Vivemos em um mundo onde atletas de alto nível (principalmente) são, na maioria das vezes, vistos como deuses – a personificação da perfeição. Desde que competições como os Jogos Olímpicos, as Copas do Mundo de Futebol e os demais Campeonatos Mundais foram estabelecidas, esses atletas têm sido sempre o foco de treinadores ambiciosos, dos meios de comunicação e de empresas milionárias que buscam elevar seus status de potências multinacionais. Michael Phelps, Gustavo Kuerten e Nadia Comaneci inspiram gerações e gerações de crianças que veem neles ídolos a serem seguidos e imitados; atletas perfeitos. Quem não sonha um dia em ser campeão olímpico, quebrar recordes ou ganhar um Grand Slam de tênis?

Atletas desse porte conseguem atingir e muitas vezes ir além de seus objetivos. Os treinamentos constantes, intensos, longos e doloridos em que a família e os amigos são deixados de lado se tornam prioridade absoluta – ser número um, o melhor, é a única coisa que importa. Uma obsessão pela perfeição toma conta e eles se dispõem praticamente a tudo para que cheguem ao topo. As consequências desse tipo de isolamento e alienação, no entanto, tem um preço bastante alto e um impacto devastador do decorrer das vidas dessas pessoas.

Esse impacto emocional na psyche (alma) dos atletas é um dos temas principais de Untold, série-documentário de 5 episódios da Netflix. Com os casos da ginasta Simone Biles durante as Olimpíadas de Tóquio e o mais recente da tenista Naomi Osaka, Untold não poderia ter vindo em melhor hora. Mais do que nunca estamos vendo atletas de vários países falando publicamente sobre transtornos mentais como depressão e ansiedade e as situações que enfrentam em virtude disso. Escolhemos dois dos cinco episódios para fazer uma breve reflexão, já que esses são os que mais se relacionam com a psicologia.

ANSIEDADE NO US OPEN: O CASO MARDY FISH

Fish x Federer conta a trajetória do jogador de tênis norte-americano Mardy Fish, que chegou a ser o número 1 dos Estados Unidos e o sétimo no ranking mundial. Fish treinou com Andy Roddick quando ambos eram adolescentes e até morou na casa do colega por um ano. Enquanto Roddick decolou e se tornou o melhor do mundo, Fish ficou na sombra e não sobressaiu tanto em competições do circuito da ATP. Passados quase 10 anos e já pensando em se aposentar, Fish mudou de mentalidade. Perdeu peso, mudou a dieta, passou a treinar intensivamente com uma nova equipe; ficou mais ágil, mais em forma e começou a ganhar torneios. Derrotou Roddick, coisa que nunca tinha feito antes. Ganhou de Rafael Nadal. Não demorou muito a fazer parte da elite mundial do tênis, chegando ao top 8 dos melhores jogadores e participando do ATP World Tour em Londres – um de seus maiores sonhos.

Tudo caminhava bem até que durante uma partida pelas oitavas-de-final do US Open em 2012, Fish teve um ataque de ansiedade onde não conseguia se concentrar. Ficou desnorteado, não sabia o que fazer. Como relata no documentário, ele diz que tudo aconteceu repentinamente. Foi tomado por um pânico que não sabia de onde tinha vindo. Coração acelerado, suando muito, completamente desorientado. Mesmo assim, conseguiu terminar a partida e se classificar para a próxima fase, onde enfrentaria o grande Roger Federer. Ainda abalado pelo acontecido, Mardy Fish decidiu não jogar as quartas-de-final e saiu da competição. Procurou ajuda profissional e foi diagnosticado com transtorno de ansiedade severa. Ficou afastado das quadras por três anos. Nesse período, se tratou, fez terapia e acompanhamento médico. Com o apoio da família e dos amigos, Fish melhorou e decidiu retornar às quadras. Falou abertamente em entrevista coletiva que sofria de ansiedade, a razão pela qual o estava impedindo de jogar.

Depois de ter se aberto o jogo publicamente, Fish ressaltou que o fato de poder falar e discutir abertamente sobre sua condição o ajudou bastante pessoalmente. “Quero dividir minha história para que eu possa ajudar”, disse. Essa atitude teve uma repercussão incrível, recebendo um apoio fenomenal de outros atletas, que o agradeceram e o parabenizaram pela coragem de se abrir e de expor uma fraqueza em público. Atualmente, Mardy Fish é o capitão da equipe norte-americana de tênis que disputa a Copa Davis. A ansiedade nunca vai deixá-lo, mas aprendeu como lidar com ela.

LUTA CONTRA SI MESMA E CONTRA O MARIDO: O CASO DE CHRISTY MARTIN

Em Pacto com o diabo, vemos a conturbada carreira da boxeadora Christy Martin. Ela foi a primeira mulher a assinar contrato com Don King, a lutar por um título do Conselho Mundial de Boxe e em um card transmitido pelo Showtime. Na luta de Mike Tyson contra Frank Bruno, o duelo de abertura dela foi vista em mais de 30 milhões de lares e mais de 100 países. Em 2003, veio a luta campeã de audiência contra Laila Ali (filha do lendário Muhammad Ali). Não deu para Martin. Nocaute técnico no quarto round. Depois algumas lutas mais e, finalmente, a aposentadoria. Os anos passaram e Christy não suportava mais o marido controlador e paranoico. Ela mesma reconhece que a busca pela última vitória da carreira não deveria ter sido de fato conta Laila, mas sim ter ficado de pé após a tentativa de homicídio do até então treinador e marido Jim Martin.

Para quem não conhece a história, no início do documentário, percebemos que há algo grave a ser revelado, já que Jim conta a sua versão de dentro da cadeia. Em 23 de novembro de 2010, a vida de Christy virou de cabeça para baixo da pior das maneiras: ela, que havia decidido correr, amarrou um sapato e, antes que pudesse calçar o segundo, foi esfaqueada em sua própria casa. Quando Christy sentiu três perfurações em seu lado e a quarta em seu seio esquerdo, tropeçou de volta para a cama quando seu perpetrador aproveitou para cortar sua perna, arrastando a faca ao longo de seu músculo da panturrilha, separando a carne do osso.

A luta que se seguiu só parou quando a boxeadora foi baleada com seu próprio Taurus rosa 9 mm e a bala se alojando em seu peito, a 7 ou 10 centímetros de seu coração. Felizmente, Christy permaneceu consciente. E assim que seu agressor saiu do quarto dando-a como morta, ela aproveitou a chance arrastando-se para fora da porta da frente com a arma em suas mãos como prova, e chamou um carro que passava, cujo motorista a ajudou sobreviver e levou-a para o pronto-socorro. Jim Martin, de 67 anos, foi condenado a 25 anos de prisão.

No início da carreira, a própria Christy conta ao espectador sobre a clareza de seus sentimentos pela amiga de ginásio, Sherry Lusk. Impedida pelos tabus e por si mesma de se assumir, acaba casando-se com Jim. Aqui fazemos um breve comentário de como anular-se enquanto pessoa, para encaixar-se em padrões pré-estabelecidos tem um preço alto. A atleta acaba elevando seu rendimento em paralelo à supressão de quem realmente era. O diabo do título é Jim, o treinador que, focado em títulos e em dinheiro, manipulava a vida da boxeadora através de vários episódios de violência doméstica e psicológica, além da tentativa de homicídio relatada acima.

Não acostumada a perder, a boxeadora se tornou uma atleta arrogante, provocadora, debochada e altamente vaidosa. Gerou muitas inimizades no mundo do boxe. Quando Christy percebeu que estava fora de seu auge em termos de carreira, todos os seus segredos e preocupações se transformaram em depressão. Ela finalmente encontrou um escape na cocaína – que Jim sempre a fornecia – e isso se tornou uma grande parte de sua vida. Com as ameaças do marido e um reencontro com Lusk por uma rede social, ela decidiu reencontrar e viver a paixão outrora reprimida. O relacionamento acaba não indo para frente devido aos abusos e vigília de Jim. Posteriormente, vemos que Martin está casada com aquela que foi uma de suas grandes rivais no ringue, Lisa Holewyne.

No documentário, somos brindados com alguns depoimentos do mito Mike Tyson. O atleta, que mordeu a orelha de Evander Holyfield na lendária luta, em 1997, diz que muitas vezes o medo que os atletas sentem são imaginários. Ao se assumirem gays, por exemplo, recebem muito mais apoio e carinho da mídia e dos fãs do que críticas. Tais pensamentos dividem-se portanto entre se ter uma base concreta para se fixarem, devido ao mundo preconceituoso e racista em que vivemos e, por outro lado, o viés imaginário.

Hoje, Martin está profundamente envolvida na administração da Christy Martin Promotions, uma empresa de publicidade e desenvolvimento de boxe que ela fundou. Christy não apenas superou o terrível ataque que sofreu mas também está levando uma vida feliz e próspera. Há boxe feminino nas Olimpíadas, além de também estar presente na maioria dos países. Essa modalidade deixou de ser vista como um preconceito exagerado. Christy Martin não foi a primeira mulher pugilista, mas foi a lutadora que legitimou o boxe feminino.

Ao final do documentário, ela diz: “Não vou ficar bem. Eu estou bem. Finalmente, cheguei em um ponto onde posso ser eu mesma. E eu gosto disso!”. O tempo para sermos nós mesmos é contínuo, leva a vida toda. É um processo de luta diária, que acaba custando muitos anos da vida como foi com Martin.

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