Com uma vasta carreira dirigindo curtas-metragens, a australiana Natalie Erika James finalmente fez sua estreia à frente de um longa com o terror psicológico ‘Relíquia’. Protagonizado por Emily Mortimer (“A Livraria”), a produção possui o abandono familiar e o envelhecimento como temáticas principais e, a partir disso, desenvolve o drama por meio de elementos comuns ao gênero de terror. Desta forma, a diretora não segue pelo caminho óbvio com cenas conflituosas a todo instante e, muito menos, cai nas armadilhas do terror com jump scares: Natalie James recria um cenário quase surreal para englobar o público em suas simbologias e abordar um tema tão recorrente e negligenciado.

“Relíquia” acompanha o retorno de Kay (Emily Mortimer) e sua filha Sam (Bella Heathcote) à casa da matriarca Edna (Robyn Nevin), a qual apresenta sumiços e descuidos frequentes. Inicialmente, a narrativa paira entre a possível demência de Edna, sendo incluídos elementos sobrenaturais sobre si e sua família posteriormente.

Logo em na cena de abertura, ‘Relíquia’ se apresenta como um filme extremamente sensorial: vemos a casa alagando enquanto Edna, nua e estática, é iluminada lentamente por luzes natalinas. O incômodo contraste demorado inicial dita o ritmo do filme, transitando entre cenas despretensiosas e momentos totalmente relevantes. Além do jogo na iluminação permanecer frequente por meio das inúmeras velas esculpidas por Edna, o som é muito bem aproveitado, não somente pela tradição de silêncio e barulho do terror, mas, por servir uma ampla ambientação da trama. Assim como o cenário, as personagens também são beneficiadas pela atenção especial da edição de som na captação de assobios, trejeitos e até mesmo seus passos.

Uma história familiar

Sem apelar para sustos previsíveis, a narrativa acostuma o espectador aos poucos com sua despretensão, dando a entender a existência de uma temática mais importante que seus mistérios aparentemente sobrenaturais. Desde o princípio, “Relíquia” deixa claro a presença da trama familiar e maternal, porém, o claro distanciamento de Edna torna este desenvolvimento menos explícito que o esperado.

Porém, após exibir habilmente o quebra-cabeça de pistas sobre sua trama, Natalie James prepara um desfecho surpreendente dentro do possível e, o melhor de tudo, extremamente significativo. Embora a temática sobre abandono e envelhecimento esteja presente em todo o filme com a descredibilização de Edna por Kay e Sam, o final dado a trajetória das três personagens reafirma o enfoque do longa e passa uma mensagem para seu público de forma sincera, acessível e condizente.  

Não, ‘Relíquia’ não é um filme extraordinário que vai “explodir mentes” ou fazer você pensar em seu desfecho durante vários dias, mas, na verdade, se trata de uma narrativa bem pensada e relevante. Sua construção e planejamento de cenas mantém a atmosfera de terror presente e muito bem aproveitada sem esquecer sua temática principal, a qual tem como grande benefício ser altamente simbólica, mas, ao mesmo tempo, nem um pouco burocrática de se entender.

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