“Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração” 

É difícil pensar em escrever qualquer análise-ou-crítica-ou-chame-do-que-quiser de “Cenas de um Casamento” (HBO, 2021) e não ter os pensamentos invadidos pela obra original – e homônima – de 1973, dirigida por Ingmar Bergman. O nome do diretor sueco já é autoexplicativo, por assim dizer. Soa quase que como uma audácia imaginar que um remake de uma minissérie considerada por tantos como a melhor já realizada na história (e pode incluir esta que vos escreve no grupo que eleva a produção a esse patamar, ainda que faça cada vez menos sentido imaginar rankings sobre obras artísticas, quando ainda há tanto para ser visto). 

Não que esse trabalho específico de Bergman já não reverberasse desde a década de 1970. Além de montagens teatrais que levaram essa e outras obras dele para os palcos de todo o mundo, o cinema bebeu dessa fonte com interpretações diversas sobre casamento e monogamia. O norte-americano, em especial, não se furtou da inspiração do fim de Marianne e Johan. Agora, de cabeça, dá para citar Woody AllenRichard Linklater e Noah Baumbach* como nomes que fizeram seus “Cenas de um Casamento” particulares. 

Toda essa divagação nos traz a 2021 e ao remake realizado com a chancela de um dos filhos de Ingmar, Daniel Bergman**. Criador das séries “BeTipul” (que ganhou várias versões ao redor do mundo, inclusive a norte-americana ‘In Treatment’ e a brasileira ‘Sessão de Terapia’) e “The Affair”, o israelense Hagai Levi adaptou o original de Bergman, com mudanças fundamentais para que a história se encaixe nos dias de hoje. 

“Já conheço os passos dessa estrada” 

Saem Johan e Marianne, papéis de Erland Josephson e Liv Ullmann na minissérie de 1973, e entram em cena Jonathan e Mira, interpretados por Oscar Isaac e Jessica Chastain. O cenário também muda: a Suécia dos anos 1970 dá lugar aos Estados Unidos do século 21. 

Se o Johan de 1973 era o provedor da família, agora esse papel cabe a Mira. A profissão do marido é preservada e ele segue professor universitário. No entanto, a esposa que era advogada de causas de família na obra de Bergman agora surge como uma profissional bem-sucedida de uma empresa de tecnologia. 

Pode parecer uma mudança que sinaliza os tempos atuais, mas também serve como uma extensão dos personagens. No terceiro episódio, um diálogo carregado de passivo-agressividade mostra o quanto o lado prático de Mira não corresponde ao que Jonathan idealiza: ele argumenta que uma possível mudança para Londres seria prejudicial para a filha de cinco anos do casal, que já construíra “uma comunidade” no subúrbio onde sempre moraram. A reação de Mira é suficiente para que ele ironize o fato de “as pessoas da área dela” não acreditarem nesse tipo de coisa. 

“Com seus mesmos tristes velhos fatos” 

No entanto, a espinha dorsal de “Cenas de um Casamento” segue a mesma. Hagai Levi preserva o caráter episódico do original, ao mesmo tempo em que propõe uma discussão atualizada sobre relacionamentos. Entramos meio convidados, meio intrusos, na casa de Mira e Jonathan, assim como a estudante que os entrevista na primeira cena. A dinâmica do relacionamento fica exposta: ao serem entrevistados para um estudo sobre monogamia e casais heteronormativos onde a mulher ganha mais que o homem, os dois mostram que os dez anos de casamento não são sinônimo de sintonia. Se Jonathan não para de falar e aproveita para jogar todas as suas teorias sobre matrimônio, Mira parece não estar mais ali. O desconforto é latente quando ela precisa responder as perguntas que o marido respondeu com desenvoltura. Algo de errado não está certo. 

Não demora para que entendamos que esse desconforto já está instalado na vida conjugal. Os dois são diferentes demais e querem coisas distintas, e, desde esse começo, a série já se preocupa em mostrar como eles não estão tão juntos quanto poderiam. A casa, nesse sentido, é um personagem importantíssimo na história. Cenário de todos os episódios e da maioria das longas cenas da minissérie, ela vai se descaracterizando enquanto lar a cada novo episódio, até que, no desfecho, vemos o imóvel, já pertencendo a outra família, com a intimidade que faltou naqueles anos em que Mira e Jonathan estiveram juntos. 

Com planos longos, Hagai e o diretor de fotografia Andrij Parekh estabelecem que ali os extremos se encontram. Há familiaridade, a briga contra o novo, mas também há estranheza, falta de pertencimento. Assim como Tom Jobim e Chico Buarque “conhecem os passos dessa estrada”, Mira e Jonathan também estão enraizados ali, ainda que isso não faça mais sentido. Eles conversam, conversam, conversam, conversam e não se conhecem. Quando um consegue entender algo, o outro não está na mesma página, e vice-e-versa. 

A culpa religiosa também tem papel fundamental na releitura de Hagai Levi. Na já citada primeira cena, Jonathan é indagado sobre como se definiria. Antes mesmo de falar que é marido, pai ou professor (três coisas que certamente viriam logo à cabeça ao ouvir uma pergunta como essas), ele diz que é judeu. E, ao longo dos cinco capítulos, ganhamos noção do quanto a religião e as pressões familiares foram pedras no relacionamento dele com Mira – tanto que, quando eles se separam, ele volta a praticar o Shabat. E é ainda mais curioso que duas das três cenas de sexo apareçam logo após os dois conversarem sobre os dogmas e tradições da religião. Não deixa de ser interessante ver a repressão retratada no lado masculino de um casal heteronormativo, e é essa repressão que logo vem à tona na pior briga deles, no quarto episódio (o melhor da série). 

E aí fica bem complicado não falar de “Cenas de um Casamento” sem mencionar as duas atuações principais. Peço perdão pela hipérbole, mas ela se faz necessária, porque Chastain realmente não tinha um papel tão desafiador há anos, e é até curioso que ele venha em uma girlboss, tipo de personagem no qual a atriz meio que se especializou, em filmes como “Armas na Mesa” e “A Grande Jogada“. Aqui, a sombra de Liv Ullmann funciona a seu favor. Chastain não tenta imitar a Marianne de Ullmann (até porque seria um tiro no pé), e sim, cria uma mulher moderna, que foge da passividade e tem ânsia de viver, ao mesmo tempo em que carrega traumas que vão, aos poucos, sendo descortinados. Oscar Isaac também estava há algum tempo sem um papel tão complexo quanto Jonathan, e, com ele, entrega um personagem que não quer abrir mão do que julgava ser tão perfeito. 

As trocas entre os dois são explosivas e, por mais que as brigas rendam as famosas “Emmy tapes”, os momentos silenciosos são fundamentais para que entendamos quem são aqueles dois – e aí dá para citar as reações de Mira enquanto Jonathan responde as perguntas na entrevista, os olhares que não trocam quando estão no banheiro, a forma como ele mascara a dor quando uma decisão precisa ser tomada no fim do primeiro episódio, a maneira como ele explica, quase que sem emoção alguma, por que resolveu seguir certo caminho no último episódio, a paz que Mira finalmente alcança… 

São cenas que formam uma colcha de retalhos daquele relacionamento e que mostram por que chegou a dar certo em um momento, mas principalmente por que e como aquele casamento desmoronou sem que os dois percebessem. Ainda assim, os bastidores mostrados no início dos episódios nos mostram: aquilo é uma encenação. Mas, o que não é? Já diria Shakespeare (em uma tradução bem livre), “todo o mundo é um palco e os homens e mulheres são meramente atores”. 

Ao que escutamos a melodia familiar de “Retrato em Branco e Preto” na voz de Elis Regina no desfecho dessa história, entendemos que Mira e Jonathan encontraram esses papéis, ainda que não ideais e que certamente fujam do que eles idealizaram 17 anos antes, quando começaram a andar por essa estrada. É encenação, mas também é vida, como a série não nos deixa esquecer até o último segundo, quando vemos Mira e Jonathan darem lugar a Jessica e Oscar, que caminham, abraçados e felizes, para seus próximos projetos. A vida continua e a audácia de Hagai Levi em refilmar Bergman se revelou uma grata surpresa. 

*Baumbach é um que deixou a inspiração explícita em seu “Histórias de um Casamento”. No filme, é possível ver um recorte de revista ou jornal com uma foto dos personagens de Scarlett Johansson e Adam Driver ilustrando uma matéria intitulada… “Scenes from a Marriage”.

**Daniel teve a ideia e procurou Hagai Levi após assistir a “In Treatment”.

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