Após assistir a Girlfriends (1978), o indie intimista de Claudia Weill, é difícil não se entregar a mesma sensação fantasmagórica de Wanda (idem, Barbara Loden, 1980): embora com enredos bastante diferentes, são obras que partem da perspectiva humanizada das protagonistas, explorando suas vivências íntimas e evolução a partir das particularidades impostas pela cultura ao seu gênero, mas sem esquecer de dar uma cara única às mulheres ali representadas. Com isso, os filmes causam uma impressão duradoura no espectador, acompanhando-nos por um bom tempo após a sessão.

E tal como Wanda, Girlfriends tem ainda o trunfo de ter influenciado toda uma leva de filmes subjacentes, ainda que muitos desconheçam a importância dos dois. No caso da obra de Weill, é absurda a semelhança de desenvolvimento de roteiro, escolhas de direção e atmosfera entre ele e Frances Ha (2012), sucesso alternativo de Noah Baumbach com roteiro de Greta Gerwig.

Em linhas gerais, o roteiro de Vicki Pollon a partir do argumento dela e da própria Weill nos apresenta Susan (Melanie Mayron). A fotógrafa de vinte e poucos anos divide um apartamento e tem uma amizade simbiótica com Anne (Anita Skinner), uma aspirante à escritora. Quando Anne decide se casar, a dinâmica entre as duas se transforma e Susan enfrenta novos desafios em busca de autonomia, reconhecimento profissional e amadurecimento na vida romântica.

Antigos novos problemas

Desde os primeiros minutos, já chama a atenção em Girlfriends como as personagens são expressas de maneira mais naturalista e menos forçada que em obras como o supracitado Frances Ha ou a série televisiva Girls, que também suga bastante dessa influência. As três lidam com vivências de jovens mulheres brancas com algum nível de privilégio (posto que as personagens até vivem alguns percalços econômicos, mas estão longe de serem pobres), porém, Susan é menos “sem noção” que suas parceiras de audiovisual.

Nesse sentido, se as linhas gerais da trama das três obras são similares, as personagem trabalhada em bela atuação por Mayron não é nada millennial: é tímida, mas cômica; tem um senso de humor judeu um tanto fatalista, mas é cheia de vida (ao contrário da infinidade de homens neuróticos de Woody Allen, referência óbvia quando pensamos em comédias dramáticas com pessoas brancas em Nova York). Aos olhos do espectador de hoje, o ritmo distinto de construção de Girlfriends dá um charme a mais ao longa, um quê de vintage, assim como sua fotografia granulada e de tons frios, um código fílmico típico das representações de Big Apple no cinema.

A fantasmagoria de Girlfriends vem, então, não de sustos ou temática de horror, posto que isso nada tem a ver com as desventuras de Susan e Anne enquanto uma acredita que a vida da outra é mais vibrante. Tem mais a ver, isso sim, com as temáticas atemporais de crescimento e evolução pessoal de jovens mulheres num ambiente urbano, ao passo que, aos jovens cinéfilos (e cinéfilas), apresenta um mundo quase “pré-histórico”, de telefones fixos e secretárias eletrônicas, sem smartphones e apps de paquera. Em suma, antigo em seu cotidiano e moderno em seus percalços.

Com isso, vemos embates como a busca de Susan por ser mais que uma fotógrafa de eventos e ter sua arte reconhecida (e conseguir pagar a conta de luz!), ou Anne tentando equilibrar casamento, filho e suas ambições literárias. Esta última, ainda que bem menos explorada por Weill no filme, consegue fugir de estereótipos batidos como o da amiga mais responsável e de vida mais convencional, tendo também traços distintos em sua construção.
Um exemplo disso é o paralelo entre duas cenas: na primeira, ela esboça um texto na máquina de escrever, enquanto Susan tenta lê-lo por cima dos ombros da amiga, o que a irrita; na segunda, o marido de Anne, Martin (Bob Balaban) repete o gesto, gerando a mesma reação da loira. É em pequenos detalhes como esse que emergem as personalidades e aspirações das mulheres em Girlfriends.

Elas e eles

Impossível não perceber que o longa de Weill também traz uma visão particular dos homens que rondam as personagens. Ainda que estes fossem subdesenvolvidos ou caricatos, ela e Pollon já estariam perdoadas pelos acertos do roteiro, mas ambas vão além. Martin, por exemplo, é mais que um “empecilho” à amizade de Anne e Susan, uma peça para fazer um dos conflitos da trama andar para frente. Captamos dele várias facetas, que vão desde a incompatibilidade de humores com a esposa (a cena em que escrevem cartões para agradecer os presentes de casamento mostra isso) ou a inesperada vivacidade no almoço com as protagonistas.

Por sua vez, Eric (Christopher Guest, de This is Spinal Tap) é o namorado que transita na linha tênue entre o homem comum e o boy lixo. Como o parceiro sutilmente gordofóbico de Susan, esse personagem também seria um prato perfeito para uma representação caricata, característica esta que a interpretação de Guest toma cuidado em não alcançar. Assim, ele constrói um coadjuvante levemente ansioso, folgado e ranzinza, mas também observador e divertido em vários momentos.

O fato desses homens serem bons coadjuvantes não muda o fato, porém, de que eles não tem a mínima ideia de como lidar com as mulheres com quem se relacionam. Mesmo a figura masculina que mais surge como potencialmente estável e vivida, o rabino Gold (Eli Wallach), é também, no fim das contas, apenas mais um indivíduo confuso quando ao perfil daquela geração de mulheres fora da curva em relação ao que deveriam ser seus papeis sociais tradicionalmente.

A levada de Girlfriends permite uma leitura a partir da qual podemos cruzá-lo com um controverso clássico da literatura feminista: Backlash, de Susan Faludi. Em alguns capítulos específicos da obra de não-ficção, a jornalista explana sobre como o movimento feminista retrocedeu nos anos 1980 quanto à representação das mulheres na mídia, cinema e TV, resultando num empobrecimento das narrativas sobre elas. Faludi parte do princípio que as forças do patriarcado incentivaram a ideia de que a “liberação” das mulheres já tinha sido plenamente alcançada, e que a estafa por ela causada seria o motivo da depressão e ansiedade da mulher moderna (e não outros fatores inerentes ao capitalismo e à resistência do patriarcado à mudanças).

Voltando ao filme, observamos que, de fato, o conflito entre trabalho e amor/família demarca Girlfriends, especialmente na personagem de Anne; porém, o embate não impele as personagens ao retorno de valores e vivências mais tradicionais. Pelo contrário: o que elas mais buscam é a liberdade para serem felizes em todos os âmbitos possíveis de suas vidas. Ironicamente, outro trabalho que tem relação com Weill é citado (e rechaçado) em Backlash: Thirtysomething. Trata-se de uma série que, na visão de Faludi, encapsulou a maneira como a televisão tornou palatável a desvalorização das conquistas feministas e o retorno ao papel subjugado da mulher na conservadora América dos anos 1980.

No elenco, temos Melanie Mayron novamente como uma jovem fotógrafa, e alguns episódios foram dirigidos por Weill. O motivo: após a boa recepção de Girlfriends, com o filme sendo elogiado até por Stanley Kubrick na época, ela nunca conseguiu desenvolver um projeto que alcançasse nem o mesmo êxito, nem com a mesma liberdade criativa. E partiu para trabalhar na televisão e no teatro, onde poderia conciliar melhor trabalho e maternidade. Mais uma curiosidade sobre um filme (e seus bastidores) que permanece tão atual, para o bem e para o mal.

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