Ter sido mulher na Argélia de 1990 durante uma guerra civil e a escalada do poder de grupos muçulmanos a partir do extremismo islâmico e intolerância religiosa foi uma jornada de sobrevivência. Em “Papicha”, o filme que representa a Argélia como pré-candidato ao Oscar na categoria de Melhor Filme Internacional, a diretora estreante  Mounia Meddour usa a moda e um núcleo de personagens femininas, fortes e inspiradoras, como uma mensagem de resistência e poder dentro do contexto sociopolítico da época.

“Papicha” conta a história de Nedjma (Lyna Khoudri), uma jovem estilista que luta contra as imposições de seu país, pelo direito de vestir e fazer o que quiser, enfrentando com coragem todas as consequências de suas escolhas. Ela é estudante de francês e, junto com uma amiga, foge nas noites para vender seus belos vestidos em banheiros de boates.

Com o espírito livre e sonhador, a protagonista luta contra as imposições, usa roupas coloridas, cabelos soltos, maquiagem escura no rosto e, por meio de um desfile de moda com roupas feitas por ela, tenta viver seus sonhos e não deixar que o fanatismo e autoritarismo de seu país a apague.

Para a diretora Mounia Middour, a moda é a linguagem de resistência de seu filme e a força de sua protagonista é a inspiração para desenvolver uma trama tão envolvente quanto dolorida. A forma como Mounia filma Nedjma desenhando vestidos em seu caderno, costurando e tocando em tecidos é de uma delicadeza inspiradora, que remete a Reynolds Woodcock, vivido por Daniel Day Lewis no majestoso “Trama Fantasma”.

MENSAGEM DE ESPERANÇA

Em seu roteiro, nada passa despercebido: Mounia usa o regime totalitário e aterrorizante em que vive as mulheres e explica a política de maneira muito didática enquanto observamos os caminhos de Nedjma, suas amigas e sua família. É um filme com elenco principal inteiramente feminino e os homens que são adicionados no caminho são sempre interesseiros, agressivos, o que não é um problema, uma vez que qualquer personagem ali que pudesse parecer um príncipe só deixaria a trama sem o peso que ela tem.

Nedjma foi criada pela mãe, tem uma irmã jornalista e amigas tão fortes e dedicadas como ela e acredito que por isso seja uma personagem tão completa. Desde os primeiros minutos acompanhamos a protagonista trocando de roupa em um táxi nas ruas escuras da Argélia a caminho de uma boate. No meio do caminho, o veículo é parado por policiais agressivos que perguntam para onde elas estão indo e porque estão na rua tão tarde da noite. Mounia usa planos fechados, luzes amarelas e cores vibrantes para fazer com que o espectador entenda o quão obscuro é o mundo daquela personagem.

No grupo de mulheres ao redor de Nedjma, vemos uma mulher jovem que segue todos os costumes religiosos, usa túnicas que cobrem seu corpo e cabelos, mas teme ter que parar de estudar, após o casamento arranjado pelo irmão. Em tempos de extremismo político e discurso de ódio, a protagonista nos mostra como é possível amar e estar ao lado de quem tem costumes e ideologias diferentes dos nossos e ressalta a importância da união feminina. A cena em que elas estão tomando banho juntas ou na praia serve bem para ilustrar isso.

Em ‘Papicha’, a diretora não poupa críticas a uma sociedade machista, que assedia, maltrata e mata mulheres pelo simples fato delas não usarem a túnica negra que deixa seu corpo coberto. O roteiro brinca com os sentimentos do espectador ao mesclar cenas bonitas, de alegria, criação, família e depois estarrecer com um assassinato, cemitério e a forma como aquelas mulheres vão lidar com a prisão que é aquele regime. Repleto de cenas emblemáticas, Papicha nos faz refletir o quão difícil é ser mulher nesse mundo, mas também deixa uma mensagem de esperança e força que só nós mulheres podemos e devemos ter.

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