os órgãos locais, de forma a criar uma necessidade para esse evento – uma necessidade baseada nas pessoas vivendo, trabalhando e operando em um território específico.  

Eu sei que esse é um dos principais problemas no Brasil; o fato de que comunidades locais estão sendo violentamente ameaçadas pelo regime [do Governo Federal], que está tentando calar todas as vozes. No que diz respeito a conselhos como esse, eu tentaria criar um evento que está profundamente conectado com as necessidades de uma comunidade local.

Cine Set – Você vem do universo da crítica cinematográfica. Como alguém que também vem desse universo, eu gostaria de saber: você acha que ter esse background lhe ajudará em seu novo cargo? Se sim, como?

Giona A. Nazzaro – Hoje em dia, a programação de filmes é crítica cinematográfica por excelência. Essa é a parte da crítica de que eu mais gosto: programar filmes, imaginando como eles podem dialogar entre si. Vir do universo da crítica me ajudou a moldar meu gosto, ainda que eu use essa palavra muito cautelosamente, porque penso que gosto é um conceito muito conservador.  

Eu diria que a crítica cinematográfica me ajudou a me tornar consciente da necessária diversidade e das possibilidades do mundo, […] a abrir meus ouvidos aos diferentes sons do mundo ou, como Kleber Mendonça Filho diria, ao som ao redor. 

Live com Godard é uma das obras audiovisual preferidas de Giona A. Nazzaro no caótico 2020.


Cine Set – Pra fechar, sem contar nenhum filme relacionado a Locarno, qual foi o melhor filme que você assistiu durante a pandemia?

Giona A. Nazzaro – Oh, essa é uma excelente questão [risos]! […] A melhor coisa que eu assisti durante a pandemia foi a live de Instagram em que Lionel Baier entrevistou Jean-Luc Godard. Eu achei que foi genial, porque é sabido que Godard não permite que ninguém o visite em casa […] mas no exato momento em que o mundo se fecha, ele abre a sua porta e responde todas as perguntas que Baier faz. Ele fala sobre a Nouvelle Vague, sobre a sinestesia de sua percepção, sobre as formas e cores de seu trabalho, sobre ser um doutor e eu fiquei hipnotizado. Aquele foi de longe o melhor filme da pandemia! […] Eu poderia assisti-lo diversas vezes. 

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