Vindo de uma geração marcada pela transformação tecnológica, Lucas Salles é um bom exemplo de artista multiplataforma. Já foi repórter do ‘CQC’ e do ‘Pânico na Band’, realiza stand-up comedy no teatro, foi apresentador da “A Fazenda Online” e também investe na carreira de ator no cinema e na televisão.

Nas telonas, esteve nos elencos das comédias “Desenrola” e “Odeio o Dia dos Namorados”, além de uma participação em “Não Pare na Pista” e a dublagem em “Mortadelo & Salaminho 3D- Missão Inacreditável”. Agora, em 2021, Salles chega aos cinemas com “Missão Cupido” em que interpreta o rebelde anjo da guarda Miguel (Lucas Salles), o qual profetiza que sua protegida Rita (Isabella Santoni) jamais encontrará um amor. Ela passa a vida querendo se divertir, focando no prazer, sem jamais pensar em um relacionamento duradouro. Miguel, então, recebe uma ordem expressa do Presidente (Rafael Infante), o dono da Miracle (Rafael Infante), uma agência de seguros de vida da qual os assegurados são os seres humanos e os funcionários são anjos contratados pela empresa: ele precisa voltar à Terra para resolver o problema que causou.

O tempo de Miguel é curto, já que Rita cai nos encantos da sedutora Morte (Agatha Moreira), que assume a forma de uma mulher sensual e trava um duelo emocionante com o anjo da guarda pelo coração da moça. Com a ajuda do anjo Rafael (Victor Lamoglia), ele precisa encontrar um amor para Rita, enquanto Morte não pensa em desistir até levar a jovem com ela. 

Durante uma viagem de Uber, Lucas Salles conversou com o Cine Set sobre o filme, as dificuldades de fazer cinema durante a pandemia e a importância de obras como “Missão Cupido” em meio ao complicado momento vivido no Brasil.

Cine Set – Quando surgiu o convite para “Missão Cupido”? O que te atraiu para esse projeto? 

Lucas Salles –Acho que foi a questão de pagar as contas. Eu preciso trabalhar. As contas fazem você aceitar os projetos. Brincadeira.  

O filme tem uma temática que sempre me interessou: uma comédia romântica sobrenatural de anjos, cupidos. Porém, a gente sempre vê estes personagens sendo interpretados por galãs como, por exemplo, o Nicolas Cage em “Cidade dos Anjos”. 

Essa oportunidade de interpretar um anjo completamente fora do padrão de qualidade angelical, de beleza idealizado por muitos homens e mulheres – ainda que tenha certos privilégios que reconheço existirem – me conquistou bastante. 

Cine Set – Como foi tua preparação? Quais características suas te ajudaram a compor o Miguel? 

Lucas Salles – Tivemos uma preparação de elenco feita pela equipe do Rodrigo Bittencourt (diretor de “Missão Cupido”), mas, acho que a identidade criada pelo elenco nos ensaios foi fundamental. Ensaiamos não apenas para decorar as falas, os movimentos de cena e do corpo, os trechos de pausa no texto, mas, especialmente, para entendermos os personagens. 

Com isso, eu acabei virando o Miguel: um cara totalmente sem paciência, que faz piada com tudo, sempre resmungando. Isso aconteceu com todo o elenco incorporando os seus personagens. 

Cine Set – O filme deveria ter sido lançado em 2020, mas a pandemia alterou os planos. Como é fazer cinema em tempos pandêmicos? 

Lucas Salles – Tem uma frase do Nelson Rodrigues que fala sobre o teatro: quando surgiu o cinema todos falavam que o teatro iria morrer. E lá estava o teatro. Quando surgiu a televisão falaram novamente que o teatro iria morrer. E lá estava o teatro. Hoje, vemos diversas outras mídias e lá está o teatro. 

Acredito que vá ocorrer a mesma coisa com o cinema: veio a pandemia, infelizmente, pode ser que não seja a primeira e tenhamos outras neste século, mas, lá estará a arte sobrevivendo, sendo feita sempre, arranjando um jeito de ser executado. Isso ocorreu também com a televisão capaz de ter mantido uma produção diária e insana, incluindo, as novelas “Amor de Mãe” e “Salve-se Quem Puder”. O entretenimento, a cultura trazem essa capacidade da categoria em dar as mãos para existir e resistir. 

Quanto às gravações, não podemos mais abraçar, cenas de beijos não existem mais: você beija hoje um boneco verde, depois vem a pós-edição coloca a sua boca ali. Não pode ter mais contato físico. Você precisa ser testado diariamente duas, três vezes para garantir que você não chegue infectado e não espalhe para ninguém. 

Mesmo com tudo isso ainda tem ali o brilho no olhar de quem faz cinema, TV, teatro. Nunca imaginamos que isso fosse possível, viável mas, hoje, se tornou essencial. 

Cine Set – O filme foi rodado há algum tempo e é possível perceber ainda algumas piadas politicamente incorretas, principalmente gordofóbicas. O Leandro Hassum dizia que o gordo por si só já é motivo para humor. Como você vê essa questão do politicamente correto dentro do humor? 

Lucas Salles  Eu acho que é importante entender o contexto do personagem: deixamos bem claro que ele ficou morto entre 1986 e 1994. Naquela época quem não era machista, homofóbico, gordofóbico até mesmo racista e xenofóbico, era o diferente. Infelizmente, esse tipo de atitude era muito comum e, graças a Deus, mudou hoje em dia. 

Para interpretar um personagem dessa época, eu precisei vestir essa camisa, revisitando um passado em que eu também tive esse tipo de comportamento, com certeza. Nasci em 1993 e até 2008, 2009, não se falava sobre feminismo, sequer se ouvia. Todo mundo falava coisas do tipo ‘não se veste isso porque é coisa de Paraíba’, ‘não fala isso, é coisa de favelado’. Pode ter certeza que falei isso; não nasci pronto nem bonito. A minha avó, aliás, dizia que eu parecia um rato e que só foi me visitar após o terceiro mês porque eu era muito feio. 

Voltando ao “Missão Cupido”, logo, é impossível que um personagem que faleceu naquela época não tenha estes tipos de preconceitos. Até há uma visão dele no filme onde observa o beijo entre duas garotas e, em vez dele retratar aquilo como algo errado, ele fica feliz, algo que qualquer adolescente daquela época ficaria. Aquela ali é a retratação mais dócil, mais sutil que eu consiga tratar daquela época, pois, provavelmente, ele teria dito uma bobagem do tipo ‘mulher com mulher dá jacaré’. 

Cine Set – “Missão Cupido” é um filme leve e divertido. Qual a importância de uma produção dessa em um período tão conturbado como vivemos? 

Lucas Salles – Acho muito importante para a gente esquecer um pouco toda a loucura que estamos lidando. Claro que não defendo a alienação, de forma alguma, porém, filmes como “Missão Cupido” servem para ajudar a nossa sanidade mental e receber uma dose de esperança. 

A arte traz esta dose de esperança; o famoso ‘final feliz’ possível de ser visto no filme, para mim, existe também na vida real. Eu acredito. Vá ver “Missão Cupido” e acredite que o final feliz pode dar certo. A gente vai passar por essa, pode ter certeza, a gente vai passar por isso. 

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