A Guerra nos Balcãs (1991-2001) foi o resultado sangrento de uma política nacionalista extrema por parte do governo sérvio que queria “limpar” a antiga Iugoslávia de minorias étnicas através de assassinatos em massa, torturas e estupros e, assim, reinar soberano na região. “A Vida Secreta das Palavras” traz esta tragédia humanitária a partir de Hanna.   

Dilacerada pela experiência dessa guerra, a refugiada interpretada por Sarah Polley se encontra em um quadro total de enclausuramento afetivo, fragilidade e anda meio que no ‘piloto automático’ – como se fosse um tipo de robô humano programado para acordar, ir trabalhar, comer, voltar à casa e dormir. Hanna estudava enfermagem em Dubrovnik (Croácia) durante esse período da guerra e sofreu horrores inimagináveis nas mãos dos soldados locais e também das Nações Unidas. O trauma foi tão intenso que ela se recolheu em sua própria dor, levando uma vida solitária e de poucas palavras. 

Depois de ser praticamente “forçada” a tirar férias no emprego – pois nunca o tinha feito em quatro anos -, Hanna vai à Irlanda e lá acaba se tornando enfermeira de Josef (Tim Robbins, um operário que sofreu graves queimaduras enquanto trabalhava em uma plataforma de petróleo. 

O relacionamento entre os dois começa bem lento dado ao fato de Hanna não falar muito e ser bem reservada. Protegidos e blindados contra o sentir – Josef através da visão (em virtude das queimaduras) e Hanna através da dor -, ambos começam a desarmar-se com cuidado e utilizam alguns recursos pelo recíproco interesse em uma aproximação. Dentre eles, a conversa trivial do dia-a-dia tão comum que se usa para escaparmos de aprofundar nos assuntos da alma. É maravilhoso acompanhar a construção da confiança entre os dois personagens. Ela não se ganha gratuitamente, de fato. É preciso tempo, investimento, paciência. Quando encontram terreno seguro e fértil ao se abrirem em suas intimidades, naturalmente abre-se caminho para o amor. 

O SIGNIFICADO INCERTO DE SER SOBREVIVENTE

Tendo o apoio da Psicologia, mais especificamente da Psicoterapia, é possível fazermos um paralelo – mesmo quando não queremos – de quando alguém abre ou mexe em uma ferida e precisamos lidar com ela. Esse caminho é facilitado pelo cozinheiro da plataforma, Simon (interpretado pelo ótimo ator espanhol Javier Cámara): quando ao levar comida para Josef, ele menciona que se a mulher não for comprometida, não lhe interessa. Posteriormente, Josef se abre com Hanna e diz lamentar-se ao ter se apaixonado pela mulher de seu melhor amigo. “Como uma pessoa vive com o que aconteceu? As consequências”? – ele pergunta. 

Sentimento de culpa pode ser traduzido por uma paralisação no passado. Infere-se que ambos experienciavam tal sentimento. Mesmo antes do acidente que deixa Josef temporariamente cego, acreditamos já haver tal paralisia. Ao se expressar para Hanna, é como se fosse libertado de tal prisão sentimental. O mesmo acontece com Hanna quando finalmente se abre e conta o que aconteceu com ela (o clímax do filme, uma cena belíssima), mas recua depois por não conseguir lidar com seus sentimentos. 

Como explica a psicóloga de Hanna, Inge (Julie Christie), há culpa e vergonha em quem sobrevive a guerras. Em suas palavras, “essa culpa e vergonha são maiores que a dor, que é maior do que qualquer outra coisa e pode durar para sempre”. Um exemplo disso foi Primo Levi (1919-1987): o químico e escritor italiano sobrevivente do Holocausto sempre viveu com o peso da culpa por ter sobrevivido e os amigos não; especula-se até hoje que ele tenha se suicidado. O que significa, afinal, ser um sobrevivente? Carregar na alma, para sempre, essa dor imensa? 

NÃO SE AFOGAR

Das marcantes declarações de amor, esse filme “concorre” com a do anjo Seth interpretado por Nicolas Cage em Cidade dos Anjos (1998). Ao ser questionado sobre ter se arrependido de tornar-se humano, diz: “Eu prefiro tê-la beijado uma vez, tê-la abraçado uma vez, tê-la tocado uma vez, a passar a eternidade sem isso.” 

Em A vida secreta das palavras, Hanna diz que não teria como ficar com Josef pois teria medo de um dia chorar tanto que ambos morreriam afogados dentro do quarto. Eis que Josef, que havia confessado antes não saber nadar, jura que aprenderia… Simplesmente sensacional. 

Se há críticas a fazer, fica por conta da montagem: em inúmeras cenas, corta-se repentinamente de um plano para outro e sem muita explicação, apenas com a tela ficando em preto, em uma intensa escuridão. Há também um ganso que parece morar na plataforma, e que sinceramente não fez nenhum sentido para nós. 

Quanto aos atores principais, é um lamento que Sarah Polley tenha pouco destaque em sua carreira. Além da sua brilhante atuação como Ann no comovente Minha vida sem mim (2003), da mesma diretora de A vida secreta das palavras, Isabel Coixet, Polley não atua desde 2012 – vem se dedicando e se arriscando como diretora. O excelente Tim Robbins, em nossa opinião – já com seus 62 anos e um Oscar por seu papel no memorável Sobre Meninos e Lobos (2003) -, poderia ter tido mais enfoque como ator principal em sua carreira e não tanto como coadjuvante, o que vem acontecendo já há um bom tempo.

 A escolha de Polley e Robbins para esse belo filme que é A vida secreta das palavras foi perfeita. Ambos mostram uma naturalidade e sensibilidade incríveis ao interpretar personagens complexos e fechados para o mundo (principalmente no caso de Hanna), entregando atuações comoventes e profundas.

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